Paixão Selvagem

20/11/2008 | Categoria: Críticas

Filme de Serge Gainsbourg não tem muita sutileza e traz algumas das metáforas mais vulgares sobre fixação anal de personagens gays

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A seqüência de abertura de “Paixão Selvagem” (Je T’Aime… Moi Non Plus, França, 1976) causa surpresa por conter uma das metáforas mais óbvias e esparrentas do cinema francês, normalmente bem mais sutil. A cena em questão mostra dois rapazes obviamente gays, que usam calças jeans coladas e camisetas coloridas, dirigindo um caminhão-caçamba em direção a um depósito de lixo. A câmera observa tudo lá do alto (ângulo conhecido no jargão cinematográfico como “bird’s eye”, ou “olho de pássaro”). Quando chega ao destino, o motorista do veículo dá ré e pára à beira dos entulhos, erguendo a caçamba para lá despejar mais dejetos. Há um corte, e o novo ângulo de câmera (baixa) enfatiza o eixo de metal do caminhão se erguendo, impávido, enquanto um pianinho de boteco emoldura os olhares cúmplices dos dois amantes. Talvez seja a cena mais gay de toda a história do cinema.

É difícil entender o motivo que levou o compositor boêmio Serge Gainsbourg, garanhão conhecido no meio artístico de Paris por papar divas como Brigitte Bardot, a estrear na direção com um longa-metragem repleto de sugestões anais implícitas e explícitas, a maioria delas bastante vulgares. Há quem tente fazer uma leitura diferente do filme, argumentando que se trata de uma investigação do desejo carnal à moda de longas como “O Último Tango em Paris” ou “Império dos Sentidos”, ambos muito populares na época. É até possível que assim seja. Pena que Gainsbourg não tenha sutileza no uso da linguagem cinematográfica, e a psicologia que rege o personagem principal, Krassky (Joe Dalessandro), seja tão rasteira e banal.

O sexo é o signo sob a qual habitam os três personagens cujas vidas se cruzam. O caminhoneiro Krassky, loiro com cara de mau e tremenda fixação anal, vive há meses com Padovan (Hugues Quester) uma paixão fulminante. Bem, fulminante até o momento em que ele entra num boteco de beira de estrada e dá de cara com Johnny (Jane Birkin), garota de olhos azuis com aparência masculinizada, graças aos cabelos curtos e à quase absoluta ausência de seios e bunda. A expressão simultânea de surpresa e excitação que o rapaz não consegue conter quando descobre que o atendente do bar é ela, e não ele, deixa evidente o interesse sexual imediato que a menina desperta. Logo os dois estarão transando furiosamente, para desespero de Padovan. O problema é que Krassky só consegue fazer sexo anal, por razões absolutamente óbvias.

Verdade seja dita: “Paixão Selvagem” não funciona como investigação do desejo, nem é sobre preconceito. A história acompanha de perto a turbulenta relação carnal que se desenvolve entre o caminhoneiro e a garçonete, fazendo referências anais a cada cinco ou dez minutos de projeção (o personagem flatulento do dono do bar, o caminhão cheio de vasos sanitários, as inúmeras cenas de sexo violento que invariavelmente terminam com a expulsão dos amantes de todos os motéis da região), mas jamais tenta desvendar os mistérios que movem os personagens. Ademais, o clássico pop-cafajeste que dá título ao filme, aqui apresentado em versão instrumental tocada por um órgão de churrascaria, é mais fuleira e grudenta do que refrão do Bon Jovi.

O longa-metragem foi exibido nos cinemas brasileiros, mas não ganhou ainda lançamento para o mercado caseiro. A melhor edição disponível em DVD é francesa. O disco simples tem imagens com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico), áudio mono restaurado (Dolby Digital 1.0) e traz entrevistas com produtores como bônus, incluindo ainda um CD com quatro canções da trilha sonora.

– Paixão Selvagem (Je T’aime… Moi Non Plus, França, 1976)
Direção: Serge Gainsbourg
Elenco: Joe Dalessandro, Jane Birkin, Hugues Quester, Reinhard Kolldehoff
Duração: 89 minutos

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