Pânico 4

22/05/2011 | Categoria: Críticas

Decupagem à moda antiga, roteiro que mescla novos e antigos personagens, abertura criativa: filme renova o fôlego do veterano Wes Craven

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Pânico 4” (Scream 4, EUA, 2011) é o típico filme difícil de realizar e fácil de atirar pedras. A dificuldade vem do fato de que os três filmes anteriores da franquia elevaram para um patamar proibitivo os salários dos atores que interpretam os principais personagens – e fazer o filme sem a presença deles seria garantia de fracasso financeiro. A facilidade, por sua vez, tem origem num velho clichê da crítica de cinema: seqüências são sempre inferiores ao original, o que significa que para muita gente boa o longa-metragem já é ruim antes mesmo de ser visto. Tente abstrair esses dois preconceitos, contudo, e encontrará uma divertida sessão de horror à moda antiga, escrita por um roteirista que sabe escrever e dirigida por um diretor que conhece conceitos básicos como ritmo e enquadramento.

Como se pode notar, então, o grande charme de “Pânico 4” é o reencontro do veterano cineasta Wes Craven com o escritor Kevin Williamson. Para quem não acompanhou a produção do primeiro “Pânico”, vale a pena relembrar que o projeto da comédia de horror que satirizava os clichês do slasher movie (filão do gênero dedicado a mostrar crimes cometidos por psicopatas), a partir de doses generosas de metalinguagem, é do segundo. Craven andava meio em baixa das cotações de Hollywood, em meados de 1990, e viu no trabalho a oportunidade de se reinventar. Deu certo, mas as duas primeiras seqüências não viram de novo a dupla trabalhando junta, e esse fato certamente contribuiu para que os dois filmes seguintes acabassem mergulhando na coleção de clichês que o primeiro filme satirizava.

Para “Pânico 4”, os dois tinham pelo menos dois grandes desafios. O primeiro: resgatar os três personagens sobreviventes do filme original (para atrair os espectadores mais velhos) e, ao mesmo tempo, escalar um elenco jovem, capaz de satisfazer à geração mais nova de que aquela franquia ainda valia a pena. O segundo desafio, claro, consistia em renovar a fórmula original – denunciar os clichês do gênero, ao mesmo tempo que os utiliza – sem simplesmente repeti-la e também sem se afastar demais dela. Craven e Williamson conseguem alcançar ambos os objetivos, ainda que com algumas derrapagens menores pelo caminho, e é isso que faz de “Pânico 4” uma das boas surpresas do ano, e um dos melhores exemplares do cinema de horror em 2011.

O enredo focaliza o retorno da protagonista Sidney (Neve Campbell) à cidade de Woodsboro, para lançar um livro sobre o primeiro massacre. Quando ela chega lá, outro assassino mascarado começa a matar, em crimes investigados por Dewey (David Arquette) e Gale (Courteney Cox). Williamson usa, contudo, o truque de sobrepor à ação dos três “tios” do elenco toda uma miríade de personagens jovens, novatos na série, que servem de carne para o novo assassino, além de manter o interesse da parcela mais jovem do público. Embora tudo isso resulte numa grande gama de personagens, e na conseqüente dificuldade de acompanhar todos os lances e viradas do roteiro, a estratégia funciona muito bem. A longa seqüência de abertura (o filme-dentro-do-filme-dentro-do-filme-etc-etc-etc) confirma o roteiro afiado, e ainda providencia comentários cortantes sobre novos filões do cinema de horror, com críticas ao torture porn.

Essas críticas são reforçadas pela decupagem clássica de Craven, pela montagem firme e pelos efeitos especiais à moda antiga, com muito sangue falso e tripas, gerando um efeito visual levemente caricatural, muito distante do suposto realismo alcançado por obras como “O Albergue”, e extremamente bem-vindo. Claro que “Pânico 4” está longe de ser perfeito, como comprova o tenebroso monólogo final do assassino da vez, mas confirma que tanto Wes Craven quanto Kevin Williamson trabalham num nível claramente acima dos realizadores contemporâneos de horror.

– Pânico 4 (Scream 4, EUA, 2011)
Direção: Wes Craven
Elenco: Neve Campbell, David Arquette, Courteney Cox, Emma Roberts
Duração: 111 minutos

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