Perdidos na Noite

16/04/2008 | Categoria: Críticas

Filme de John Schlesinger foi o primeiro da geração New Hollywood a ganhar o Oscar principal

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Rapaz humilde, viril e ingênuo decide abandonar a vidinha de lavador de pratos numa pequena cidade do Texas e viajar para Nova York, onde sonha em se tornar o garoto de programa preferido das peruas ricas da cidade. Difícil imaginar um longa-metragem com essa sinopse recebendo sinal verde para produção, em Hollywood, antes da segunda metade da década de 1960. Foi a ascensão de uma geração de jovens diretores de índole autoral (Scorsese, Coppola, Friedkin) que viabilizou a produção de “Perdidos na Noite” (Midnight Cowboy, EUA, 1969), um dos longas mais icônicos daquele período, e que se transformou na primeira produção da chamada geração New Hollywood a ganhar o Oscar de melhor filme.

Realizada com o minúsculo orçamento de US$ 3,6 milhões, “Perdidos na Noite” alavancou as carreiras dos dois atores principais, Jon Voight e Dustin Hoffman, ao patamar de astros do primeiro time. O último, inclusive, acabara de estrelar outro título importante do período (“A Primeira Noite de um Homem”), e se afirmava como a maior estrela de sua geração. Curiosamente dirigido por um inglês, o filme foi inspirado num romance de sucesso e se transformou em forte peça de resistência da cultura pop da época, recebendo inúmeras citações em filmes subseqüentes de todos os gêneros, de “Borat” a “De Volta para o Futuro”, da aventura “Apocalypto” ao inofensivo desenho animado “Hércules”. Até parecia obrigatório que filmes lidando com o tema da inadequação social fizessem algum tipo de menção a “Perdidos na Noite”.

A história, na verdade, é um conto soturno sobre a impessoalidade de uma metrópole, destruindo os sonhos ingênuos de um rapaz comum. Como a maior parte dos longas do período, “Perdidos na Noite” constrói com cuidado um personagem vívido e fascinante. Joe Buck (Voight) é um típico jovem do interior: ingênuo, tagarela, machão. Sem dinheiro no bolso, ele entra em Nova York marchando de peito inflado, como um conquistador prestes a subjugar uma nação. Basta a primeira cliente (Sylvia Miles, hilária, numa participação genial de seis minutos que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante) para ele perceber que as coisas não serão tão fáceis. O filme detalha, com paciência, a trajetória descendente de Buck rumo à pobreza total. Ele divide a humilhação da indigência com outro pobretão, Ratzo Rizzo (Hoffman), homem doente, mas já calejado pelo buraco negro da cidade grande, que devora a tudo sem olhar para trás, como o tempo ou a morte.

Freqüentemente triste, mas sempre abrindo espaço para observações argutas sobre o ritmo vertiginoso da vida nos grandes centros urbanos, a narrativa ganha o acompanhamento melancólico de uma trilha sonora inteligente (a canção “Everybody’s Talkin’” acabaria se tornando um clássico norte-americano). A fotografia em tons noturnos completa o serviço. O terceiro ato do filme, embora seja meio datado – a festa lisérgica para a qual Joe é convidado, que marca um momento decisivo na trajetória dele, não poderia acontecer em outra época –, funciona de maneira correta, enfatizando de maneira sutil e brilhante a mudança pouco perceptível, mas fundamental, do personagem principal. Quando “Perdidos na Noite” termina, o simpático gigolô já não é mais o rapaz risonho do começo. A vida já ensinou a ele uma boa lição. E a nós também.

O primeiro DVD lançado no Brasil é a versão simples e com apenas um trailer como extra. A qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 4.0) é OK. O disco duplo, com o selo Cinema Reserve, da Fox, traz também um comentário em áudio do produtor, documentário (30 minutos) e dois featurettes. O som desta edição também é melhor (DD 5.1).

– Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, EUA, 1969)
Direção: John Schlesinger
Elenco: Jon Voight, Dustin Hoffman, Brenda Vaccaro, Sylvia Miles
Duração: 113 minutos

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