Paixão de Cristo, A

24/10/2007 | Categoria: Críticas

Mel Gibson faz filme tão brutal quanto belo, tecnicamente competente, mas de ética e ideologia questionáveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“A Paixão de Cristo” (The Passion of the Christ, EUA, 2004) é um filme sobre um personagem histórico de dois mil anos de idade, mas funciona melhor como um retrato da cultura globalizada do século XXI. A visão de Mel Gibson sobre as últimas doze horas da vida de Jesus Cristo não poderia ter sido feita em outra época. Para afirmar isso, basta observar algumas palavras que descrevem a obra em traços gerais: hiperviolência, ódio, estilização estética, androginia, culpa, pecado.

Não há dúvida de que “A Paixão de Cristo” é uma tentativa sincera de mostrar ao público o quanto Jesus Cristo sofreu antes de morrer. Esse era o objetivo declarado do cineasta Mel Gibson e ele, sem dúvida, cumpriu seu objetivo com louvor. As cenas de violência são brutais, cruas, dolorosas, chocantes, impressionantes mesmo. A visão insistente do corpo desfigurado de Jesus, durante metade do filme, é incômoda e nauseante. Esse é o tipo de filme que perturba qualquer espectador, por mais duro que seja. Se você deseja, ao entrar num cinema, apenas mergulhar num mundo narcotizante de fantasia durante duas horas, “A Paixão de Cristo” não é para você.

Do ponto de vista técnico, o diretor de “Coração Valente” consegue oferecer uma pungente demonstração de quão virtuoso pode ser atrás da câmera. Gibson explora bem as expressões faciais dos seus atores, em particular de Jim Caviezel, o protagonista. Gibson sabe que isso é fundamental nesse projeto, pois demonstrar visualmente sentimentos tão profundos exige o uso dos corpos do elenco. Uma lição simples para qualquer cineasta que se preze: para fazer um drama intimista, é preciso saber valorizar os rostos dos atores. Não há melhor maneira de capturar sofrimento, dúvida ou raiva em celulóide.

Talvez por causa disso, a fotografia majestosa de Caleb Deschanel é o grande destaque de “A Paixão de Cristo”. O fotógrafo busca inspiração nas pinturas de Caravaggio para criar um filme mergulhado em sombras. A iluminação pesada empresta ao longa-metragem uma sensação de gravidade. O filme retrata um mundo crepuscular. Os fortes contrastes de luz e sombras, aliados a uma trilha sonora insistente e baseada em corais femininos, evocam melancolia e dão ao filme um clima solene, épico, reforçando a idéia de que estamos presenciando um espetáculo histórico da maior importância.

Como o longa-metragem é inteiramente falado em aramaico, latim e grego, Mel Gibson fez diálogos econômicos e apostou mais na mise-em-scène, uma expressão que os franceses usam para descrever a relação intrínseca entre os elementos visuais do filme (ou seja, a composição entre atores, objetos, iluminação e movimentos de câmera).

O trabalho de Mel Gibson corre na contramão do que fazem muitos cineastas contemporâneos, utilizando uma combinação de iluminação expressionista e ênfase na expressão corporal dos atores para comunicar sensações. Gestos e olhares dizem mais do que palavras. Observe, por exemplo, a cena nos jardins do Getsêmane, em que Jesus pede a Deus que o livre do sofrimento vindouro, se puder. A resposta divina é uma ação da natureza: uma nuvem cobre a lua cheia, jogando uma enorme sombra sobre o rosto de Cristo. A metáfora prevê as horas seguintes.

Em outro momento, quando Judas se arrepende da traição e decide se enforcar, Gibson mostra uma faceta cruel, fazendo o apóstolo encontrar uma corda no pescoço de uma carcaça de cavalo, infestada de vermes, que parece rir dele. Uma terceira seqüência (um dos muitos flashbacks curtos que relembram passagens importantes da vida de Cristo) mostra como Jesus livrou Maria Madalena do apedrejamento. Nos dois últimos casos, nenhuma palavra é pronunciada. Comunicar sem o uso de palavras é algo que comprova a habilidade de um diretor.

Cinematograficamente, portanto, o filme é bem feito. O problema de “A Paixão de Cristo” está em outra área. O excesso de violência que aparece na tela, por exemplo, parece ser um reflexo de nossa época. “A Paixão de Cristo” é apenas mais um exemplo de um fenômeno que tem preocupado tanto artistas quanto filósofos contemporâneos. Fredric Jameson, um dos mais celebrados pensadores da atualidade, chamou esse fenômeno de “esmaecimento do afeto”.

