Pantera Cor-de-Rosa, A

13/10/2008 | Categoria: Críticas

Genial, Peter Sellers era apenas coadjuvante no longa-metragem de estréia da série cômica dirigida por Blake Edwards

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Qualquer menção à série cômica “A Pantera Cor-de-Rosa” traz à mente duas imagens eternas: o personagem satírico do famoso desenho animado e o atrapalhado inspetor francês Jacques Clouseau, personagem mais famoso do comediante Peter Sellers. É uma ironia perceber que essas duas imagens icônicas eram apenas elementos coadjuvantes no filme homônimo de 1963, planejado pelo diretor Blake Edwards como uma mistura de thriller de detetive e comédia física ambientada no ambiente da aristocracia européia. Aliás, o fato de Peter Sellers possuir relativamente pouco tempo em cena contribui bastante para que “A Pantera Cor-de-Rosa” (The Pink Panther, EUA, 1963) não esteja entre os melhores momentos da franquia de onze filmes (se forem contabilizados a refilmagem de 2006 e a seqüência, de 2009).

Na verdade, o longa-metragem foi concebido como veículo para aproveitar a pinta de playboy de David Niven, galã de meia-idade com muita penetração nas altas rodas dos países europeus. O estúdio MGM, que financiou a produção, pensava no filme como o início de uma série cinematográfica especialmente dedicada a Niven. O astro interpreta um aristocrata londrino com fama de namorador e preguiçoso. O que as pessoas não sabem é que Sir Charles Litton, o bon-vivant, exerce nas horas vagas o nada recomendável ofício de ladrão de jóias. Sem que as pessoas saibam, ele é o Fantasma, atrevido larápio que sempre deixa uma luva de pelica com a inicial P (de Phantom, “Fantasma” em inglês) no lugar dos tesouros que surrupia.

A idéia inicial, inspirada no clássico “Ladrão de Casaca”, de Hitchcock, era dar início a uma série de filmes contando as aventuras de um ladrão simpático e galanteador. Partiu de Blake Edwards a idéia que iria mudar o destino da série: a contratação de Peter Sellers para interpretar o antagonista, um atrapalhado detetive francês que permanecia no encalço do Fantasma, sem nunca conseguir capturá-lo. A caracterização construída por Sellers acabou transformando Clouseau num ícone da comédia física. Inspirando-se nas expressões corporais de Jacques Tati, Sellers criou um personagem inesquecível. Bagunçado, Clouseau se acha um gênio, embora seja incapaz de traçar um raciocínio dos mais simples. Ele fala inglês com um sotaque francês carregado e, sem querer, atrapalha mais do que ajuda nas investigações.

O enredo de “A Pantera Cor-de-Rosa” se equilibra habilmente entre duas linhas narrativas, oscilando entre o romance ligeiro e a comédia pastelão, com o thriller servindo de conexão entre elas. Na principal, Litton põe em prática um plano para roubar o maior diamante do mundo – a jóia cujo nome dá título do filme – com a ajuda da amante, que convenientemente está casada com Clouseau. O ladrão pretende seduzir a herdeira (Claudia Cardinale) da pedra preciosa, tida como moça tímida e virginal. A outra trama mostra os esforços alucinados do detetive francês para descobrir a identidade do Fantasma. Apesar de trazer a atriz italiana no auge da beleza (Cardinale tem uma boa cena de sedução com Niven, deitada dentro de um tapete de pele de onça), a trama principal é nitidamente inferior à secundária, abrilhantada pela participação sempre impagável e hilariante de Peter Sellers.

As longas seqüências em que o detetive tenta convencer a esquiva esposa a fazer amor, enquanto a mulher dá tratos à bola para se livrar da presença dele, estão entre os momentos mais eletrizantes do filme, embora interrompam visivelmente a narrativa, não contribuindo em nada para que a ação dramática avance. Numa homenagem explícita ao longa-metragem de Hitchcock, Blake Edwards cria um clímax ambientado dentro de uma festa à fantasia, numa mansão européia, com a diferença que o festejo sofisticado está repleto de lances cômicos, incluindo a fantasia absurda escolhida por Clouseau (um cavaleiro medieval, cuja armadura o impede de se mover direito) e os encontros curiosos entre dois personagens centrais, que usam fantasias idênticas. Infelizmente, a última seqüência – certamente feita tendo em mente a continuidade da série, com Niven à frente – contradiz todo o filme e funciona como um tremendo anticlímax. Não é de espantar que esta cena seja convenientemente esquecida nos longas seguintes da franquia.

Além da fantástica performance de Sellers, há pelo menos mais dois elementos de destaque no longa-metragem. Um deles é o já citado personagem do desenho animado, que aparece na abertura divertida. A pantera egocêntrica fez tanto sucesso que obrigou a MGM a criar uma série animada de aventuras com o animal, exibidas na TV. O outro elemento importante foi o tema musical inesquecível criado pelo maestro Henry Mancini, executado em um arranjo jazzístico de metais que se tornou famoso no mundo inteiro. Apesar de ter faturado quatro Oscar na carreira e ter sido autor de inúmeras trilhas importantes, Mancini acabaria sendo lembrado, pelo resto da vida, como o autor da “música da pantera”, que é mesmo sensacional. Sozinha, ela já valeria o filme.

O DVD nacional não traz nenhum extra, mas respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e tem áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). O lançamento carrega o selo da Fox.

– A Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther, EUA, 1963)
Direção: Blake Edwards
Elenco: David Niven, Peter Sellers, Claudia Cardinale, Capucine
Duração: 115 minutos

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