Pelé Eterno

15/03/2005 | Categoria: Críticas

Documentário relembra e perpetua os mitos que construíram a fama de um dos atletas mais amados de todos os tempos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Mais ou menos na metade da projeção de “Pelo Eterno” (Brasil, 2004), o documentário de Anibal Massaini Neto sobre o maior jogador de futebol de todos os tempos, me dei conta de que estava sustentando um riso idiota na cara havia vários minutos. Se alguém tivesse tirado uma foto minha, mostraria um sujeito com pose de retardado mental. Mas seria um imbecil feliz. Afinal de contas, passar duas horas e cinco minutos assistindo aos gols e jogadas maravilhosas criadas por esse gênio do futebol que foi Pelé constitui o programa mais perfeito que um amante de futebol poderia imaginar.

Por isso, quando a sessão terminou e comecei a analisar o filme – sim, é um filme, ora bolas – com o olho de crítico de cinema, cheguei a uma decisão: não vale a pena gastar muitas linhas fazendo comentários técnicos sobre um trabalho desse tipo. Eu poderia ocupar todo esse texto falando sobre os defeitos de “Pelé Eterno”: o uso equivocado de animação digital, a edição super-rápida das quase 150 entrevistas feitas com jogadores, familiares e amigos, o tom de “biografia autorizada” da obra, que desvia ou comenta muito rapidamente os deslizes na vida pessoal do rei do futebol, e sobretudo o casamento de texto com adjetivos em excesso + câmera lenta + música sinfônica de má qualidade, o que deixa o filme piegas em muitos momentos.

Pronto, isso é tudo que gostaria de falar sobre os defeitos de “Pelé Eterno”. No final das contas, apesar dessas futricas de crítico, qualquer sujeito de bom senso fica maravilhado com os belos gols, os dribles desconcertantes, as assistências milimétricas, as arrancadas fulminantes, as cabeçadas certeiras. Pelé, jogando, era um gênio, ponto final. E “Pelé Eterno”, com o perdão do trocadilho, eterniza esses momentos fugazes, esses segundos em que o tempo parece passar mais lentamente, em um avassalador sentimento de orgulho por ter nascido na mesma terra em que esse gênio nasceu.

O trabalho de Anibal Massaini Neto deve ter sido, de certa forma, ingrato. Sabe-se que o cineasta levou cinco anos pesquisando em centenas de arquivos de imagens, entrevistando dezenas de figuras íntimas de Pelé, caçando meticulosamente cada polegada de material raro para fazer o documentário. Infelizmente, como o publicitário Washington Olivetto diz em uma frase correta, Pelé foi um gênio que passou à história e virou lenda. Como toda lenda do século XX, ele já teve vida e carreira esquadrinhadas milhares de vezes. Assim, de inédito mesmo (ou pelo menos raro), o material que Massaini conseguiu levantar foi muito pouco.

Não devo estar exagerando se dizer que os amantes do futebol já viram pelo menos 90% das cenas de “Pele Eterno”, na TV ou em outros filmes. Há bons trechos de resgate, como a partida na Paraíba em que Pelé virou goleiro ou os gols marcados com a camisa do Vasco da Gama, mas eles são escassos. E, sinceramente, não fazem falta. Massaini compensa isso com uma montagem dinâmica (a opção de colocar os depoimentos no canto da tela, enquanto o filme continua rolando por trás, confere agilidade, apesar de às vezes exagerar na carga de informações visuais que o espectador tem de processar) e com uma edição de som excepcional. O flagra do torcedor do Flamengo gritando “filho da p…” enquanto Pelé arrasa com o time dele, por exemplo, é fenomenal.

Além do mais, “Pelé Eterno” é a chance que todo mundo esperava para ver alguns dos lances mais espetaculares da história do futebol na tela grande: o drible humilhante no goleiro do Uruguai durante a copa de 1970 (que você vê na foto acima), o golaço contra a Suécia em 1958, o gol de bicicleta no Cosmos em 1977, o milésimo gol e uma quantidade avassaladora de jogadas que não deixam sombra de dúvida sobre a genialidade do atleta em questão. São mostrados, aos todo, mais de 300 dos 1283 gols que Pelé marcou na vida. Não é pouco.

Talvez resida aí o sucesso garantido de “Pelé Eterno”. Esqueça o tão comentado golaço perdido que foi recriado com ajuda do computador (o resultado final parece um lance de uma versão antiga de algum jogo de computador). Sente na poltrona e se prepare para alimentar o bichinho ufanista que mora dentro do peito de cada um de nós. Assistir a “Pelé Eterno” é como rever, pela vigésima-terceira vez, as espetaculares vitórias de Ayrton Senna ou os emocionantes jogos de Gustavo Kuerten na fase áurea – é a prova de que, mesmo muito raramente, ser brasileiro pode ser uma dádiva divina. Essa sensação, tão inevitável quanto infantil, está acima da qualidade de qualquer filme. Assista, sem medo de parecer um babaca feito eu.

O DVD do longa é interessante e, ao mesmo tempo, decepcionante. A qualidade perfeita de imagem (widescreen, inclusive) realça o processo de restauração a que o diretor submeteu os gols antigos. Já o som em seis canais, no formato Dolby Digital 5.1, exagera na dose, principalmente quando Massaini inclui diálogos fictícios da platéia no meio do som verdadeiro dos jogos do Rei.

Entre os extras, existe um documentário do projeto (20 minutos), um featurette sobre o início da carreira de Pelé, um bate-papo entre os jornalistas Orlando Duarte e Fiori Gigliotti e um filmete sobre exposições temáticas a respeito do jogador.

– Pelé Eterno (Brasil, 2004)
Direção: Anibal Massaini Neto
Documentário
Duração: 125 minutos

| Mais


Deixar comentário