Paris, Te Amo

20/11/2007 | Categoria: Críticas

Projeto coletivo de homenagem a Paris é coleção sólida de histórias saborosas com personagens interessantes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Projetos coletivos são, por definição, território fértil para produções irregulares. É difícil esperar uniformidade e coesão de um produto nascido da colagem de pedaços independentes. Levando isso em consideração, é possível afirmar que “Paris, Te Amo” (Paris Je T’Aime, França/Alemanha/Liechtenstein/Suíça, 2006) está entre os projetos coletivos cinematográficos mais bem sucedidos já realizados. O longa-metragem, feito por iniciativa dos produtores do Festival de Cannes com a intenção de homenagear a capital francesa, exibe uma coleção sólida e impecável de histórias saborosas, com personagens consistentes e uma coesão temática que faz o conjunto parecer obra de um só diretor – e daqueles cheios de talento.

Uma descrição básica: “Paris, Te Amo” tem quase duas horas de duração e é formado por 18 esquetes independentes. Quando convidados, os cineastas escolhidos foram informados de que poderiam contar qualquer história, desde que obedecessem a três regras simples: 1) o filme tinha que ter cinco minutos de duração, nem mais nem menos; 2) a ação precisava se passar em Paris, especificamente em algum local – rua, bairro, parque, monumento – cujo nome deveria ser dado ao curta; e 3) o tema deveria girar em torno do amor. Uma tarefa não exatamente complexa para criadores do naipe de Joel e Ethan Coen, Gus Van Sant, Alfonso Cuarón, Tom Tykwer, Sylvain Chomet, Alexander Payne e os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas.

No projeto original, o filme contaria com dois outros curtas, que chegaram a ser finalizados, mas não se encaixaram nas três regras propostas e acabaram eliminados da edição final. A lamentar, apenas, a não-participação do ótimo diretor espanhol Julio Medem (“Os Amantes do Círculo Polar”), que não conseguiu cumprir os prazos e precisou abandonar o projeto. Além dos 21 cineastas envolvidos (três dos curtas são dirigidos em dupla), o filme conta ainda com os serviços de Emmanuel Benbihy, responsável com Frédéric Auburtin pelas transições – planos gerais de paisagens parisienses – entre os curtas-metragens.

Surpreendentemente, todos os 18 esquetes são ótimos, sem qualquer nota destoante. Além de contar histórias sempre girando em torno de personagens interessantes, os diretores também conseguem conservar suas marcas registradas, mesmo trabalhando em condições limitadoras. Quer exemplos? Há vários: Walter Salles faz denúncia social de forma sensível e discreta (uma babá latina obrigada a deixar seu bebê numa creche para cuidar do neném de uma família rica). Os irmãos Coen imprimem um clima surreal às aventuras de um estrangeiro no metrô. Wes Craven brinca com fantasmas de modo gracioso. Vicenzo Natali (“Cubo”) faz o mesmo com vampiros. Tom Tykwer (“Corra Lola, Corra”) acelera a narrativa e brinca com a percepção do espectador. Alexander Payne (“As Confissões de Schmidt”) ensina o que é melancolia em um conto caloroso, mais uma vez protagonizado por um solitário norte-americano de meia idade.

Não pára por aí: Gus Van Sant põe sua conhecida sensibilidade homoerótica no encontro entre dois rapazes que não falam (literalmente) a mesma língua. Sylvain Chomet (“As Bicicletas de Belleville”) narra a lírica história de amor entre dois mímicos. Alfonso Cuarón destila sua obsessão por planos-seqüência (vide “Filhos da Esperança”) filmando todo o seu bem-humorado esquete sem cortes. Olivier Assayas põe drogas e solidão no mesmo coquetel, digerido por uma pouco à vontade atriz norte-americana, na França a trabalho. O ator Gérard Depardieu surpreende e dirige, ao lado de Frédéric Auburtin, um delicioso reencontro entre Gena Rowlands e Ben Gazzara (os dois atores prediletos de grande John Cassavetes), num texto escrito por ela sobre um casal de meia-idade cujo amor o tempo se encarregou de desgastar, mas não conseguiu apagar.

Se vistas individualmente as pequenas histórias de “Paris, Te Amo” são excelentes, juntas elas se transformam num panorama genial, cheio de carinho e interesse palpáveis pela vida febril e vibrante em uma grande metrópole. De quebra, para aqueles mais interessados em atores, o longa-metragem ainda oferece um verdadeiro desfile de astros (Elijah Wood, Natalie Portman, Maggie Gyllenhaal, Willem Dafoe, Juliette Binoche, Steve Buscemi, Fanny Ardant, Nick Nolte e um monte de gente conhecida, de várias gerações e nacionalidades). Superior a muitos projetos coletivos que surgiram em anos anteriores (“11 de Setembro”) ou posteriores (“Chacun Son Cinéma”), “Paris, Te Amo” tem lugar garantido entre as melhores coleções de curtas-metragens já lançadas de uma tacada só.

O DVD da Imagem Filmes é OK. Não tem extras, mas a qualidade da imagem (widescreen anamórfica) e do áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– Paris, Te Amo (Paris Je T’Aime, França/Alemanha/Liechtenstein/Suíça, 2006)
Coletânea de curtas-metragens.
Duração: 116 minutos

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