Paranóia

13/12/2007 | Categoria: Críticas

D.J. Caruso dilui a trama de ‘Janela Indiscreta’ em versão teen cheia de engenhocas eletrônicas e déficit de atenção

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Diante da crise criativa que vem assolando diretores e roteiristas ao redor do mundo, dar uma roupagem contemporânea a clássicos do passado é uma atitude que surge como forma relativamente segura de atrair a audiência. Pelo menos este é o ponto de vista dos grandes estúdios, sempre pouco dispostos a arriscar grandes somas de dinheiro em projetos originais e arrojados. Esta é a posição conservadora que justifica a existência de “Paranóia” (Disturbia, EUA, 2007). O filme, dirigido por D.J. Caruso (“Tudo por Dinheiro”, “Roubando Vidas”), dilui a história de “Janela Indiscreta” – sim, o clássico voyeur de Alfred Hitchcock – em um híbrido de thriller/romance adolescente recheado de engenhocas eletrônicas.

Curiosamente, o roteiro de “Paranóia” andou circulando durante anos a fio, em Hollywood, antes que Steven Spielberg visse nele uma galinha dos ovos de ouro. O texto original de Christopher Landon esteve prestes a ser produzido em meados dos anos 1990, mas outra refilmagem de “Janela Indiscreta” (com Christopher Reeve no papel principal) saiu na frente e mandou o projeto para a geladeira. A idéia voltou a ser requentada em 2004, e aí o roteirista Carl Ellsworth foi contratado para dar uma roupagem jovem à história. Ele não mudou muita coisa – basicamente, “Paranóia” é “Janela Indiscreta” com telefones celulares, câmeras de vídeo digitais, biscoito com sorvete e trilha sonora hip hop/heavy metal.A diferença é que o filme de Caruso sofre do mesmo déficit de atenção que a maior parte dos jovens que formam seu público-alvo: se mantém em constante movimento, sem conseguir se concentrar numa só assunto, e isso é algo especialmente ruim dentro de uma história marcada pelo confinamento geográfico.

Kale (Shia LaBeouf) é um jovem de 16 anos que, traumatizado por ter visto o acidente que matou o pai, bate num professor durante um acesso de fúria e é condenado a passar 90 dias em prisão domiciliar. Usando uma coleira eletrônica que não lhe permite ir além do jardim, o rapaz passa a maior parte do tempo espiando a rotina dos vizinhos. Aos poucos, passa a dar atenção especial a dois deles. Ashley (Sarah Roemer) é uma gatinha por quem está apaixonado, e o taciturno Sr. Turner (David Morse) parece estar envolvido num homicídio. Kale logo imagina que ele pode ser o serial killer responsável pelo desaparecimento de uma garota das redondezas, mas para provar isso só poderá contar com a ajuda de Ashley e do amigo bobão Ronnie (Aaron Yoo).

Como já havia comprovado em trabalhos anteriores, o diretor D.J. Caruso é um operário esforçado, e conduz a trama de forma burocrática. Ele inclui algumas referências ao original – na seqüência mais tensa, um dos “auxiliares” de Kale invade a casa do suspeito em busca de provas, exatamente como Grace Kelly fazia no filme de 1954 – mas evita o que havia de melhor em “Janela Indiscreta”: a atmosfera claustrofóbica, a tensão amplificada pelo confinamento, a sensação de vulnerabilidade, a iminência do perigo. Metido a romântico, o filme dedica mais tempo a observar a evolução da paquera entre Kale e Ashley do que em mostrar os jovens investigando o suspeito, e esta decisão dilui bastante a tensão. Além disso, na hora do clímax o diretor não hesita em quebrar as regras estabelecidas desde o começo do filme, o que é decepcionante. Ainda assim, o longa-metragem tem grandes chances de agradar à turma que vive pendurada dia e noite em MSN e celular.

O DVD da Paramount tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Contém ainda comentário em áudio, cenas cortadas, videoclipe musical, erros de gravação e um making of.

– Paranóia (Disturbia, EUA, 2007)
Direção: D.J. Caruso
Elenco: Shia LaBeouf, Sarah Roemer, David Morse, Carrie-Anne Moss
Duração: 105 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »