Pedra Mágica, A

01/09/2009 | Categoria: Críticas

Divertida produção infanto-juvenil de Robert Rodriguez mostra que a parte supostamente “menos importante” de seu trabalho talvez seja a mais interessante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A despeito de suas habilidades como diretor e roteirista, Robert Rodriguez é um dos mais singulares cineastas em ação na atualidade. Adepto incondicional da tecnologia e conhecido por acumular diversas funções criativas nos filmes que dirige, o descendente de mexicanos montou uma base de cinema independente longe de Hollywood – mais especificamente em San Antonio, no Texas – e ali realiza produções com total autonomia, graças ao barateamento de custos proporcionado pela digitalização dos processos de produção e pós-produção. Em termos de carreira diferente, Robert Rodriguez tem uma das mais interessantes do cinema independente norte-americano.

Outro aspecto curioso de sua personalidade é a tendência de intercalar produções adultas (normalmente híbridos de filmes de gênero, incluindo o horror, a ficção científica e as adaptações de revistas em quadrinhos) com loucas fantasias infantis. “A Pedra Mágica” (Shorts, EUA, 2009), mais uma produção roteirizada a partir de idéias surgidas da cabeça do filho Rebel Rodriguez (o mesmo que bolou o enredo de “As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl”, e que aqui interpreta o valentão Lug), filia-se ao segundo grupo, e é suficientemente divertida para que a gente possa considerar seriamente que a produção infanto-juvenil de Rodriguez, supostamente “menos importante”, seja na verdade a parte mais bacana de seu trabalho.

“A Pedra Mágica” é um conto de fadas do século XXI. A trama se passa na fictícia cidade de Black Rock, um lugar no meio do deserto americano onde todas as casas são iguais e cuja paisagem é dominada por uma espécie de fortaleza negra, com aspecto de cubo, onde fica localizada a fábrica de um artefato tecnológico chamado Black Box. A engrenagem faz-tudo (funciona como celular, notebook, secador de cabelos, aspirador de pó e tem outras mil e uma utilidades, apesar de não ser Bombril) transformou um empresário ganancioso (James Spader) numa espécie de dono informal do lugar. Enfim, uma cidade chatíssima de se viver, onde os adultos mal se falam e conversam, na hora do jantar, teclando palavras em suas engenhocas eletrônicas.

O que muda tudo isso é um artefato analógico: uma pedra redonda e colorida que tem o poder de realizar os desejos de quem a segura. Quando ela cai nas mãos das crianças da cidade, finalmente os meninos vêem um pouco de aventura, que incluem extraterrestres do tamanho de moscas, crocodilos que andam em duas patas, catotas canibais gigantes e robôs estilo Transformers. A história, contado no ritmo alucinado de um conto de fadas (e acelerado ainda mais por causa da ordem não-cronológica dos esquetes), é o pretexto ideal para Rodriguez exercitar seu estilo personalista de filmar, repleto de efeitos digitais divertidamente toscos – a seqüência dos crocodilos é de rachar o bico – e referências a longas como “Olha quem Está Falando” (o bebê telepata, uma das melhores idéias do longa-metragem) e “Scarface” (de Brian De Palma).

O mais irônico de tudo é que o filme, apesar de depender pesadamente dos efeitos digitais em CGI e da manipulação tecnológica da narrativa – a edição é por vezes acelerada ou congelada, simulando os efeitos proporcionados pelo controle remoto de um aparelho de DVD, cujos botões de Pause e Fast Forward inclusive aparecem na tela – faz uma crítica rasgada e aberta do uso excessivo da tecnologia, por causa do qual as pessoas parecem não conseguir mais se comunicar. A fantasia da mãe do mini-herói para a festa onde ocorre o clímax do filme (ela usa uma faixa onde está escrito “Miss Communication”, cuja tradução literal poderia ser “falta de comunicação”) é a peça-chave deste subtexto.

Contradições à parte, Rodriguez pincela seu estilo colorido e espalhafatoso em todo o filme, criando cenas deliciosamente exageradas (a super-meleca) e imprimindo um ritmo veloz que não deixa as crianças hiper-ativas do nosso tempo se desconcentrarem. Considerando que Rodriguez fez (de novo) a fotografia, a edição e a música do filme, além da produção, do roteiro e da direção, não é exagero dizer que temos, aqui, talvez o cineasta que melhor saiba usar os recursos tecnológicos do cinema contemporâneo para contar histórias às crianças de sua época.

O DVD nacional carrega o selo Warner. O filme aparece com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Já dois pequenos extras com curta-metragens e curiosidades de bastidores.

– A Pedra Mágica (Shorts, EUA, 2009)
Direção: Robert Rodriguez
Elenco: Jimmy Bennett, Jake Short, Kat Dennings, Trevor Gagnon
Duração: 89 minutos

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