Paranoid Park

03/04/2008 | Categoria: Críticas

Original e coerente, película de Gus Van Sant reafirma interesse do diretor pelos afetos dos adolescentes dos EUA

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Não é à toa que Gus Van Sant ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2003. O cinema do diretor norte-americano deve muito à França, e não apenas a Jean-Luc Godard, autor-fetiche de nove entre dez cineastas contemporâneos com ambições autorais. Van Sant demonstra, especialmente nos trabalhos feitos já dentro do século XXI, uma curiosa influência de Robert Bresson, cineasta pré-nouvelle vague cuja obra iconoclasta e idiossincrática já pareceu fadada a não deixar seguidores, como gostava de dizer François Truffaut. Este último, aliás, também tem lá suas digitais dentro do trabalho do diretor americano. Se fosse possível fazer um coquetel com os filmes dos três diretores franceses citados neste parágrafo, o resultado poderia levar a assinatura de Gus Van Sant.

Embora a referência tripla a grandes inovadores da linguagem cinematográfica seja elogiosa, ela pode causar uma impressão equivocada. O diretor de “Elefante”, afinal, não é um imitador. Longe, muito longe disso. Desde que decidiu abandonar Hollywood e filmar em escala mínima, usando atores não-profissionais, Gus Van Sant tem construído uma obra sólida, original e muito coerente. Pode-se, eventualmente, não gostar da maneira como ele filma. Trata-se de um diretor que privilegia o estilo e nutre um saudável desprezo pela arte essencialmente norte-americana de contar uma história. Os filmes de Van Sant estão mais interessados em sensações do que em eventos. “Paranoid Park” (EUA, 2007) é o mais acessível trabalho do diretor porque alia – algo raro no diretor – história e atmosfera num todo compacto e coerente.

Observado dentro do contexto da carreira de Gus Van Sant, “Paranoid Park” parece uma seqüência lógica dos últimos trabalhos assinados por ele. Como “Elefante” e “Últimos Dias” (2005), lança um olhar sensível ao universo adolescente norte-americano. Desta vez ele o faz sem ficcionalizar um evento real, como havia feito nos dois trabalhos anteriores (que versam sobre, respectivamente, o massacre a alunos da Escola Columbine e a morte de Kurt Cobain). É uma obra mais espontânea e despretensiosa, que usa o formato dramático de um thriller como desculpa para investigar o movimento interno do personagem principal, um adolescente de 16 anos envolvido na misteriosa morte de um vigia de ferrovia em Portland, Oregon (cidade natal de Van Sant).

Tendo também escrito o roteiro do longa-metragem, o cineasta utiliza a velha e eficiente técnica da desconstrução cronológica da narrativa para gerar suspense e curiosidade no espectador. É apenas jogo de cena, fumaça nos olhos, uma isca para fisgar a platéia. Van Sant está interessado não na investigação do acidente, mas nas conseqüências que ele provoca em Alex (Gabe Nevins). O objetivo, portanto, é captar o tumulto interior – o medo, a culpa, a confusão mental – do protagonista. E esse tumulto interior aparece justamente numa fase naturalmente complicada da adolescência, com o despertar sexual e a alienação típica da idade.

Sempre interessado em filmar os afetos da adolescência, Van Sant mostra-se particularmente interessado na linguagem dos jovens: o modo de falar, as gírias, a expressão corporal, a dificuldade de se expressar de forma articulada. O quadro que emerge da experiência feita pelo cineasta é mais amplo do que uma história íntima. Mesmo sem ter essa ambição, ele acaba construindo um interessante retrato de geração. Também aparece, perfeitamente integrado ao filme, o abismo de gerações entre adultos e adolescentes contemporâneos. São dois mundos sobrepostos, que operam no mesmo espaço geográfico, mas quase nunca se tocam. Um não entende o outro. Tudo isso está no filme de forma indireta, transportada para o celulóide através de tomadas longas que funcionam como assinatura visual do diretor: muitos silêncios e longas caminhadas sublinhadas por uma trilha sonora estranhamente eclética, que mistura indistintamente vinhetas cômicas e dramáticas, melodias orquestradas, hardcore, blues, baladas acústicas, rap (preste atenção especialmente à cena em que Alex tem uma conversa dura com a namorada, enquanto Van Sant retira o som ambiente e enche o espaço acústico com a mais inusitada melodia de Nino Rota, produzindo um efeito absolutamente original).

Os toques dos três mestres franceses estão em todos os lugares. A montagem arrojada, que alinhava brilhantemente passado, presente e futuro, remete a Godard. O afeto genuíno pelo mundo adolescente descende de Truffaut. As expressões catatônicas dos atores não-profissionais são puro Bresson, e funcionam muito bem dentro do contexto do filme (profissionais cederiam à tentação de “construir” os personagens, dando menos chance para que a platéia projete seus próprios afetos e preencha por si só os espaços vazios da narrativa). Além de tantos predicados, Van Sant acerta sobretudo no final aberto e absolutamente adequado. É preciso ter em mente, sempre, que “Paranoid Park” não narra um thriller, mas o processo de aceitação de um evento traumático. Por isso o resultado final parece tão original.

– Paranoid Park (EUA/França, 2007)
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Gabe Nevins, Dan Liu, Jake Miller, Taylor Momsen
Duração: 85 minutos

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