Parceiros da Noite
15/01/2012 | Categoria: CríticasTransformado em pérola cult e envolto em polêmica, filme de Friedkin funciona como thriller e como estudo de personagem
Por: Rodrigo Carreiro
NOTA DO EDITOR: 




Hollywood pode até perdoar um fracasso, mas não dois – e muito menos quando esta segunda chance afunda após gerar enorme repercussão negativa. Pois foi exatamente isso o que ocorreu com William Friedkin. O garoto de ouro da geração chamada de New Hollywood, vencedor do Oscar de direção aos 36 anos (“Operação França”), começou a ter o prestígio ameaçado com o desastre de “Comboio do Medo”, um filme que custou quase dez vezes mais do que havia sido previsto. Mas foi com o thriller “Parceiros da Noite” (Cruising, EUA, 1980) que Friedkin assinou o próprio rebaixamento para o terceiro escalão da indústria do entretenimento, quase enterrando a própria carreira.
Culpa dos movimentos GLS. Antes mesmo de o filme ser lançado, ativistas se lançaram em uma campanha agressiva contra a obra. Todo mundo imaginava que um filme sobre um serial killer que matava homossexuais era fruto político da visão moralista e conservadora da indústria do cinema. Colunistas famosos de jornais importantes, como o Village Voice, aderiram à campanha. Ativistas a favor dos gays faziam panfletagem contra o filme nas filas dos cinemas. “Parceiros da Noite” atingiu até mesmo Al Pacino, o ator mais quente daquele momento, cuja carreira desceu ladeira abaixo (ele só viria a se recuperar do golpe quase dez anos depois). Tudo isso porque se achava que o longa-metragem apresentava uma visão preconceituosa e homofóbica da subcultura gay.
Verdade ou mentira? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Quem conhece a obra de William Friedkin sabe que ele sempre se interessou por personagens impulsivos, atormentados, torturados, com uma queda pelo sofrimento auto-imposto – não esqueçamos que Popeye Doyle, o tira durão de “Operação França”, gostava de apanhar de mulher, e de ser algemado à cama por prostitutas. O gosto pela dor não apenas marca presença forte neste filme, mas é absolutamente adequado ao tipo de vida levado pela fauna humana que Friedkin está interessado em radiografar. E a radiografia do submundo gay aparece, ainda que filtrado por uma visão nitidamente espantada, de modo acurado. A produção é irregular, mas funciona como thriller e como estudo de personagem.
Acima de tudo, sobressai o cuidado meticuloso que o diretor dedica à reconstituição do ambiente sórdido, sombrio e cheio de excitação da cena gay de Nova York. Friedkin não poupou esforços para ser fiel à realidade: filmou em boates homo de verdade e contratou freqüentadores para fazer figuração. Tomou o cuidado de orientá-los a não fazer nada explícito diante das câmeras, mas mesmo assim a carga homoerótica de “Parceiros da Noite” é enorme. Friedkin abusa dos longos travellings laterais para apresentar o espectador a um universo exótico, repleto de couro negro, correntes e códigos visuais esquisitos. Numa das melhores cenas, o vendedor de uma loja de roupas explica ao personagem de Pacino que a cor de um lenço, e a posição em que ele é colocado na roupa, podem denunciar as preferências sexuais de quem usa a peça.
A história é bem simples. Convencido da existência de um assassino em série que mata homossexuais e desmembra corpos, jogando-os no mar, o chefe da polícia decide infiltrar um detetive no submundo gay. Steve Burns (Al Pacino) é escolhido por ter o mesmo tipo físico das últimas duas vítimas. Ele hesita. É heterossexual, tem namorada firme (Karen Allen) e não conhece nada daqueles lugares. Sabe, contudo, que a chance de galgar a hierarquia da polícia é alta, caso tenha sucesso na missão. O que não sabe é que a caçada ao matador vai ser mais dura e mais longa do que espera – e que ninguém normal sai intacto de uma descida ao inferno. Esta viagem soturna é acompanhada pela magnífica música atonal – uma espécie de free jazz from Hell – do brasileiro Egberto Gismonti
William Friedkin se inspirou num romance de sucesso, escrito por Gerald Walker, para escrever o roteiro. Manteve o esqueleto narrativo do caso, mas optou por uma abordagem bem diferente, retirada de longas conversas com um ex-policial que o havia assessorado na época de “Operação França”. As experiências deste tira mostravam como é difícil a vida de detetives infiltrados no submundo. Assim, o cineasta optou por se afastar da narrativa clássica – a perseguição e a conseqüente captura do assassino – e, aos poucos, se concentrar no modo lento, quase imperceptível, como a experiência-limite vai alterando a visão de mundo e os hábitos do policial, fazendo-o colocar em dúvida a própria sexualidade, e com isso o próprio futuro.
Para enfatizar a abordagem incomum, Friedkin optou por revelar a identidade do criminoso logo no início e adotou a estratégia de filmar os assassinatos em ambientes cada vez mais escuros, de modo que paulatinamente se torna cada vez mais difícil identificar o rosto do matador. Este detalhe, ressaltado pela extraordinária fotografia de James Contner (repare na iluminação das tomadas que mostram o movimento das sombras na madrugada do Central Park), acaba se mostrando crucial para a compreensão do inesperado final do longa-metragem.
Por outro lado, a lenta mudança de foco narrativo causa problemas ao ritmo. Em certo momento, quando fica evidente certo desinteresse do filme pela trama policial, a investigação de Burns é quase relegada a segundo plano. Ele a retoma de maneira brusca e inesperada, com a solução do caso praticamente se atirando na frente dele. Ainda assim, o filme funciona. E é importante mencionar, ainda que possa parecer óbvio, a ótima atuação de Al Pacino, em um papel corajoso e que tem uma característica incomum para personagens dele – Steve Burns não sabe articular frases muito bem, e passa boa parte do tempo calado. Belo filme.
Por causa do tema polêmico, a Warner levou dez anos para tomar coragem e lançar “Parceiros da Noite” em DVD. A edição especial norte-americana traz o filme restaurado, com ótima qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1) e vídeo (widescreen 1.85:1 anamórfico). Há ainda um comentário em áudio do diretor e um documentário retrospectivo (43 minutos). No Brasil, o DVD carrega o selo da Lume, e não tem os extras.
- Parceiros da Noite (Cruising, EUA, 1980)
Direção: William Friedkin
Elenco: Al Pacino, Paul Sorvino, Richard Cox, Don Scardino
Duração: 106 minutos

