Parceiros do Crime

30/08/2006 | Categoria: Críticas

Filme de estréia de Roger Avary relata assalto a banco com cenas de violência pop

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

À época do lançamento nos cinemas, “Parceiros do Crime” (Killing Zoe, EUA/França, 1994) recebeu um marketing centrado no nome de Quentin Tarantino. Natural: cinéfilos em todo o mundo estavam entusiasmados com o frescor de “Pulp Fiction”, lançado alguns meses antes. Tarantino recebia então a consagração unânime normalmente reservada a renovadores da sétima arte, e era dele a assinatura da produção executiva do longa-metragem de estréia de Roger Avary, cujo nome estava nos créditos de “Pulp Fiction” como co-autor do argumento.

Até hoje, só desemboca em “Parceiros do Crime” quem migra da obra de Tarantino para cá. Essa turma, em geral, espera algo na linha do estilo descolado do autor de “Kill Bill” (2004). Em geral, esse tipo de espectador não se decepciona, já que há mesmo semelhanças óbvias. O diretor usa canções obscuras e dançantes na trilha sonora (a abertura funde rock pesado com linhas vocais árabes), abusa de cenas com uso de drogas – inclusive tentando editá-las de forma a reproduzir para o espectador a sensação de entorpecimento que elas causam – e dá à violência um tratamento pop e divertido.

No entanto, o filme de Avary tem muito mais a ver com “Cães de Aluguel”, cujos diálogos ele também ajudou a escrever, do que com “Pulp Fiction”. A história narra um assalto a banco que ocorre de maneira não exatamente tradicional. O detalhe importante é que a ação é ambientada em Paris, embora todo o filme (com exceção das tomadas subjetivas que abrem e fecham o longa) tenha sido feito em Los Angeles, em estúdio. A ação é mostrada na cronologia correta e o assalto em si ocupa toda a segunda metade. A partir daí, o filme vira uma versão divertidinha, bem anos 1990, de “Um Dia de Cão” (1975).

O protagonista é Zed (Eric Stoltz), um norte-americano recém chegado na capital francesa. A primeira noite do rapaz em Paris é uma farra sem fim. Ele recebe uma dica do motorista de táxi que o apanhou no aeroporto e sai com a garota de programa Zoe (Julie Delpy) para uma transa inesquecível; depois, se entope de drogas com o amigo de infância Eric (Jean-Hughes Anglade). Eric conseguiu a planta de um banco internacional e planeja assaltá-lo no dia seguinte, com a ajuda de Zed, que então se revela um arrombador de cofres profissional.

A noitada animal cobra seu preço, contudo, quando a quadrilha inteira vestes máscaras carnavalescas (como que antecipando a lambança) e inicia o assalto com uma ressaca arrasadora que compromete o resultado final. À medida que o roubo vai se desenrolando, percebemos que Eric não tem exatamente um plano, mas apenas uma vaga idéia; é como se o assalto fosse cometido por vários Sal (personagem paranóico interpretado por John Cazale no já citado clássico de 1975 dirigido por Sidney Lumet) entupido de cocaína. Avary apimenta a história enfiando doses cavalares de violência gráfica, sangue e drogas.

O filme também flerta com o romance quando descobrimos que o diretor colocou Zoe dentro da agência bancária, em rota de colisão com Zed, após ambos terem se apaixonado durante a transa da noite anterior. O roteiro de Roger Avary é interessante, com diálogos bem espontâneos, e a direção estilosa garante bons momentos; o melhor deles é a montagem tramada pelo diretor para a cena de sexo entre os dois amantes, intercalada com cenas do clássico alemão “Nosferatu” (que está passando na TV). Trata-se de um excelente exemplo de montagem por associação, já que as ações do vampiro dentuço expressam as sensações sentidas por Zed durante o sexo. Bem legal.

Por outro lado, sobra a sensação de que o filme, mesmo sendo bastante curto (apenas 96 minutos), possui diversas seqüências de duração excessiva e não tem nada de interessante a dizer. Observe, por exemplo, a longuíssima seqüência da noitada de Eric em meio a toneladas de drogas. É a típica cena que, do ponto de vista narrativo, poderia ser reduzida a três ou quatro minutos de duração, sem o menor prejuízo para a história. Se dura quase 20 minutos, é apenas porque representa uma chance para que Avary dê uma exibição gratuita de estilo, distorcendo as tomadas com lentes especiais e abusando de câmera lenta para reproduzir as sensações de Zed enquanto ele consome haxixe e heroína. “Parceiros do Crime” é definido por esta seqüência: estiloso, divertido, mas pouco eficiente.

O DVD lançado no Brasil pela NBO Editora é bem fraco. O disco, simples, não tem extras, e o filme possui cortes laterais na imagem (fullscreen 4:3). O som é bacana (Dolby Digital 5.1, em inglês).

– Parceiros do Crime (Killing Zoe, EUA/França, 1994)
Direção: Roger Avary
Elenco: Eric Stoltz, Julie Delpy, Jean-Hughes Anglade, Tai Thai
Duração: 96 minutos

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