Pássaro das Plumas de Cristal, O

20/10/2005 | Categoria: Críticas

Filma marca a estréia de Dario Argento e é um dos filmes fundamentais do ‘giallo’ italiano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O suspense policial conhecido dentro da indústria cinematográfica como “whodunit” é um subgênero que cativa muitos cinéfilos. Os filmes desse estilo invariavelmente mostram uma investigação com o objetivo de revelar a identidade de um criminoso. Na Itália, o “whodunit” ganhou características particulares que proporcionaram o surgimento de um dos tipos de filmes mais populares do país: o “giallo”. O diretor Dario Argento fez os filmes fundamentais do “giallo”. Um desses filmes, que marcou a estréia de Argento, é o engenhoso “O Pássaro das Plumas de Cristal” (L’Uccello dalle Piume di Cristallo, Itália/Alemanha, 1970).

Visualmente caprichado, com uma narrativa simples e eficiente, o longa-metragem já lançava as sementes do estilo delirante e operístico que o diretor desenvolveria nos anos seguintes, mas de maneira contida, com influências visíveis do estilo de Alfred Hitchcock. “O Pássaro das Plumas de Cristal” deve ser visto, aliás, como o elo perdido que liga a obra de Hitchcock ao cinema de Brian De Palma. Também não é exagero ver ecos do filme de Argento em várias superproduções que mostram investigações em buscas de assassinos seriais, como “Seven”.

O roteiro do filme, escrito com a ajuda do escritor de mistério Edgar Wallace, é centrado em um escritor norte-americano de passagem por Roma. Sam Dalmas (Tony Musante) presencia, sem querer, a tentativa de assassinato de uma mulher em uma galeria de arte. Certo de que viu algo importante na cena do crime que não consegue lembrar, ele passa a ajudar o inspetor Morosini (Enrico Maria Salerno) nas investigações, ao mesmo tempo em que começa a ser perseguido pelo assassino.

O enredo básico não é muito original, mas Argento o trabalho de maneira criativa, usando todos os recursos cinematográficos disponíveis para criar um trabalho de impacto. O cineasta abusa, por exemplo, da câmera subjetiva, sempre ilustrando através dela o olhar do assassino à espreita de algum personagem, o que cria tensão e excitação. Além disso, a imagem do criminoso – casaco, luvas e chapéu de couro negro – é tão forte e evocativa que ecoaria em vários outros filmes do gênero “giallo”.

A influencia do trabalho de Hitchcock é evidente em “O Pássaro das Plumas de Cristal”. A própria situação básica do protagonista, que começa a investigar o crime para não ser considerado suspeito dele, é uma das favoritas do mestre do suspense. Além disso, há referências visuais a “Janela Indiscreta” (o final, com um dos personagens caindo de uma varanda, é idêntico), “O Homem Que Sabia Demais” (o ator que interpreta um matador de aluguel contratado para eliminar Dalmas é o mesmo que tenta cometer o assassinato na ópera do filme de Hitchcock) e principalmente “Psicose”.

Ainda tímido na exibição de cenas violentas, em que se tornaria especialista nos anos seguintes, Argento filma as mortes cometidas pelo assassino usando truques de montagem, para não ser muito explícito. Em um deles, por exemplo, há uma tomada de uma mão enluvada que segura uma navalha e vai se aproximando do rosto de uma mulher aos gritos. Há um corte, e a tomada seguinte mostra um jato de sangue molhando o chão. A montagem lembra uma versão simplificada da famosa morte de Janet Leigh, no chuveiro, em “Psicose”.

Por outro lado, Dario Argento encontra espaço também para desenvolver uma de suas marcas registradas, verdadeira obsessão que estará presente em quase todos os filmes seguintes dele: a maneira como uma cena pode ser distorcida quando interpretada através dos filtros da memória. Esse é precisamente o motivo que impede Sam Dalmas de resolver o caso logo no início. O escritor tem certeza de que havia algo singular no crime que viu, e repassa a cena mentalmente inúmeras vezes, mas não consegue descobrir qual o detalhe misterioso (no final do filme, é claro, ele consegue lembrar). Essa situação – uma cena que precisa ser revisada várias vezes na memória para que revele seu verdadeiro significado – se repete em quase todos os filmes de Argento.

Talvez essa obsessão tenha nascido em “Blow Up”, o suspense existencialista de Michelangelo Antonioni, diretor sempre citado por Argento como forte influência. Mas o cineasta o levaria um passo à frente, promovendo repetidas investigações sobre o uso da memória para reinterpretar eventos, atribuindo-lhes novos significados. É também esse o detalhe que liga “O Pássaro das Plumas de Cristal” à obra de Brian De Palma, especialmente “Um Tiro Na Noite”, em que o protagonista interpretado por John Travolta se encontra em situação idêntica à de Sam Dalmas, e usa a mesma técnica de investigação para reconstituir o momento que lhe interessa.

Embora pouco citada quando se fala dos filmes de Argento, a montagem de Franco Fraticelli é muito importante para o resultado final. Seja imprimindo tensão através de imagens sugestivas associadas com a trilha sonora quase minimalista (como na seqüência de abertura, que mostra o assassino selecionando uma vítima), seja realizando elipses inteligentes. Uma delas é antológica: a tomada mostra o escritor olhando para a fotografia de um quadro que, ele suspeita, está com o assassino; a câmera se aproxima do quadro, que ganha cores, e então volta a se afastar, mostrando agora o vulto do assassino em frente à pintura original.

Por fim, é importante destacar o excelente time de colaboradores que Argento conseguiu reunir na sua estréia no cinema. A trilha sonora, por exemplo, fica a cargo do maestro Ennio Morricone, que se afasta por completo do tipo de música compunha para os western spaghetti e faz pequenos solos de jazz com repetições constantes de notas, trazendo uma sensação de desconforto. Já o responsável por trazer à vida os cuidadosos enquadramentos bolados por Argento é o mestre Vittorio Storaro, que faria depois “Apocalypse Now” e “O Último Imperador”, entre outros clássicos. Nada como começar em grande estilo, não?

A Aurora lançou o DVD no Brasil com excelente qualidade de imagem (no formato widescreen 2.35:1) e som (Dolby Digital 2.0). Não há extras, além de biografias e trechos de críticas em texto.

- O Pássaro das Plumas de Cristal (L’Uccello dalle Piume di Cristallo, Itália/Alemanha, 1970)
Direção: Dario Argento
Elenco: Tony Musante, Suzy Kendall, Enrico Maria Salerno, Eva Renzi
Duração: 98 minutos

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