A teoria de Jameson é simples: percebendo que o público fica anestesiado pelo bombardeio de violência exibido em filmes de ação e telejornais, os artistas precisam recorrer a imagens cada vez mais fortes, mais agressivas, para poder despertar a audiência da letargia e chamar a atenção para a mensagem que querem passar. Daí “Irreversível”, “Clube da Luta” e, agora, “A Paixão de Cristo”. Todos esses filmes apelam para imagens chocantes a fim de forçar o espectador a prestar atenção e, assim, dar importância àquilo que desejam comunicar.

“A Paixão de Cristo” jamais poderia ter sido feito, por exemplo, nos anos 1950, quando os cineastas sequer tinham coragem de mostrar o rosto de Jesus em filmes. A figura de Cristo era mais idealizada; dava-se mais importância à faceta divina dele. E, ao contrário disso, é o homem Jesus que Mel Gibson quis enfatizar. Nesse sentido, o filme se aproxima um pouco do que Martin Scorsese buscou em 1988, ao fazer o maravilhoso “A Última Tentação de Cristo”. A diferença é que Scorsese segue a linha progressista, enquanto Gibson prefere ser um radical conservador. O Jesus sereno dos filmes bíblicos de Hollywood dá lugar a um homem humilhado, espancado brutalmente. A seqüência em que Cristo é açoitado pelos soldados romanos ilustra uma carnificina como poucas vezes o cinema mostrou.

Há momentos, no filme, em que Mel Gibson age como o Deus vingativo do Velho Testamento. São seqüências curtas, que pegam o diretor de guarda baixa e deixam escapar vislumbres de sadismo e homofobia. Um exemplo está na própria cena da tortura. Um dos soldados pega, a certo momento, um instrumento de tortura que parece um arame farpado com anzóis nas pontas. A platéia sabe o que está prestes a testemunhas e se encolhe nas cadeiras, quanto Gibson estica a espectativa por longos segundos, exibindo uma demonstração do quanto aquele chicote pode machucar: o militar bate com ele numa mesa, arrancando lascas de madeira dura como se fosse espuma de colchão. Depois, faz o mesmo com a corpo do homem que os católicos chamam de filho de Deus. É uma cena de dar pesadelos.

Quando Cristo está na cruz, um dos ladrões crucificados ao lado zomba dele. Sem esperar muito, aparece um corvo negro que arranca os olhos do sujeito a bicadas. O corvo surge como uma personificação do diretor/pregador dentro do filme, já que é uma liberdade poética que não foi descrita em nenhum evangelho. O pássaro é Mel Gibson. O animal faz aquilo que o diretor gostaria de fazer. Portanto, estão aí dois exemplos de seqüências curtas, que podem até passar despercebidas diante do festival de atrocidades exibido na tela, mas que depõem claramente contra o cineasta. Sim, o filme pode ser acusado de sádico.

No fundo, “A Paixão de Cristo” sequer é, como Gibson gosta de apregoar, um filme realista. Se fosse, Jesus não poderia ter olhos claros e cabelos louros, mas pele queimada e rosto arredondado, como eram os habitantes da Palestina há dois mil anos. As muitas tomadas em câmera lenta e as aparições de Satanás (uma figura andrógina que, ao lado do Herodes efeminado surgido em um bacanal, deixa uma forte suspeita de homofobia no ar) também não são realistas.

Em outras palavras, Mel Gibson só foi realista quando isso interessava à ideologia que defende. Anti-semita? É possível que as cenas da condenação de Cristo, em que quase toda a multidão usa o tradicional traje dos sacerdotes judeus, dê mesmo essa idéia. A falta de contextualização da ameaça política que Jesus representava para a elite judia reforça a impressão. Mas não custa lembrar que há muitos judeus bons: os apóstolos, Maria Madalena, Simão Cirineu (o homem que ajuda Jesus a carregar a cruz) e o próprio Cristo. De fato, a crucificação de Cristo foi um problema político, não religioso. O filme não se coloca abertamente em posição anti-semita.

E mais: isso pouco importa. “A Paixão de Cristo” defende um ponto de vista ideológico a respeito de Jesus. Trata-se de uma pregação, o Evangelho Segundo Mel Gibson. E qualquer pessoa de bom senso sabe que usar a violência para pregar a paz – mesmo que seja a hiperviolência cinematográfica, com sangue de mentira – não é uma atitude muito louvável do ponto de vista ético.

O DVD brasileiro para locadoras não possui extras. O disco mantém o corte original (widescreen 2.40:1 anamórfica) e tem som Dolby Digital 5.1. A edição definitiva, dupla, agrega ao disco 1 quatro comentários em áudio (três sobre os bastidores da produção e um comparando a ficção com a realidade). O disco 2 tem um documentário (100 minutos) de bastidores e mais cinco featurettes (60 minutos) abordando a vida como ela era na época de Cristo.

– A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, EUA, 2004)
Elenco: Jim Caviezel, Maia Morgenstern, Monica Bellucci, Rosalinda Celentano
Direção: Mel Gibson
Duração: 127 minutos

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