Pequeno Rincão de Deus, O

19/05/2006 | Categoria: Críticas

Retrato subversivo da vida rural nos EUA marca clássico cheio de calor humano de Anthony Mann

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O diretor Anthony Mann provocou escândalo nos Estados Unidos ao lançar “O Pequeno Rincão de Deus” (God’s Little Acre, EUA, 1958), um retrato vigoroso do cotidiano da família rural do Sul do país. Por ter sido baseado em um dos romances mais famosos daquela década, escrito por Erskie Caldwell, o longa-metragem era ansiosamente aguardado, e decepcionou muita gente, mas pelos motivos errados. Ocorre que o público esperava uma narrativa clássica romantizada, na linha de “E o Vento Levou” (1939), enquanto Mann subverteu o gênero com uma narrativa cheia de calor humano, que aposta em personagens incomuns, flerta com a comédia satírica e com o melodrama para oferecer ao espectador um filme impregnado de emoção.

“O Pequeno Rincão de Deus” capricha no retrato do habitante do meio-oeste norte-americano, com todas as suas idiossincrasias, criando uma figura humana sensacional na pessoa de Ty Ty (Robert Ryan, em atuação esplêndida). O patriarca de uma numerosa família de agricultores é um homem com uma visão muito peculiar da religião e cheio de tiques supersticiosos. Vê avisos e sinais divinos praticamente a todo instante. Apesar disso, está convencido de que todas as suas ações têm um lastro objetivo (“eu sou científico” é o delicioso bordão que repete durante todo o filme). A energia do agricultor faz um bem danado ao filme, que herda da personalidade dele possui a vitalidade e a raça, incomuns em produções hollywoodianas.

Ty Ty é um homem com uma obsessão: encontrar um tesouro enterrado pelo avô em algum lugar da fazenda. A existência da fortuna, no entanto, é bastante questionável, uma vez que o agricultor nunca a viu, tendo apenas sonhado com objetos de ouro sendo escondidos pelo parente já falecido. A vontade ardente de enriquecer o faz cometer pequenas loucuras, como , seqüestrar um albino (Michael Landon), pois acredita que os albinos têm a propriedade mágica de ver através da terra. Ty Ty também esquece da lavoura, empregando todas as energias – dele, dos filhos e da nora Griselda (Tina Louise, belíssima) – em escavar todo o terreno, buscando da botija. A fazenda mais parece uma desolada paisagem lunar, com buracos e crateras abertas a esmo. A situação deixa a família em má situação financeira e expõe os conflitos familiares, que não são poucos – todos vivem brigando, seja por ciúme, inveja ou paixão.

A família é numerosa, e Anthony Mann ainda encontra espaço para construir um conjunto enorme de coadjuvantes ao redor do patriarca. Ao todo, são dez personagens importantes. A narrativa ágil passeia por todos eles, detendo-se um pouco nos dramas pessoais de cada um. É impressionante que o roteiro de Philip Yordan dê conta de todas as histórias, de maneira uniforme, desenvolvendo cada um com riqueza de detalhes e complexidade, sem jamais esquecer que o centro gravitacional, o Sol do filme, é a figura vibrante de Ty Ty. “O Pequeno Rincão de Deus” é uma verdadeira lição de como fazer um filme com grande número de personagens sem torná-los superficiais ou tornar a narrativa episódica. Muito bom.

Também se destaca a parte visual do filme, repleta de enquadramentos requintados e de bom gosto, além de um trabalho excepcional de iluminação. Mesmo tendo sido filmado em preto-e-branco, “O Pequeno Rincão de Deus” consegue transmitir o calor e a aridez do meio-oeste americano. Além disso, a câmera de Ernest Haller utiliza muita profundidade de campo, mostrando com freqüência duas ou mais ações ocorrendo na tela, uma em primeiro plano e outra lá atrás, ao fundo, bem à moda do clássico “Cidadão Kane”. Para completar, a deliciosa trilha sonora de Elmer Bernstein usa instrumentos típicos como o fiddle (espécie de violino caipira) para compor temas que variam da tristeza à euforia em questão de segundos. A bela canção-tema que abre e fecha o filme é a cereja no topo do bolo.

Com tantos elementos positivos, qual a razão para “O Pequeno Rincão de Deus” ter sido recebido com polêmica e desprezo, por crítica e público, nos anos 1950? Simples: apesar de ser um autêntico filme rural, o longa-metragem aborda temas ousados para a época, possuindo uma subtrama interessante que aborda diretamente o tema proibido do desemprego causado pela mecanização da vida rural. Também desenvolve uma visão ousada da sexualidade, quebrando um tabu e atingindo em cheio o conservadorismo da platéia dos EUA. Há cenas de sugestão sexual quase explícita, como aquela em que Darling Jill (Fay Spain), uma das filhas de Ty Ty, pede para que o pretendente Pluto (Buddy Hackett) bombeie água para dentro da banheira onde ela toma banho.

Para completar a polêmica, as personagens femininas são bastante liberais: Darling Jill é namoradeira e gosta de sair com vários homens, enquanto Griselda é declaradamente apaixonada pelo marido (Aldo Ray) de uma das filhas do patriarca, apesar de ser casada com um dos filhos dele – os dois amantes, inclusive, dividem uma sensual cena de amassos noturnos que precisou ser cortada para o filme poder ser exibido nos cinemas. Na época, um comportamento tão ousado de personagens femininos era considerado uma imoralidade indesculpável, o que automaticamente atirou a película em uma lista de filmes proscritos. Ainda bem que a obra, sem cortes, sobreviveu ao teste do tempo.

O filme foi lançado em DVD pela Aurora. A cópia é excelente, com imagens limpas e sem arranhões (wide 1.85:1 letterboxed), som claro e em bom volume (Dolby Digital 2.0 Mono). A legendagem é bem fraca, chegando a chamar o personagem Will, o tempo inteiro, de Bill. Não há extras dignos de nota.

– O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, EUA, 1958)
Direção: Anthony Mann
Elenco: Robert Ryan, Aldo Ray, Fay Spain, Tina Louise
Duração: 118 minutos

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