Pergunte ao Pó

10/10/2006 | Categoria: Críticas

Adaptação de romance de John Fante tem primeira hora quase perfeita, mas vira melodrama lacrimoso no final

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O roteirista e diretor Robert Towne encontrou o escritor John Fante pela primeira vez em 1973, enquanto pesquisava sobre a época da Depressão (anos 1930) em Los Angeles para o thriller “Chinatown” (1974). Apaixonou-se pela obra do romancista e decidiu transformar pelo menos um dos livros dele em filme. Não sabia, mas estava iniciando uma dura jornada que levaria mais de 30 anos para terminar. “Pergunte ao Pó” (Ask the Dust, EUA, 2006) é o resultado de uma luta titânica para capturar em película a atmosfera do mais famoso livro de Fante, uma história sobre as dores e delícias de um rapaz magricela, descendente de italianos, que luta para sobreviver da escrita em uma cidade dura para com os estrangeiros.

No decorrer dos 30 anos em que Towne batalhou para viabilizar o projeto, “Pergunte ao Pó” pareceu destinado a nunca virar filme. O produtor Mel Brooks, que detinha os direitos da novela, empacou a idéia enquanto estava vivo. Depois que conseguiu a esperada autorização para filmar, o diretor – cujos créditos como roteirista são muito mais consistentes – esbarrou na hesitação dos estúdios. Johnny Depp e Val Kilmer estiveram ligados ao projeto, mas nem assim o diretor conseguiu levar a idéia adiante. Ele precisou conseguir duas estrelas populares entre os jovens, o irlandês Colin Farrell e a mexicana Salma Hayek, de forma que a luz verde acendesse para a produção.

A dupla de atores pode ser um problema, para os espectadores que leram o livro de Fante, porque estão numa faixa etária 10 anos mais velha. No original, o protagonista Arturo Bandini (Farrell) é um rapaz magricela de 20 anos, que vive em uma pensão vagabunda, atormentado pelas dúvidas sobre seu talento como redator. Ele fantasia sobre ser um gênio da literatura, mas não possui confiança, e vive remetendo contos para revistas literárias, na esperança de ser publicado. Uma delas recusa o conto, mas publica a carta enviada junto com ele. O exemplar torna-se um troféu para o rapaz, e o pagamento providencia um cheque no momento em que Bandini já começava a roubar leite para não passar fome.

Farrell não é mau ator, mas não tem o porte adequado para o papel. É bonito e saudável. Bandini não se acredita capaz de escrever um romance inteiro porque acha que não tem experiência de vida; quando o filme começa, nunca teve um romance com uma mulher (quando expõe o problema ao editor da revista que o publica, o lendário H.L. Mencken, recebe uma alfinetada certeira: “uma pessoa não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo; ou você vive, ou escreve”). É difícil acreditar que um sujeito como Farrell, um ator que possui a imagem pública de mulherengo incorrigível, possa interpretar um rapazola virgem de origem italiana. Alguém como Adrian Brody seria bem mais adequado.

Durante suas visitas freqüentes a um bar perto da pensão onde mora, para tomar café, Bandini conhece Camilla Lopez (Hayek), garçonete de sandálias sujas, e com ela inicia uma tumultuada relação amorosa, alicerçada sobre um sentimento palpável de inadequação. Os dois se sentem assim. São ambos imigrantes, em um lugar e uma época em que o preconceito era uma questão bastante séria (lembre-se de que, durante a década de 1930, o período mais difícil da economia norte-americana no século XX, a fome era uma realidade até para a classe média e os empregos, uma raridade).

Salma Hayek também está velha demais para interpretar uma garçonete analfabeta que ainda tem esperança de inserção na sociedade. Com precisava dos astros para ter grana e filmar, Robert Towne deixa isso de lá e capricha nos diálogos, na fotografia e na direção de arte. A primeira hora de projeção, particularmente, é boa. A recriação da Los Angeles dos anos 1930, por exemplo, ficou excelente. Towne filmou em locação em Cape Town, na África do Sul, e acertou na mosca: a cidade não apenas possui a arquitetura correta, mas também é banhada pela mesma luz morna, meio alaranjada, que a cidade norte-americana, algo que a câmera elegante de Caleb Deschanel (“A Paixão de Cristo”) captura com propriedade. As palmeiras, as barracas de frutas, os caminhões de leite e os automóveis caindo aos pedaços completam a paisagem.

Outro acerto é a qualidade dos diálogos. Towne utiliza grande parte do texto original de John Fante (“sou um amante de homens e bestas igualmente”). Não é um texto áspero, duro, sofrido. Preserva o senso de humor agudo do escritor americano, o que dá ao filme uma leveza inesperada. Apesar de os personagens serem fracassados e tristonhos, “Pergunte ao Pó” não é um filme pesado… mas é triste, algo que o livro não é. Uma pena. Ademais, há um excesso de narração em off, recurso gasto que permeia todo o longa-metragem. Este é um mal de quase todas as adaptações cinematográficas de romances narrados do ponto de vista de um personagem: os cineastas têm muita dificuldade para imaginar outra forma de comunicar ao público os pensamentos do protagonista. Mas a narração não atrapalha tanto assim… as palavras são elegantes, ao menos.

O que realmente compromete o resultado de “Pergunte ao Pó” é o caminho escolhido por Robert Towne para fechar o caso de amor complicado entre Arturo e Camilla. A partir da metade, o filme muda lentamente de tom, até virar um melodrama lacrimoso. Além de pouco original, previsível e nada emocionante, a mudança faz muito mal ao desenvolvimento do protagonista, até então bastante sólido. Se até a metade do filme Bandini é um ingênuo rapaz tentando aprender a viver e adquirir experiência que lhe permita escrever coisas reais, do meio para o fim ele se torna uma espécie de romancista zen, cheio de confiança e amor para dar. Simplesmente não funciona.

Além disso, Towne abandona aos poucos dois temas importantes no livro, e bem explorados até o meio de “Pergunte ao Pó”: o problema da imigração na costa oeste dos Estados Unidos e o eterno medo que os escritores têm de não conseguir mais escrever. É uma pena, também, que os dois coadjuvantes que formam com Arturo e Camilla uma espécie de quadrado amoroso tenham tão pouco tempo na tela. Sammy (Justin Kirk) e Vera (Idina Menzel) roubam algumas cenas, principalmente ela, que incorpora com perfeição a garota angustiada que funciona para Arturo como uma musa às avessas. Vera é uma metáfora perfeita para o filme: bela, simpática, meio estranha e com um defeito imperceptível até que a gente o veja – e, a partir de então, bastante incômodo.

O DVD da Imagem Filmes é simples e sem extras. O filme tem imagem impecável (widescreen anamórfica) e som razoável (Dolby Digital 2.0).

– Pergunte ao Pó (Ask the Dust, EUA, 2006)
Direção: Robert Towne
Elenco: Colin Farrell, Salma Hayek, Idina Menzel, Donald Sutherland
Duração: 117 minutos

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