Passageiros

24/06/2009 | Categoria: Críticas

Thriller burocrático se apóia em segredo revelado somente no final e faz lembrar meia dúzia de filmes recentes, todos bem melhores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Críticas de filmes podem, às vezes, ser traiçoeiras. Especialmente no caso de thrillers como “Passageiros” (Passengers, EUA, 2008), cuja premissa se concentra em uma revelação espetacular que precisa permanecer oculta até o terceiro ato da produção, sob pena que ela se transforme em algo enfadonho e previsível, como a montagem repetitiva de um quebra-cabeça que você já resolveu antes. Portanto, é preciso muito cuidado com as palavras. Uma frase mal colocada e pronto, lá se vai o grande segredo sem o qual o filme não passa de um desengonçado aprendiz de marioneteiro.

Para espectadores que adoram esse tipo de filme – o thriller fantástico, que roça em elementos sobrenaturais e esconde um enigma capaz de gerar um grande “Uau!” quando for finalmente revelado – “Passageiros” pode ser um bom passatempo. Ou não. Se você encara o cinema como algo mais do que passatempo leve para noites de sábado, provavelmente gostaria de ver algo que tivesse personagens mais interessantes, dramas humanos mais intensos, ou mesmo ação mais energética. “Passageiros” não tem nada disso, e acumula uma enorme quantidade de clichês gastos que caminham pesadamente, como um mamute de três pernas andando sobre a neve.

É o tipo de filme que nos faz pensar como nem mesmo um sobrenome respeitável (o diretor Rodrigo García é filho do grande escritor colombiano Gabriel García Marques, cuja pena jamais seria capaz de produzir alguns dos diálogos melodramaticamente rasos que enchem o longa-metragem) funciona como garantia de qualidade, nesses dias tão escassos em criatividade e ousadia que vivemos, em pleno século XXI. De qualquer modo, enquanto trama de mistério, “Passageiros” se resume a entregar aquilo que se espera dele: uma intriga que começa tímida, cresce aos poucos vitaminada por aparições-surpresa de personagens que somem logo em seguida, encarada do ponto de vista de uma moça razoavelmente confusa e simpática, talhada para angariar a empatia do público ainda na primeira cena.

Essa moça é Claire (Anne Hathaway), psicóloga que vem emendando pós-graduação atrás de pós-graduação e se escondendo do trabalho de verdade. Percebendo isso, o chefe dela (Andre Braugher) lhe entrega uma tremenda tarefa: cuidar dos poucos sobreviventes de um acidente aérea ocorrido na área de Washington. Ela faz isso, não sem relutância, e começa a perceber coisas estranhas: os sobreviventes têm memórias divergentes sobre o acidente, e todos os que supõem ter visto uma explosão a bordo passam a sumir misteriosamente. Ela é seguida por homens ameaçadores. Um sobrevivente desmemoriado que parece ter sido esquecido pela polícia surge do nada. E a vizinha tranqüila (Dianne Wiest), que parece saber mais do que devia sobre o caso?

Como se praxe, Claire passa a desconfiar de algum tipo de conspiração em massa, ao mesmo tempo em que se envolve afetivamente com um dos passageiros (Patrick Wilson). Obviamente, tudo vai ser explicado lá pelo final, quando a moça finalmente tem acesso ao grande segredo por trás da trama. Um thriller clássico, cujos elementos narrativos são infelizmente organizados preguiçosamente por um diretor que tem se contentado, nos últimos tempos, com trabalhos menores para a televisão. “Passageiros” é oco e sem graça; não é habitado por gente interessante, não tem um único diálogo que permaneça na memória, não possui uma grande cena de ação, e seu final supostamente bombástico traz à memória uma meia dúzia de filmes recentes (que não vou citar aqui para não estragar nenhuma surpresa), todos muito melhores e mais instigantes.

O DVD da Imagem Filmes tem áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0) e imagem no formato original (widescreen anamórfico).

– Passageiros (Passengers, EUA, 2008)
Direção: Rodrigo García
Elenco: Anne Hathaway, Patrick Wilson, Andre Braugher, Dianne Wiest
Duração: 93 minutos

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