Papai Noel Às Avessas

10/05/2005 | Categoria: Críticas

Terry Zwigoff comete uma paródia natalina que se situa no limite entre a sátira e o grosseiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Contos de Natal são uma das tradições de Hollywood para a temporada de final de ano. Alguns clássicos do cinema norte-americano pertencem a esse filão, como “A Felicidade Não Se Compra”, de Frank Capra. Em geral, essas produções pretendem ser comédias românticas produzidas para toda a família, do filho caçula ao avô, assistirem juntos. “Papai Noel Às Avessas” (Bad Santa, EUA, 2003) se orgulha, no entanto, de ser o oposto, um negativo perfeito, desse tipo de trabalho. O cineasta Terry Zwigoff cometeu uma paródia natalina que se situa no limite entre a sátira e o grosseiro.

A boa novidade é que existem poucos filmes que transitem nessa área de fronteira perigosa com confiança e desenvoltura. No geral, produções do gênero só conseguem fazer rir apelando para piadas velhas, gastas, ou para situações envolvendo flatulências, fluidos corporais e palavrões. Já o roteiro de Glenn Ficarra e e John Requa vai bem além do previsível, operando um pequeno milagre: o texto satiriza não apenas o clássico filme natalino para toda a família, mas também o longa-metragem adolescente padrão, responsável por grosserias no estilo “American Pie”.

“Papai Noel Às Avessas” retrabalha todos os clichês dos dois gêneros, fundindo-os em uma só história, que é movida a convenções desgastadas, como os diálogos repletos de palavrões. Nesse ponto, o cineasta Terry Zwigoff produz seu milagre pessoal: os clichês não são simplesmente repetidos, mas subvertidos, e narrados dentro do mais deslavado formato narrativo tradicional do filme natalino. “Papai Noel Às Avessas” busca inspiração no clichê, mas o critica, não apenas o repete. Por isso, o supera. Daí o filme ser tão legal.

A dupla Willie (Billy Bob Thornton) e Marcus (Tony Cox) tem uma maneira pouco comum de ganhar a vida. Todo ano, há oito temporadas, os dois se reúnem em dezembro e arranjam emprego em grandes lojas de departamento, como Papai Noel e seu ajudante elfo, aproveitando o fato de Marcus ser anão. Os dois, no entanto, são ladrões profissionais. O esquema consiste em estudar o funcionamento da loja e aproveitar a noite do Natal para arrombar o cofre do lugar e raspar o tacho. A grana acumulada os sustenta durante o resto do ano, até que, onze meses depois, lá está a dupla reunida, em outra cidade, para repetir o golpe.

Na oita vez que vão repetir o estrategema, em Phoenix (EUA), a dupla tem um problema: Willie. Alcoólatra e nem um pouco sociável, ele está de saco cheio com a vida e não faz mais a menor questão de esconder isso. Por isso, torna-se um Papai Noel irritado, que vive caindo de bêbado e destratando os pirralhos. “Quero ganhar um carrinho magnético”, diz a certa altura uma das crianças. “Que porra é isso?”, dispara o mau velhinho. “Se manda daqui, guri”, completa, acertando uns tapas no pequeno. Esse é o tratamento que ele destina aos garotos, evidentemente quando não está desmaiado de tanto beber ou transando com alguma atendente gorda – Willie tem uma tara especial por mulheres acima do peso – no trocador feminino da loja.

Há duas linhas narrativas no filme, a partir deste personagem, ambas inspiradas no clássico conto natalino que mostra a redenção de alguém que, no fundo, não é má pessoa, mas foi arrastado para a sarjeta pelas circunstâncias. Numa delas, Willie conhece um menino solitário (Brett Kelly, perfeito), e o pirralho acredita que ele é o verdadeiro Papai Noel. Baseado nessa crença, o menino simplesmente não está nem aí para as grosserias do mau velhinho, e começa a manter com ele uma amizade pouco comum. Essa linha narrativa lembra um bocado “Um Grande Garoto”, filme inglês baseado em livro de Nick Hornby.

Enquanto lida com a criança, Willie também continua com o plano do roubo da loja, junto com Marcus. Por causa do desleixo e das atitudes excêntricas do rapaz durante o serviço, no entanto, a dupla vai contar com alguns probleminhas extras.

Um detalhe importante: “Papai Noel Às Avessas” está muito longe de ser o passatempo familiar que se espera de um filme natalino. Na versão cinematográfica do filme, de 91 minutos, os personagens declamam “apenas” 134 vezes a palavra “fuck”, sem falar de “shit”, “ass”, de algumas cenas pesadas de sexo e outras insólitas demais para serem vistas por alguém com idade abaixo de 14 anos – pense, por exemplo, em quão bizarro seria ver um Papai Noel esmurrar um adolescente no rosto e quebrar-lhe um skate na cabeça. Pensou que nunca veria essa cena? Pois ela está em “Papai Noel Às Avessas”.

Não pense, contudo, que está diante de um filme que celebra esse tipo de barbaridade. Longe, muito longe disso. O diretor Terry Zwigoff (que fez o clássico documentário “Crumb”) é um dos cineastas atuais mais credenciados para trabalhar com personagens perdedores, que os americanos chamam de losers. Ele constrói uma narrativa ágil, envolvente, e exibe um carinho insuspeito por seus personagens, ao mostrar como o encontro de dois seres desprezados à margem da sociedade pode significar a salvação para ambos. Não é piegas, e é ótimo.

Com produção executiva dos irmãos Joel e Ethan Coen, e o apoio do sempre ótimo Billy Bob no papel principal, Zwigoff foi capaz de construir uma comédia feroz de crítica ao “american way”, disfarçada de conto natalino para adultos. Não é niilista como o Monty Python, nem simplesmente grosseiro como uma piada para adolescentes, mas uma sátira engraçada que mira no cinema bundão e mainstream de uma sociedade egoísta e sem sal – e acerta.

Para quem viu o filme no cinema, uma boa novidade: o DVD contém uma versão sem censura do filme, o que lhe dá mais alguns minutos (e palavrões). Trechos com entrevistas e cenas de bastidores completam a festa. Mas o DVD da Europa peca por ter formato de tela cheia (com cortes lateriais) e áudio Dolby Digital 2.0, de apenas quatro canais. Também ficamos semos erros de gravação, presentes no DVD importado. Pena.

– Papai Noel Às Avessas (Bad Santa, EUA, 2003)
Direção: Terry Zwigoff
Elenco: Billy Bob Thornton, Tony Cox, Brett Kelly, Lauren Graham
Duração: 93 minutos

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