Pequeno Nicolau, O

12/09/2010 | Categoria: Críticas

Humor ingênuo e nostálgico afasta o filme francês, adaptado de personagem de sucesso da literatura infantil, do estilo de humor mais cínico que predomina na produção contemporânea

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Embora esteja longe de possuir no Brasil a popularidade desfrutada por outros personagens parecidos e oriundos de cartuns, como a argentina Mafalda, o Nicolau criado por René Goscinny e desenhado por Jean-Jacques Sempé fez parte da infância de muita gente, entre as décadas de 1960 e 1980. Nesse sentido, é difícil entender porque demorou tanto tempo para surgir a primeira adaptação cinematográfica protagonizada pelo personagem. “O Pequeno Nicolau” (Le Petit Nicolas, França, 2009) dirige um carinhoso e nostálgico olhar adulto à infância nos anos 1950, quando as crianças saiam para brincar na rua em qualquer cidade grande, e a vida parecia passar num ritmo mais lento.

“O Pequeno Nicolau” nasceu de um projeto do cineasta Laurent Tirard, talvez mais conhecido no Brasil pelas entrevistas realizadas com 20 cineastas famosos e transformadas no livro “Grandes Diretores de Cinema”, lançado por aqui pela editora Nova Fronteira. Tirard, que também co-escreveu o roteiro, entrega-se à adaptação com o apetite de uma criança leitora dos livros do personagem, algo que sua faixa etária confirma. Ele faz um trabalho cuidadoso para apresentar o personagem a uma platéia que pouco o conhece e vive numa realidade social bem diferente. Isso justifica o olhar adulto e nostálgico com que Tirard constrói o universo multicolorido e afável de Nicolau (Maxime Godart), menino absolutamente normal, na faixa dos oito anos, que mora numa Paris bucólica e lúdica, inspirada pelos trabalhos de Jacques Tati e filtrada através das cores quentes de parque de diversões no melhor estilo “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”.

Nicolau talvez seja o mais normal de seus colegas de escola. Tirard usa caracterização de personagens e figurino para dar a cada uma das crianças uma personalidade distinta e facilmente reconhecível: há um que come demais, um inteligente mas sem iniciativa, o garotinho de raciocínio lento (Clotário, provavelmente o mais carismático de todos, interpretado com graça por Victor Charles), e assim por diante. Da forma como Nicolau vê a turma, ele mesmo é o único que não tem problema algum na vida. Estudar, brincar, comer e dormir – essa é a rotina dele. Isso, claro, até ele começar a desconfiar que seus pais (Kad Merard e Valérie Lemercier) planejam lhe dar um irmão, algo que – Nicolau imagina – vai tirar sua condição de centro das atenções daquele lar. Esse é o começo de uma série de esquetes cômicos protagonizados por Nicolau e as outras crianças, que põem em prática um plano para se livrar do futuro bebê indesejável.

Não seria correto classificar “O Pequeno Nicolau” como um filme infantil, embora o longa-metragem simpático e divertido de Laurent Tirard possa perfeitamente ser visto e compreendido por crianças pequenas. O grande truque do diretor e roteirista foi fazer um filme infantil com olhar de adulto. Um adulto que sente-se confortável entre crianças e alimenta saudades da época em que foi uma, mas ainda assim adulto. Afinal de contas, a maior parte do humor do filme decorre justamente da tensão cômica que nasce da má interpretação que Nicolau dá a conversas entre adultos; e Tirard só tem a oportunidade de explorar dramaturgicamente essa tensão ao justapor o olhar de adulto às traquinagens da meninada. Observe a cena em que Nicolau e os amigos tentam limpar a casa para agradar a mãe, ou o aloprado passeio que a família faz a um bosque nas redondezas; são esquetes cômicos compreensíveis apenas por aqueles espectadores cujo olhar adulto permite operar um distanciamento da realidade infantil, efetuado em chave cômica.

Claro que isso não é nenhum demérito, muito pelo contrário. De fato, “O Pequeno Nicolau” aposta num tipo de humor ingênuo, repleto de gags construídas com carinho e valorizadas pelo excelente elenco adulto. O filme não tem o cinismo (oni)presente na grande maioria das comédias infanto-juvenis contemporâneas. O contexto de produção de “O Pequeno Nicolau” o transforma em produto perfeito para aqueles cinéfilos que andam de saco cheio das piadas de cunho sexual ou escatológico que predominam no cenário do humor cinematográfico atual.

– O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas, França, 2009)
Direção: Laurent Tirard
Elenco: Maxime Godart, Victor Charles, Kad Merad, Valérie Lemercier
Duração: 91 minutos

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