(13 votos. Média de 4,62 em 5)


[...] o Código do Lenços para fins sexuais (Hanky Code), citando inclusive um filme com Al Pacino, Parceiros da Noite (Cruising). Neste código, usado preferencialmente pelo público gay, lenços de diferentes cores usados no [...]
Eu quero muito o filme .
Me responda por favor
desde ja’ agradeco imensamente,
Jorge Nova
Não gostei do filme só mostrar gays prosmiscuos poderia ter um casal gay com relação estável, as cenas nos bares, são super reais, a atuação de Pacino como sempre arrasando.
Não acho que aquele cara fosse mesmo o assassino, parecia ser um homem mais forte, sei lá…
Na cena final, deixa muitas dúvidas, e a cara do Pacino se barbeando e ouvindo o som das roupas de couro que a namorada vestiu, é simplesmente arrebatadora, pque ele parece surpreso e ao mesmo tempo gostando da idéiia. Bom , eu entendi assim. Pra mim quem matou aquele vizinho foi o policial que antes transava com gays na viatura policial.
Aquela cena onde um negro de cueca e chapéu, ( bizarro) dá um tapa no rosto do personagem do Pacino, achei muito apelativo…que figura é aquela? Credo! kkkk Eu confessaria até o assassinato do Kenedy e do Marin Luther King…
Mas vale a pena ver o filme, é punk.
A frase do “assassino” é emblemática: “Você me fez fazer isto.”, exprime sem pudores a homofobia ainda presente.
Este filme foi exibido ontem (17/07/10) no canal TCM (Sky) e eu o vi parcialmente, porque caí no sono. Uma grande pena. Acredito que este filme e “Um Dia de Cão” foram duas apostas de Pacino que resultaram em sua sólida carreira.
Fiquei em dúvida apenas sobre o ator que interpretou o assassino. Sempre gosto de consultar o IMDB, mas não consegui identificá-lo. Há vários nomes / personagens no elenco. Você sabe dizer qual é o nome do ator?
Grata.
Realmente, vi este filme recentemente no meu amado TCM e ele me marcou até hoje, tanto que estou pesquisando a respeito na internet e apareceu esta página… Nunca tinha ouvido falar dele antes… é um filme que te faz pensar horas sobre o que realmente ocorreu, principalmente com o personagem do Al Pacino. Porém há algumas cenas emblemáticas – como a que ele está na cama com a namorada e a câmera focaliza o rosto dele no momento em que ela fará sexo oral nele, que demonstra uma perturbação que me fez pensar se ele tb. o fez em algum homem ou algum fez nele? Além disto, quase no final, ele chega na casa dela e vai direto para a pia lavar a boca, lembram? Por último, marcou a cena do vizinho morto: será que ele não teve algo com o policial infiltrado e este o matou pq pensou nas consequências da revelação ao fim do caso? É uma hipótese…? Filme marcante!!! Quem tem o TCM, acompanhe a programação e não perca se for exibido novamente!!!!
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Rodrigo, o DVD tem legendas em português ou pelo menos em inglês mesmo (lendo consigo entender razoavelmente bem).
Muitas pessoas se fecham em suas conchas e não aceitam outra visão do mundo. Talvez vendo um espelho? Bom, valeu pelo post!