Penetras Bons de Bico

08/02/2006 | Categoria: Críticas

Rito de passagem tardio para dois sujeitos desmiolados tem momentos engraçados e muitos clichês

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A temporada de comédias românticas costuma ser bastante lucrativa no Brasil, onde o cinema é lugar de sucesso garantido para namorados. Nos últimos tempos, contudo, o gênero vem se voltando cada vez mais para o público adolescente. Na ótica de Hollywood, juventude é antônimo de sutileza. Ou seja, um filme para jovens na faixa de 16-22 anos significa, via de regra, que os atores precisam berrar feito loucos, abusar de palavrões e martelar uma piada atrás da outra. Essa é a receita de “Penetras Bons de Bico” (Wedding Crashers, EUA, 2005), longa-metragem que ganhou surpreendente sucesso de crítica na temporada de verão de 2005 nos EUA.

A surpresa, no caso, vem da qualidade do filme. Sim, você vai dar gargalhadas esporádicas. Sim, há momentos realmente hilariantes, a maioria deles protagonizada por Vince Vaughn, um ator que tem se mostrado muito à vontade quando lida com o humor mais físico, pastelão. Mas é só: “Penetras Bons de Bico” é uma comédia previsível, repleta de clichês e excessos, com uma direção de atores que beira o abominável (cortesia do diretor David Dobkin, aqui assinando o segundo trabalho da carreira), que só ganha pontos pela boa química dos dois protagonistas, pelas piadas ocasionais e pela beleza da atriz Rachel McAdams.

A trama focaliza dois amigos de infância, John Beckwith (Owen Wilson) e Jeremy Grey (Vince Vaughn). Os dois são advogados especializados em divórcios que têm como hobby de fim de semana uma atividade inusitada: entrar como penetras em festas de casamento para fisgar mulheres. Na teoria seguida por ambos (e criada por um misterioso personagem que só dá as caras no final), casamento é uma ótima oportunidade para agarrar meninas, pois elas sempre ficam mais sensíveis às investidas dos homens devido à emoção da cerimônia.

A abertura mostra, em ritmo de videoclipe, os dois invadindo um grande número de festas de casamento (judias, irlandesas, italianas e por aí afora). Depois disso, o filme se concentra nos único casamento, da filha do secretário de Finanças dos EUA (Christopher Walken, num papel embaraçosamente pequeno). É lá que John vai tentar conquistar outra filha do político (a citada McAdams), e acabar apaixonado.

Para começar, a abertura parece que nunca vai acabar. É uma espécie de clipe gigante com cenas que mostram a dupla grangeando simpatia através da técnica simples de demonstrar aos convidados dos casamentos uma alegria contagiante. O problema é que o diretor David Dobkin confunde alegria contagiante com comportamento debilóide: os dois atores gritam e esperneiam o quanto podem. Aliada a uma montagem de duração proibitiva, a seqüência resulta histérica e sem graça. Falta sutileza, aquela palavrinha mágica que marca presença em todas – sem exceção – as comédias românticas realmente legais.

Quando a poeira assenta e o filme entra num ritmo normal, menos alucinado, temos os melhores momentos da projeção, que ocorrem durante a festa de casamento da filha do secretário. É aí que Wilson e Vaughn, sem a obrigação de gritarem 400 palavras por minuto feito maníacos com tesão, mostram a fabulosa química existente entre eles. Toda vez que estão juntos em cena, os dois exalam a naturalidade de amigos íntimos de verdade, o que resulta em seqüências sempre mais engraçadas.

Depois do casamento vêm os clichês – e elas são muitos. Há um jogo de futebol americano amador que soa como uma cópia absurdamente gritante de “Entrando Numa Fria”. Há a infalível cena do jantar em família (que também existe em “Entrando Numa Fria” e bate ponto em 9 de cada 10 comédias românticas). E há o final chatíssimo, com todos os clichês que você já está acostumado a ver em filme onde o protagonista começa mentindo e depois precisa convencer o amado de que é uma boa pessoa. É tanto clichê que os roteiristas Steve Faber e Bob Fisher incluíram uma piada para rir da situação. “Seria clichê demais de dar um beijo agora?”, pergunta o personagem de Owen Wilson, em certo momento. Sim, seria. Um espectador um pouco mais acostumado a eles fica até embaraçado com uma coisa dessas.

Antes que este texto comece a parecer birrento demais, é bom chamar a atenção para alguns pontos positivos da produção. Embora o roteiro seja bastante irregular, ele contém boas idéias em quantidade suficiente para garantir um número razoável de risadas (confira, por exemplo, Vince Vaughn fazendo esculturas com bolas de soprar, ou o funeral perto do fim do filme). Além disso, Vaughn está muito bem – a noite que ele passa amarrado em um cama é realmente engraçada, apesar da caracterização abominável e preconceituosa do personagem que invade o quarto do rapaz na citada cena. Vaughn é a melhor coisa do filme.

É interessante perceber, ainda, que “Penetras Bons de Bico” contém dois ou três momentos “Alta Fidelidade”, em que os personagens fazem autocríticas lúcidas do próprio comportamento (“não somos mais tão jovens assim”, diz um deles). Quando analisada como um todo, a trama do filme realmente se revela propícia a uma comédia romântica no estilo do filme de Stephen Frears, já que flagra uma espécie de rito de passagem tardio, da adolescência à idade adulta, de dois homens feitos. Assim, esses dois ou três momentos acabam se revelando uma sombra, um flash, do que o filme poderia ter sido se dirigido a um público alguns anos mais velho. Uma pena.

O DVD nacional é da PlayArte, e deixa a desejar. O formato de tela é preservado (wide anamórfico), mas o som é apenas Dolby Digital 2.0, um formato inferior. Além disso, não tem nenhum extra.

– Penetras Bons de Bico (Wedding Crashers, EUA, 2005)
Direção: David Dobkin
Elenco: Vince Vaughn, Owen Wilson, Rachel McAdams, Isla Fisher
Duração: 119 minutos

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