Paixão de Fortes

02/08/2006 | Categoria: Críticas

Faroeste clássico de John Ford une romance e ação para celebrar um estilo de vida mais simples

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Produzido logo após o final da Segunda Guerra Mundial, “Paixão de Fortes” (My Darling Clementine, EUA, 1946) é a versão do grande diretor John Ford para o mito americano do famoso tiroteio de 1881 na cidade de Tombstone, um dos episódios mais conhecidos do Velho Oeste. Mais do que refilmar a história do lendário xerife Wyatt Earp (já contada em tantos filmes anteriores), a intenção de Ford era celebrar os valores e o modo de vida dos EUA, objetivo alcançado com sobras por um dos cineastas mais importantes na consolidação da linguagem do cinema falado.

“Paixão de Fortes” não é exatamente um faroeste clássico, um filme de ação ambientado nas pradarias e desertos poeirentos do oeste americano; o que John Ford queria era mostrar um pouco do estilo de vida do século XIX. É um filme saudosista, nostálgico do passado. Celebra uma vida mais simples, em que o tempo parecia andar mais devagar. Por isso, Ford capricha na ambientação: as conversas entre amigos, os desafios entre inimigos, o cavalgar nas pradarias e no deserto, as bebedeiras, a missa dominical, a quermesse, os passos de dança, os galanteios, a poeira das estradas, tudo isso está no longa-metragem.

Não há dúvida de que a proximidade dos horrores da guerra influenciou indiretamente no filme. Ford e Henry Fonda, ator que interpreta o protagonista, lutaram no conflito, viram muito sangue, e retornaram a Hollywood convencidos de que podiam contribuir para celebrar os valores simples de uma vida mais rural. Foi por isso que Ford escolheu a história de Earp para celebrar essa convicção. Foi por isso, também, que o diretor optou por recusar a verdade histórica e preferiu filmar a lenda, a romantização do fato. O lendário tiroteio dos irmãos Earp com os ladrões de gado da região não aconteceu da forma que o filme mostra, nem tanta gente morreu durante o combate, mas isso não importava. Não era a verdade histórica que Ford, que conheceu o verdadeiro Wyatt Earp em 1927, nos bastidores de um filme, queria.

No filme, Henry Fonda interpreta um caubói bem diferente do estereótipo do machão viril cultivado em Hollywood. Ele é um homem que usa perfume, gosta de fazer a barba todos os dias, é delicado e gentil. Sim, pode ser macho quando preciso, mas isso não implica em deixar de ser cortês com as mulheres, mesmo com as prostitutas como Chihuahua (Linda Darnell) e nem desarrumado. O perfil do personagem não permitiu que Ford usasse no papel seu ator predileto, John Wayne, muito mais rústico e bruto do que o sujeito gentil de cintilantes olhos azuis que era Henry Fonda. A escolha não poderia ser mais perfeita.

No todo, o filme é uma perfeita fábula do Velho Oeste, equilibrando a trama entre uma história de vingança (Wyatt Earp se candidata ao cargo de xerife da violenta cidade de Tombstone na esperança de encontrar e vingar os ladrões de gado que mataram seu irmão mais novo, no começo da trama) e um romance clássico (é na cidade que Earp conhece Clementine, a delicada professora da cidade grande que chega à região em busca do seu ex-noivo, Doc Holliday, interpretado por Victor Mature). O estilo simples e direto da direção de Ford garante ritmo firme, diálogos brilhantes e um clímax empolgante, com um tiroteio em um campo empoeirado fotografado brilhantemente por Joe McDonald.

O DVD duplo da Fox tem duas versões diferentes do filme, uma em cada disco, e um documentário (41 minutos) que explica detalhadamente quais as mudanças entre as duas versões (ambas com imagem em 4:3 e som em Dolby Digital 2.0, restaurados com competência). A versão presente no primeiro CD é a oficial e inclui diversas alterações feitas pelo chefão da Fox, Darryl Zanuck, à revelia de John Ford. A segunda versão tem seis minutos a mais, aproxima-se do corte original do diretor e foi descoberta em 1973, nos arquivos da Universidade da Califórnia.

É interessante observar que as diversas mudanças feitas pelo estúdio tornam o filme mais melodramático e didático, e por isso menos eficiente. A pedido de Zanuck, um outro diretor filmou novas cenas (como o monólogo de voz embargada de Earp diante do túmulo do irmão) e cortou outras. A edição utiliza muito mais closes de rostos e inclui trilha sonora em quase todas as seqüências, no lugar dos sons ambientes que John Ford queria utilizar. O final também tem uma mudança fundamental, embora sutil. A intenção de Zanuck era acentuar os momentos mais dramáticos, e as alterações surtem o efeito desejado, embora ele seja bastante discutível. Mas isso você mesmo, leitor, tem a chance de comparar.

– Paixão de Fortes (My Darling Clementine, EUA, 1946)
Direção: John Ford
Elenco: Henry Fonda, Linda Darnell, Victor Mature, Cathy Downs
Duração: 97 e 103 minutos

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