Palavras ao Vento

01/05/2006 | Categoria: Críticas

Douglas Sirk usa formato do melodrama para criticar valores da família norte-americana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Palavras ao Vento” (Written on the Wind, EUA, 1956) faz parte da melhor e mais conhecida fase do diretor dinamarquês Douglas Sirk em Hollywood. O nome do cineasta é sempre associado ao vocábulo “melodrama”, muitas vezes rejeitado por cinéfilos que costumam, por sua vez, associar o estilo às novelas de TV e suas emoções de plástico. Para essas pessoas, mencionar “Palavras ao Vento” como o filme que inspirou o clássico seriado “Dallas” (e, por conseqüência, uma miríade de outras novelas) não ajuda muito à obra de Sirk. “Palavras ao Vento”, porém, é uma prova cabal de que julgar uma película apenas pelo seu gênero é um erro que jamais se deve cometer. Neste caso, trata-se de um grande filme.

Douglas Sirk foi uma das dezenas de diretores de Hollywood que emigraram da Europa fugindo do nazismo (na mesma leva, vieram Billy Wilder, Fritz Lang e outros grandes nomes do cinema). Ele forjou um estilo próprio nos anos 1950, subvertendo sutilmente os clichês do melodrama para tecer uma crítica implacável à falida estrutura familiar norte-americana. Em outras palavras, os filmes de Sirk têm a aparência vistosa dos longas-metragens da época de ouro de Hollywood, mas por baixo dessa aparência denunciam a hipocrisia das relações sociais.

Em “Palavras ao Vento”, o cineasta dinamarquês tece um quadrado amoroso entre quatro pessoas ligadas a uma família milionária do ramo do petróleo. Dois são integrantes da família Hadley: Kyle (Robert Stack) é um playboy alcoólatra, e Marylee (Dorothy Malone), uma ninfomaníaca. Marylee ama Mitch Wayne (Rock Hudson), espécie de filho adotivo da família, e o homem que toca os negócios da empresa. Ele é o protótipo do homem perfeito: bonito, respeitoso, inteligente e sincero. Mesmo assim, passa a maior parte do tempo bancando a babá de Kyle.

O quarto vértice do quadrado dá partida na trama do filme, recheada de insinuações inteligentes de homossexualidade e incesto: Lucy (Lauren Bacall) é uma publicitária por quem Kyle e Mitch se apaixonam ao mesmo tempo. A moça resiste e depois cede às investidas de Kyle, que se casa e se esforça para virar alguém respeitável. Por pouco tempo, é claro.

O estilo de Douglas Sirk combina um visual requintado e explosivo com diálogos maliciosos que sugerem sexo o tempo inteiro. Sirk trabalhou com o fotografo Russell Metty, que utilizou as vantagens do então revolucionário sistema Tecnicolor e privilegiou as cores quentes e fortes, em especial o azul, o vermelho e o amarelo, criando um visual extravagante e hipercolorido. Metty também caprichou nos enquadramentos precisos e colocou espelhos em todos os cantos da magnífica mansão dos Hadley, onde se passa grande parte da trama.

Filmar com espelhos é uma temeridade, uma vez que superfícies espelhadas podem refletir a presença dos integrantes da equipe de filmagem, mas os enquadramentos perfeitos evitam o problema com habilidade. Há uma linda tomada sem cortes, por exemplo, no momento em que Lucy entra no quarto da pousada aonde vai se hospedar na Flórida, logo no início do filme. A câmera cruza o quarto, acompanhando a mulher e dando um jeito de mostrar Mitch, à porta, esperando por ela. Uma tomada belíssima.

Douglas Sirk também encheu o longa-metragem com intervenções de música melodramática, de forma a acentuar o exagero do enredo e as situações trágicas. Seus personagens, perceba, são em geral pessoas frívolas, fúteis, desagradáveis até. Os irmãos Kyle e Marylee, que representam a classe alta, são fracos e cheios de imperfeições. Mitch, o bastião da dignidade, é sutilmente revestido por insinuações de homossexualidade (ele e Kyle dividem o mesmo quarto, na já citada pousada da Flórida, com a naturalidade de amantes). Lucy é a pessoa inocente que acaba tragada pelo mundo corrompido dos Hadley. Ela jamais parece apaixonada por Kyle; espectadores mais atentos podem achar que a moça casa por Kyle mais por interesse do que por gostar dele.

A atualidade de “Palavras ao Vento” é garantida pelo excelente roteiro, repleto de diálogos com frases de duplo sentido, ironias disfarçadas e sarcasmo sutil. É preciso atenção, no entanto, para perceber como Douglas Sirk está criticando, e não exaltando, o estilo de vida dos personagens. A lição do cineasta dinamarquês foi devidamente apreendida por cineastas como o alemão Rainer Werner Fassbinder e o espanhol Pedro Almodóvar, que também utilizaram o melodrama de forma subversiva. Este último mostra influência decisiva de Sirk tanto no visual de cores primárias quanto na galeria de personagens desagradáveis, que marcam presença, por exemplo, em “Má Educação”.

O lançamento nacional de “Palavras ao Vento” foi feito pela Classicline. O DVD contém apenas o filme, mas a qualidade da cópia é ótima, uma vez que foi retirada do lançamento da Criterion nos EUA. O longa-metragem aparece com imagens restauradas, no formato original (widescreen anamórfico) e com trilha de áudio Dolby Digital 2.0 Mono.

– Palavras ao Vento (Written on the Wind, EUA, 1956)
Direção: Douglas Sirk
Elenco: Rock Hudson, Robert Stack, Lauren Bacall, Dorothy Malone
Duração: 99 minutos

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