Pat Garrett e Billy the Kid

18/06/2010 | Categoria: Críticas

Versão de Sam Peckinpah para morte de símbolo do Velho Oeste é uma obra-prima melancólica e com cheiro de morte

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O pistoleiro Billy the Kid é uma das maiores lendas norte-americanas e um dos símbolos mais poderosos do Velho Oeste. Morto aos 21 anos, o ladrão de gado anônimo em vida ganhou fama pós-morte devido a um livro biográfico escrito pelo seu matador, o xerife e ex-colega Pat Garrett. Com o tempo, ganhou a reputação de ter sido um dos mais cruéis e frios assassinos das pradarias. E o cinema teve muito a ver com a criação dessa lenda. Diretores renomados como King Vidor, Michael Ondjaate e Howard Hughes se debruçaram sobre o personagem, mas foi o irascível Sam Peckinpah quem criou o seu retrato definitivo, no controverso e alegórico “Pat Garrett e Billy the Kid” (EUA, 1973).

Quando assumiu o projeto, no lugar do diretor Monte Hellman, o já lendário cineasta não tinha uma ambição pequena. Autor de pelo menos dois grandes clássicos definitivos do faroeste tardio (“Pistoleiros do Entardecer”, de 1962, e “Meu Ódio Será Sua Herança”, de 1968), Peckinpah queria dirigir outros tipos de filme, mas estava ciente de que o faroeste, enquanto gênero, dava seus últimos suspiros. Antes de abandoná-lo, o cineasta queria ser o responsável pelo prego que tamparia de vez o caixão. Em outras palavras, queria criar um épico definitivo sobre o fim de uma época, tema que sempre esteve presente nos exemplares do gênero que dirigiu.

Após o lançamento original do filme, contudo, o que se viu foi um fracasso retumbante de público e crítica. Àquela altura, o alcoolismo de Peckinpah havia piorado, deixando seu já péssimo relacionamento com o estúdio em frangalhos. A Warner vetou alguns sets em Durango (México), exigiu prazos exíguos, proibiu a realização de certas cenas (que Peckinpah e os atores acabavam realizando mesmo assim, nos horários de folga) descritas no roteiro de Rudy Wurlitzer e, finalmente, afastou o diretor dos estúdios onde o filme estava sendo finalizado. A versão original de “Pat Garrett e Billy the Kid”, exibida nos cinemas, tinha 106 minutos, e foi severamente criticada pelos melhores analistas, apesar de o cineasta não ter sido responsável pelo corte final.

Na época, porém, Peckinpah chegou a concluir uma montagem preliminar, exibida numa única sessão para críticos e amigos. Martin Scorsese, na época apenas um cineasta promissor, estava na sessão e diria depois que “Pat Garrett e Billy the Kid” chegava a ser melhor do que a obra-prima “Meu Ódio Será Sua Herança”. Scorsese e os críticos estavam falando do mesmo filme? Não. O público só veio descobrir isso em 1988, quando a versão do diretor apareceu em Laser Disc. A partir daí, começou um processo crescente de revalorização da obra, que culminou em 2005, com o lançamento de um DVD duplo, contendo duas versões do filme. Em duas palavras: obra-prima imperdível.

De certa forma, “Pat Garrett e Billy the Kid” foi um exercício estilístico refinado, em que o mestre utilizou a lenda de Billy the Kid como mera moldura para retrabalhar seus temas prediletos. A Peckinpah, não interessava a verdade histórica sobre quem foi Billy the Kid. Nesse sentido, o longa-metragem faz um par perfeito com “Meu Ódio Será Sua Herança”, refletindo com amargura sobre o difícil processo de readaptação de homens que vêem sua época chegar ao fim. “Este país está ficando velho e pretendo ficar velho junto. Kid não pensa assim. Ele pode estar certo. Não estou julgando”, diz o xerife Pat Garrett (James Coburn), em certo momento. Esta é a frase-síntese do filme, e talvez de toda a obra de Sam Peckinpah.

No todo, o longa-metragem tem ritmo lento e alegórico, pontuado por seqüências episódicas de ultra-violência que ecoam a carnificina no final da obra-prima anterior do diretor – neste filme, a morte realmente dói. Os diálogos são oblíquos e alegóricos, quase sempre não-explicativos. Dois terços do filme se concentram na perseguição empreendida por Garrett ao meliante pós-adolescente (interpretado pelo cantor country Kris Kristofferson). Os dois, antigos parceiros de crime, estão agora em lados opostos da lei. Na primeira cena, Garrett encontra Billy como amigo pela última vez. Entre um trago e outro, avisa que agora possui um distintivo e que vai honrá-lo. Dá um prazo para que Billy saia da região. A partir de então, serão caça e caçador.

O filme é visualmente espetacular, tanto na fotografia límpida e crepuscular de John Coquillon como a montagem ousada (assinada por nada menos que seis nomes). Grande exemplo está na abertura, que alterna cenas coloridas e sepiadas para unir passado e futuro. Essa seqüência anuncia um filme circular, que abre com uma emboscada e encerra com outra – esta última, cronologicamente anterior, e historicamente correta. O fato de ambas as emboscadas serem atos de covardia é um comentário típico de Peckinpah sobre o senso de honra e lealdade peculiar que unia aquelas pessoas.

O resultado final é incrivelmente melancólico, com cheiro de morte do início ao fim. Talvez a cena que exprima melhor essa sensação de morte iminente é a seqüência em que a obscura canção (na época) “Knockin’ on Heaven’s Door” é apresentada, na voz do seu autor, Bob Dylan, que compôs toda a trilha sonora e atua no filme como o misterioso Alias, integrante do bando de Billy. A cena, belíssima, casa perfeitamente com a letra fúnebre da canção. Mas não perca, também, a cortante cena em que Garrett interroga um dos comparsas de Billy, mantendo o personagem de Dylan de frente para uma parede de alimentos enlatados, para não poder reagir (“feijão… espinafre… milho… feijão com espinafre…”). É humor de dentes rangendo. Coisa típica de Peckinpah, para delícia dos fãs.

O DVD nacional, da Lume Filmes, é simples e tem apenas o filme, com som Dolby Digital Mono (irregular, mas OK) e imagens no enquadramento correto (wide anamórfico). O disco importado da Fox é duplo e contém duas versões do filme. A versão de 1988 está presente e há também uma nova edição, feita em 2005 pelo diretor Roger Spottiswoode. Ambas vêm acompanhadas de comentários em áudio de quatro especialistas em Peckinpah. No disco 2, há ainda três featurettes. O primeiro relembra a polêmica em torno do filme (14 minutos), o segundo traz um depoimento de Kristofferson (28 minutos) e o terceiro apresenta o ator, que também é cantor country, cantando e tocando duas músicas que compôs durante as filmagens (6 minutos).

– Pat Garrett e Billy the Kid (EUA, 1973)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: James Coburn, Kris Kristofferson, Bob Dylan, Richard Jaeckel
Duração: 122 (versão restaurada em 1998) e 115 minutos (restaurado em 2005)

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