Parceiros da Morte

10/02/2009 | Categoria: Críticas

Primeiro longa-metragem de Sam Peckinpah é tímido, mas traz as marcas do grande diretor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Considerando o tamanho do impacto e da polêmica que os filmes futuros de Sam Peckinpah iriam provocar, entre o fim dos anos 1960 e o começo da década seguinte, até que a obra de estréia do diretor maldito chega perto do convencional, se é que essa palavra pode ser aplicada a qualquer filme assinado por Peckinpah. Renegado pelo próprio criador devido às interferências dos produtores nas filmagens, “Parceiros da Morte” (The Deadly Companions, EUA, 1961) é um faroeste que traz, como um rascunho, um punhado de características que o diretor iria explorar mais à frente.

O filme se passa no final dos anos 1860, em uma minúscula cidade do Arizona (EUA). O personagem principal é um ex-sargento do Exército norte-americano (Brian Keith), cujo nome não é revelado, com dificuldades para sobreviver. Durão, ele faz amizade com dois trapaceiros (interpretador por Steve Cochran e Chill Wills) durante uma confusão num bar e sugere que, juntos, assaltem um banco numa pequena cidade dos arredores. No vilarejo, porém, ele vai se meter em uma confusão que o obrigará a fazer uma viagem suicida para dentro de um território deserto dominado por tribos apaches.

À princípio, “Parceiros da Morte” parece seguir a estrutura clássica dos western, especialmente no primeiro ato, quando os personagens são apresentados entre si e à platéia. Peckinpah mantém um certo senso de mistério sobre Yellowleg, na medida em que este se recusa a revelar o nome e qualquer fato do passado. Um dos personagens se pergunta por que ele jamais tira o chapéu, e essa questão fica ecoando na mente da platéia. Este é um mistério importante para compreender o filme, mas não vai perdurar durante muito tempo. É a revelação do passado de Yellowleg que dá partida ao segundo ato do filme. “Parceiros da Morte” sobe de nível um degrau a partir daí.

De certo modo, “Parceiros da Morte” é uma viagem de indivíduos proscritos, sem lugar na sociedade, rumo à morte. O ex-sargento tem companhia na viagem: Kit Tilden (Maureen O’Hara), uma prostituta que deseja enterrar o corpo do filho numa cidade-fantasma localizada no meio da terra dos apaches. É lá que está enterrado o pai do garoto. E Yellowleg, em dívida com a mulher, ganha a “honra” de ser o guia da viagem impossível.

Os dois são personagens típicos de Peckinpah, parias que não encontram lugar no mundo. A viagem suicida que os dois empreendem pelo território seco parece ter sido a semente da idéia que deu lugar à obra-prima “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, em 1974. O uso de crianças como personagens coadjuvantes que desempenham papéis cruciais para o desenvolvimento da ação também aparece em “Meu Ódio Será Sua Herança”, de 1969 (a cena em que Yellowleg e os dois parceiros entram na cidade e encontram um grupo de crianças brincando foi copiada na abertura do grande clássico de Peckinpah).

Além disso, os personagens com emoções reprimidas que explodem de repente em fúria incontrolável – descrição simplificada do personagem de Dustin Hoffman no grande “Sob o Domínio do Medo”, de 1971 – também já aparecem aqui. Não adianta esperar encontrar, contudo, as famosas montagens em câmera lenta que modificaram por completo a forma de Hollywood representar a violência em filmes. Em “Parceiros da Morte”, Peckinpah ainda é um diretor correto, polido, sem maiores excessos. Percebe-se uma certa vontade de ultrapassar limites, mas isso jamais acontece. Talvez seja o resultado da pressão dos produtores, e o motivo pelo qual o diretor não gostava da obra.

É certo que o final de “Parceiros da Morte” é absolutamente anti-Peckinpah, um encerramento que não possui paralelo em nenhum dos grandes filmes que o diretor faria na seqüência. Os proscritos do Peckinpah autor jamais obtinham aceitação, compreensão ou bondade. Eles tampouco eram vítimas de injustiças. Apenas seguiam suas trajetórias marginais e acabavam engolidos pela realidade implacável, o que não ocorre em “Parceiros da Morte”. Mesmo assim, trata-se de um ótimo faroeste que traz a assinatura, ainda que tímida, de um grande mestre.

O DVD brasileiro, da Aurora, tem problemas. Para começar, a qualidade da imagem é fraca, com cores apagadas. Além disso, elas estão no formato standard 4:3, com cortes laterais. O som Dolby Digital 2.0 é razoável. Não há extras, além de biografias e trechos de críticas em texto. Uma edição idêntica foi relançada em 2009 pela distribuidora Norfolk.

– Parceiros da Morte (The Deadly Companions, EUA, 1961)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: Brian Keith, Maureen O’Hara, Steve Cochran, Chill Wills
Duração: 93 minutos

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