Pequena Sereia, A

15/12/2008 | Categoria: Críticas

Filme de 1989 tirou a Disney do sufoco usando uma combinação de canções pop de melodias simples e grudentas com tecnologia de ponta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Embora a maioria das pessoas costume creditar o renascimento do setor de animação da Disney ao longa-metragem “O Rei Leão” (1994), a verdade é que esta honra pertence ao anterior “A Pequena Sereia” (The Little Mermaid, EUA, 1989). O filme, baseado numa antiga fábula escrita por Hans Christian Andersen, marcou a primeira tentativa séria da Disney, nos anos 1980, no sentido de revitalizar a produção de desenhos animados, que sempre fora o carro-chefe da companhia e andava em decadência desde a década anterior, com bilheterias baixíssimas e desinteresse flagrante por parte do público. A combinação de canções pop de melodias simples e grudentas com tecnologia de ponta apontou, pela primeira vez em muitos anos, um futuro promissor para as animações da empresa.

O homem por trás desta empreitada chamava-se Jeffrey Katzenberger, que anos depois fundaria os estúdios Dreamworks e produziria animações premiadas, como “Shrek” e “A Fuga das Galinhas”. Naquele momento, porém, o executivo estava numa sinuca de bico e não sabia direito o que fazer. No final dos anos 1980, a Disney parecia prestes a perder a supremacia que sempre exercera no setor, desde o pioneiro “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937). Muitos já davam a empresa do Mickey como carta fora do baralho. Para driblar a crise, Katzenberger decidiu retornar à fonte original dos grandes sucessos da Disney entre as décadas de 1930 e 1950, que eram os contos de fadas europeus, vitaminando-as com canções melosas e uma pitada de tecnologia.

A Disney não recorria aos contos de fada desde 1959, ano de “A Bela Adormecida”. E a aposta acabou dando certo. Produzido por US$ 40 milhões, o longa-metragem conseguiu dobrar este valor no faturamento dentro dos EUA e atingiu perto de US$ 200 milhões no mundo. A nova fórmula ainda rendeu dois Oscar (trilha sonora e canção), feito repetido em outras animações posteriores (como o já citado “O Rei Leão”) e um interesse renovado de público e crítica pelas animações da empresa. É importante ressaltar ainda que, embora tenha sido desenhado à mão e em duas dimensões, “A Pequena Sereia” leva o mérito de ser o primeiro longa animado a utilizar computação gráfica – a última seqüência, do casamento, foi toda colorizada por computador.

O enredo gira em torno da paixão de uma sereia adolescente chamada Ariel, filha do rei dos mares, por um príncipe humano que ela salvou de forma imprudente. Em busca de concretizar o amor impossível, a mulher-peixe aceita fazer um pacto faustiano com uma bruxa marinha e ganha três dias para fazer o príncipe se apaixonar por ela. A paixão precisa ser selada com um beijo. Se Ariel não conseguir, passará a pertencer à bruxa. A tradição Disney de ter animais agindo como escada para os protagonistas é fielmente repetida aqui – enguias e caranguejos provocam risos e dão arrepios no público infantil – enquanto a bruxa, Ursula, é desenhada como uma criatura bizarra, entre o exótico e o assustador: uma cecaelia (híbrido lendário descrito em poemas antigos, metade humana e metade polvo) que mais parece um travesti acima do peso.

O tema do amor impossível, claro, é mais batido do que bife de carne de segunda, mas funciona a contento para o público infantil. Curioso, porém, é que “A Pequena Sereia” envelheceu rapidamente, graças ao aparecimento da Pixar e ao avanço extraordinário da animação computadorizada. Os traços simples, quase cartunescos, bem como a profusão de números de dança, tornam o filme mais próximos dos velhos musicais da Disney do que das produções animadas feitas uma década depois. Ponha “A Pequena Sereia” lado a lado com “Pinóquio” (1940) e “Toy Story” (1995) e confirme: apesar das quase cinco décadas de diferença, o longa-metragem de 1989 guarda mais semelhanças com o velho clássico – que é evidentemente muito mais emocionante – do que com a inovadora obra que inaugurou a era das animações 100% realizadas dentro do computador. Para crianças, contudo, “A Pequena Sereia” ainda guarda seu charme.

A melhor edição disponível em DVD é dupla e recheada de extras para todas as idades. Para os adultos, há comentário em áudio dos dois diretores com o compositor Alan Menken, featurette sobre Hans Christian Andersen, um curta-metragem inédito e dois clipes musicais. As crianças têm jogos infantis e seleções musicais inéditas.

– A Pequena Sereia (The Little Mermaid, EUA, 1989)
Direção: Ron Clements e John Musker
Animação
Duração: 83 minutos

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