Pânico

28/04/2006 | Categoria: Críticas

Thriller bem-humorado de Wes Craven leva o mérito de ter revigorado o cinema de horror em 1996

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

É inegável a importância de “Pânico” (Scream, EUA, 1996) como ponta-de-lança de um bem-vindo movimento de renovação do horror no cinema. Na época em que o veterano cineasta Wes Craven, criador do imortal (sem trocadilhos) personagem Freddie Kruger, lançou o filme, é fato que o horror vivia uma entressafra. Filmes pequenos e assustadores eram uma raridade, e a maior parte dos lançamentos de grandes estúdios não dava medo em ninguém. O maior mérito de Wes Craven foi utilizar a metalinguagem e muito humor para criar algo original.

A grande sacada de “Pânico” não pode ser contabilizada inteiramente na conta de Craven, aliás, pois marca forte presença no roteiro do jovem escritor Kevin Williamson. A receita criada por ele acabou se revelando tão simples quanto eficiente: elaborar uma história inteiramente a partir de clichês do gênero, como a mocinha de ar virginal e o assassino mascarado, mas fazer com que os personagens tivessem total consciência desses clichês.

Um exemplo? “Todo personagem de filme de horror que faz sexo acaba assassinado”, diz um dos jovens do filme, em certo momento. Na cena seguinte, quando vemos um casal transando, sabemos que eles vão virar carne de presunto em poucos instantes. A estratégia é criar humor a partir da autoconsciência dos personagens de que, na realidade, estão dentro de um filme de horror. Além do mais, “Pânico” não se leva muito a sério, mas também não se assume como pastiche completo. Dessa forma, transita com desenvoltura entre a comédia e o horror, com ótimo resultado.

Nem todos os méritos, porém, vão para o roteiro. A direção segura de Wes Craven fica evidente já a partir da longa seqüência de abertura, em que o veterano diretor cita dois clássicos do horror com sutileza. A premissa básica – uma garota recebendo um trote telefônico de um psicopata que está mais perto do que ela imagina – vem do relativamente desconhecido “Mensageiro da Morte” (1979). De “Psicose” (1960), ele rouba a genial estratégia de apresentar um falso protagonista.

Assim, quando a platéia vê a famosa atriz Drew Barrymore em cena, instintivamente tem certeza de que ela será a protagonista, e dessa forma não pode morrer logo. Quando o mascarado acerta nela a primeira facada, aos 10 minutos de projeção, a sensação é de desorientação, o que faz tremendamente bem ao filme. Daí para frente, sabemos que Wes Craven vai se dedicar a quebrar várias regras do cinema de horror, o que significa, na prática, que jamais teremos de novo a certeza sobre a segurança de qualquer um. Muito bom.

Além destas qualidades, “Pânico” ainda se beneficia da inteligente máscara criada para vestir o assassino, uma estilização cartunesca da face vista na famosa pintura expressionista “O Grito”, de Edvard Munch. A máscara fez tanto sucesso que virou figurinha fácil em bailes carnavalescos, passando a ser instantaneamente reconhecida em qualquer lugar do planeta. “Pânico” foi um dos primeiros grandes sucessos da Miramax, faturando US$ 103 milhões após gastar apenas US$ 13 milhões. É um excelente exemplo de que a criatividade, em termos de horror cinematográfico, não pode ser substituída por grandes orçamentos.

A história, para quem não sabe, conta a saga de Sidney Prescott (Neve Campbell), uma pacata moradora da minúscula cidade de Woodsboro, que se vê perseguida por um misterioso assassino serial. O filme, além de apostar na metalinguagem e fazer disso uma fonte inesgotável de humor, flerta com o tradicionalíssimo “whodunit”, subgênero do thriller de suspense que instiga o público a tentar adivinhar a identidade do criminoso. Jogando com essas regras, Wes Craven fez um filme pequeno, que não é uma obra-prima, mas tem lugar cativo na história do cinema da década de 1990.

O filme foi lançado em DVD no Brasil pela Vídeo Arte, em disco simples e sem extras, com qualidade apenas razoável de som e imagem. Muito pouco para a importância do longa-metragem para a renovação do gênero de horror.

– Pânico (Scream, EUA, 1996)
Direção: Wes Craven
Elenco: Neve Campbell, Drew Barrymore, Courtney Cox, David Arquette
Duração: 112 minutos

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