Paixões que Alucinam

10/12/2005 | Categoria: Críticas

Sam Fuller cria microcosmo dos EUA em drama perturbador que se passa dentro de manicômio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O norte-americano Samuel Fuller é um atípico caso de diretor à frente do seu tempo. Ele sempre gostou de filmes vibrantes, apaixonados, que mexessem com temas tabus, o que lhe afastou bastante do público, inclusive daquela fatia mais exigentes de cinéfilos. É provável que isso tenha acontecido por uma razão simples: Fuller adorava um vespeiro. Onde ninguém mais tinha coragem de meter a mão, lá estava ele enfiando o dedo. “Paixões que Alucinam” (Shock Corridor, EUA, 1963), um dos filmes mais conhecidos que fez, tem todos os atributos que marcaram sua obra.

O longa-metragem veio logo antes do chocante e polêmico “O Beijo Amargo”, que tratava de pedofilia da maneira abusada e sem firulas que sempre caracterizou a abordagem do diretor. “Paixões que Alucinam” é um pouco mais suave, mas só um pouco. O filme narra a saga do ambicioso jornalista Johnny Barrett (Peter Breck), que simula insanidade para ser internado em um hospício e investigar o misterioso assassinato de um louco cometido dentro da instituição. Lá dentro, ele pretende entrar em contato com três internos que assistiram ao crime. A esperança de Barrett é conseguir extrair deles o nome do assassino e, assim, faturar o prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo internacional.

Para começar, a maneira encontrada pelo jornalista para se infiltrar no manicômio é um truque misógino, característica típica de Samuel Fuller: ele obriga a namorada stripper (Constance Towers, belíssima, brilhando como nunca nas explosivas seqüências de dança em que revela um par de pernas estonteante) a se passar por irmã dele e denunciá-lo à polícia por abuso sexual. Interessante que, entre tantas maneiras que poderia ter criado para justificar o internamento do seu personagem principal, Fuller tenha escolhido justamente a maneira mais chocante, mais moralmente repulsiva, ao evocar um incesto. Claro que Barrett, devidamente orientado por um psiquiatra, consegue ser trancafiado no hospício.

Ao contrário do que a sinopse pode dar a entender, “Paixões que Alucinam” não é uma investigação criminal, mas uma espécie de irmão mais velho de “Um Estranho no Ninho”. Ao invés de direcionar suas baterias contra a instituição de tratamento de doenças mentais, no entanto, o alvo de Sam Fuller é bem maior e mais abrangente: os Estados Unidos. Cada um dos pacientes do manicômio com quem Barrett trava contato representa uma faceta negra da história da sociedade norte-americana: a Guerra Civil, o racismo e a paranóia provocada pelo aparecimento da bomba atômica.

As três testemunhas do assassinato no hospício são loucos com delírios psicóticos. Um pensa ser um general em plena Guerra Civil, outro (negro) se pretende membro da Ku Klux Klan, e o terceiro é um brilhante cientista que, depois de ajudar a construir a bomba atômica, enlouqueceu e passou a apresentar a idade mental de uma criança de 6 anos. O esqueleto narrativo do filme é o único ponto fraco de “Paixões que Alucinam”, já que, a partir da internação do jornalista, o filme se divide em três atos, idênticos em estrutura. Em cada um, o jornalista se aproxima e conquista a confiança de uma testemunha, presenciando dela um momento de lucidez e extraindo uma informação incompleta a respeito do assassinato.

Por outro lado, “Paixões que Alucinam” acerta ao mostrar o processo mental de Johnny Barrett, cuja ambição o impede de medir esforços para alcançar o objetivo final, de forma que a atitude começa a pôr em risco a própria sanidade dele. O comportamento do jornalista, aliás, oferece uma leitura que emparelha perfeitamente com as outras três metáforas envolvendo os personagens do filme, pois representa, talvez, a maneira cega como o norte-americano médio se atira em direção ao “sonho americano”, tomando atitudes e decisões que, no mínimo, têm éticas questionáveis. A deterioração mental de Johnny Barrett, aliás, obtém de Fuller uma descrição cinematográfica bastante perturbadora.

Além de dirigido, “Paixões que Alucinam” foi também escrito e produzido pelo diretor, que se revela um mestre nos diálogos. Merece destaque, talvez, a impressionante seqüência do discurso em que o negro Trent (Hari Rhodes) revela a extensão do seu ódio aos homens da própria raça, em uma cena que certamente deve ter provocado polêmica em 1963, ano da produção do filme, já que na época os Estados Unidos viviam um período conturbado, do ponto de vista racial. Com cenas como essa, fica evidente porque Sam Fuller foi considerado pelo mestre Martin Scorsese como um dos grandes “contrabandistas” (diretores que introduziam, sorrateiramente, grandes temas em obras aparentemente inofensivas) do cinema dos EUA. Resumindo: biscoito fino para cinéfilos.

O DVD é um típico lançamento da Aurora. O longa-metragem comparece em cópia de ótima qualidade, com imagem de corte original (1.85:1) e som muito bom (Dolby Digital 1.0). Entre os extras, apenas um trailer, biografias e trechos de críticas.

– Paixões que Alucinam (Shock Corridor, EUA, 1963)
Direção: Samuel Fuller
Elenco: Peter Breck, Constance Towers, Gene Evans, James Best
Duração: 101 minutos

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