Pancho Villa

14/03/2006 | Categoria: Críticas

Sátira de Eugene Martín sobre episódio histórico verdadeiro tem bons momentos de comédia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A chave para curtir os acertos de “Pancho Villa” (EUA/Espanha/Inglaterra, 1972) é não tentar entendê-lo como uma tentativa de exibir em filme uma versão do famoso episódio da invasão norte-americana cometida pelo lendário revolucionário mexicano. O cineasta espanhol Eugenio Martín não queria fazer uma biografia e nem uma versão ficcional daquele momento histórico, tão simbólico para o povo do México. Martín queria produzir uma sátira, nos moldes do que Stanley Kubrick fez na obra-prima “Dr. Fantástico” (1964). E conseguiu.

O tom farsesco conseguido pelo longa-metragem de 1972 persegue, com afinco, o mesmo registro cômico que Kubrick ousara imprimir em celulóide, oito anos antes. Mas que fique claro: Eugene Martín não é Stanley Kubrick, e não teve a mesma perícia do diretor de “Laranja Mecânica” em um projeto tão delicado. Afinal, um dos maiores trunfos de “Dr. Fantástico” é que o filme jamais se assume como comédia, deixando no espectador uma espécie de gargalhada suspensa, um registro realmente difícil de obter. Kubrick enfrentou o desafio com perfeição. Já Martín fez um filme irregular.

O projeto, apesar de desenvolvido nos Estados Unidos, tem algumas qualidades. A primeira delas é o elenco. Telly Savalas (o detetive careca Kojak), apesar de parecer completamente inadequado para interpretar um mexicano, por não falar espanhol e nem ser fisicamente parecido com o verdadeiro Pancho Villa, faz um ótimo trabalho. Ele sabe que está em uma sátira, mas jamais cai na tentação do exagero – não tenta, por exemplo, falar espanhol com sotaque, o que seria vergonhoso e deporia contra o filme.

Outro destaque no elenco é o antagonista Chuck Connors, que faz o Coronel Wilcox, homem encarregado de perseguir Villa após a invasão de uma pequena cidade norte-americana. Connors é o protagonista da melhor cena do longa-metragem, um jantar no quartel em que tenta a todo custo expulsar uma mosca do refeitório militar. A seqüência demonstra claramente a influência dos chamados faroestes espaguete (os westerns exagerados e estilosos filmados na Itália, na mesma época) sobre o filme. É inclusive usando a mesma técnica tosca de dublagem que Eugenio Martín dribla outros problemas de elenco, substituindo as vozes de personagens equivocados e dando ao todo um timbre burlesco.

Devido a problemas de produção, o filme se tornou um exemplar obscuro que cinema independente, sem pertencer à linhagem nobre dos faroestes norte-americanos e nem aos primos bastados que eram produzidos às pencas na Europa da época. Sem pertencer a uma turma, “Pancho Villa” acabou ridicularizado e jogado na obscuridade. Apesar d ser um filme irregular, trata-se de diversão descompromissada de algum interesse histórico.

Um parêntese especial deve ser mencionado: o episódio histórico que o longa-metragem ficcionaliza – a invasão do bando de Villa aos EUA – é real, e aconteceu em março de 1916. Durante cinco horas, aproximadamente 500 seguidores de Pancho Villa atravessaram a fronteira, investiram contra um forte militar e saquearam a cidade de Durango, na fronteira com o Texas. O fato foi essencial para a perpetuação do mito de Villa, que já havia se transformado de ladrão de gado em revolucionário, muito querido pela população por desafiar os poderosos norte-americanos. A invasão provocou uma expedição punitiva que envolveu 10 mil soldados dos EUA, durou 10 meses e não deu em nada. Mas o filme de Gene Martín não enfoca essa segunda parte da história.

O DVD da Aurora marca a primeira vez que o longa-metragem é lançado no Brasil. O disco não contém material extra, mas a cópia do filme tem boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 letterboxed) e som (Dolby Digital 2.0).

– Pancho Villa (EUA/Espanha/Inglaterra, 1972)
Direção: Eugenio Martín
Elenco: Telly Savalas, Chuck Connors, Clint Walker, Anne Francis
Duração: 92 minutos

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