Pássaros, Os

19/06/2004 | Categoria: Críticas

Inovações e complicações técnicas são a marca registrada do filme polêmico de Hitchcock

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Uma tática infalível para ganhar respeito intelectual, nos Estados Unidos, é pegar alguma obra subvalorizada de um ícone da cultura popular daquele país e dar-lhe uma nova interpretação. Camille Paglia fez isso com o filme “Os Pássaros” (The Birds, EUA, 1963), de Alfred Hitchcock, como passo inicial rumo ao estrelato. Paglia escreveu uma longa, minuciosa e estridente análise do filme, depois publicada como livro (também no Brasil, pela Rocco), e provocou uma apressada revisão do conteúdo crítico da película.

Antes do polêmico ensaio de Camille Paglia, “Os Pássaros” era visto como o marco inicial do período de decadência do mestre do suspense. Como se sabe, nos 10 ou 15 anos anteriores Hitchcock havia feito uma quantidade anormal de grandes filmes, incluindo “Um Corpo que Cai” e “Psicose”, as duas obras-primas incontestes. No entanto, muitos críticos da época assinalaram em “Os Pássaros” como o primeiro momento em que Hitchcock começou a perder o controle rígido que tinha sobre o processo de construção dos filmes que fazia.

Eles não estavam errados, é claro. Hitchcock realmente faz o filme de forma pouco usual para ele. Seu método de trabalho era simples: ele montava todo o filme na cabeça, antes de ir para os sets, o desenhava em storyboards minuciosamente e depois simplesmente cumpria aquilo que planejava. Aliás, costumava achar o processo de filmagem em si entediante, pois já sabia o que iria obter. Quando começava a filmar, Hitchcock já estava pensando no filme seguinte.

Em “Os Pássaros”, contudo, tudo foi diferente. As filmagens não foram organizadas, o roteiro de Evan Hunter ia sendo refeito nos sets e boa parte do material filmado acabou no chão da sala de montagem – o único caso em que Hitchcock não aproveitou 100% daquilo que filmou. De qualquer forma, o livro de Camille Paglia se desviou da análise técnica da obra e veio chamar a atenção para um aspecto temático importante do filme: a temática feminista.

Quando “Os Pássaros” começa, a dondoca Melanie Daniels (Tippi Hedren) conhece e é esnobada pelo bonitão Mitch Brenner (Rod Taylor), numa loja de pássaros de San Francisco. Ela fica caída por ele, e toma a iniciativa seguinte: compra um par de “pássaros do amor” e segue para a vila pesqueira de Bodega Bay, onde o paquera passa os finais de semana, com o pretexto de presentear a irmã pequena do rapaz.

A teoria de Paglia é de que Hitchcock foi o primeiro dos diretores clássicos a quebrar o paradigma da submissão feminina em Hollywood. Para Camille Paglia, Hitchcock mostrava o quanto era machista ao associar, de forma sutil, a fúria da natureza a uma espécie de punição pela libertinagem da loura. Afinal, em 1963, quantas mulheres davam em cima de um homem tão ostensivamente sem sair impune?

Numa coisa Paglia tem razão: o filme é ousado mesmo. O irônico, porém, é que em 1954 o crítico francês André Bazin já apontava esse mesmo traço feminista, de forma inversa, em “Janela Indiscreta”. Bazin, que nunca compartilhou da paixão do pupilo François Truffaut pelos filmes do mestre do suspense, achava que “Janela Indiscreta” era um filme comum, quando visto do ponto de vista do suspense.

Para o pensador francês, a revolução de “Janela Indiscreta” era a personagem de Grace Kelly, uma editora de moda que praticamente pedia de joelhos ao fotógrafo viril vivido por James Stewart para dormir com ele. E, em “Janela Indiscreta”, quase dez anos antes de “Os Pássaros”, ela consegue o objetivo sem ser punida.

Não é preciso ser um gênio para perceber a semelhança e as diferenças, nesse aspecto, entre os dois filmes. Um conhecedor mediano da obra de Hitchcock vai perceber, aliás, muitos elementos recorrentes em “Os Pássaros”: a loura gélida e impulsiva (“Marnie”, “Um Corpo que Cai”), a mãe castradora (“Psicose”, “Rebecca”) e até o uso cinematográfico de pássaros como símbolo de caos e desordem (as corujas empalhadas de “Psicose”).

Uma inovação importante de “Os Pássaros”, que pouca gente percebeu, é a estrutura do enredo, que até hoje é reciclada nos chamados blockbusters, os grandes filmes de Hollywood: um caso de amor servindo de pretexto para a exibição de cenas de catástrofe, com muitos efeitos especiais e cenas de grande requinte técnico.

Nesse ponto, “Os Pássaros” é um sucesso absoluto. Hitchcock acerta inclusive ao manter o grande enigma do filme, que é a razão do repentino ataque de pássaros aos humanos. O que diabos está acontecendo afinal, pergunta o espectador? O final do filme não resolve essa questão e deixa cada membro da platéia imerso nos próprios pensamentos, o que contribui para firmar a aura excêntrica e sombria do filme.

Toda a parte técnica do longa-metragem, que é o maior mérito do trabalho, é esmiuçada no documentário de 90 minutos que acompanha o DVD. O filme tem som Dolby Digital 1.0 de boa qualidade, imagens restauradas, galeria de fotos e até uma rara cena excluída. Item de colecionador.

– Os Pássaros (The Birds, EUA, 1963)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Tippi Hedren, Rod Taylor, Jessica Tandy, Susane Pleschette
Duração: 120 minutos

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