Perseguidor Implacável

07/04/2006 | Categoria: Críticas

Primeiro filme da série Dirty Harry é responsável pela fama de duro e truculento que marcou Clint Eastwood

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Clint Eastwood é um dos atores/diretores com carreira mais singular em toda a história do cinema. Depois de desenvolver o perfil de ator duro e truculento nos primeiros anos de atividade, ele levou quase quatro décadas para conseguir mostrar que era, de fato, o oposto disso – um cineasta sensível e humanista. Mas não difícil compreender porque ele levou tanto tempo para dissipar a imagem de homem violento e conservador. Afinal, o impacto de filmes como o polêmico “Perseguidor Implacável” (Dirty Harry, EUA, 1971) na platéia foi inegável.

O filme de estréia da série Dirty Harry (que renderia outros quatro longas-metragens), dirigido por Don Siegel, sofreu duras acusações na época do lançamento. Alguns críticos viram na obra um viés fascista, devido ao caráter indomável, violento e preconceituoso do personagem principal, que Eastwood sedimentou como uma espécie de arquétipo do vingador urbano que fez a festa de Hollywood, nas duas décadas seguintes. O detetive Harry Callahan é um homem solitário, de poucas palavras e muita ação. Trata-se de uma espécie de atualização para os anos 1970 do cínico investigador dos filmes noir, personagem básicos dos filmes policiais de 20 anos antes.

O cartão de visitas de Callahan é uma grande cena logo no início do filme, um momento cheio de sangue e humor, algo próximo do que Quentin Tarantino faria, anos depois. O investigador é obrigado a interromper um lanchinho básico ao perceber um assalto a banco rolando na calçada em frente. Calmamente, ele sai da birosca com um monstruoso revólver Magnum 44 na mão, mata três assaltantes (com tiros que soam como trovões) e acerta um quarto, que fica caído na calçada. O sujeito – negro – tem uma arma perto e pode revidar, mas hesita quando faz menção de pegá-la e ouve a provocação de Callahan, apontando o trabuco para ele: “Sei o que você está pensando, se eu dei cinco ou seis tiros. O que você deveria pensar, na verdade, é: será que estou com sorte hoje?”, sorri o detetive, mastigando tranqüilamente um pedaço de sanduíche.

A trama do filme é bem simples. Um maníaco que se autodenomina Scorpio (Andrew Robinson) aterroriza a cidade de San Francisco, prometendo matar desconhecidos a esmo caso a Prefeitura local não lhe pague um resgate de US$ 100 mil. Callahan é o encarregado da investigação, o que faz com o estilo truculento que lhe é peculiar. Nada de raciocínio refinado ou tramas bem boladas; o método de Dirty Harry – apelido que a atuação implacável do detetive justifica com sobras – é simplesmente vigiar obsessivamente os possíveis locais de ataque, até que uma oportunidade de usar o revólver mais poderoso do mundo apareça.

Ao contrário do que pode parecer, existe, sim, uma preocupação evidente do diretor Don Siegel com o politicamente correto. Embora exista uma seqüência em que o próprio Harry se diz racista, isto não é verdade – tanto que as duas únicas pessoas com quem ele consegue se relacionar de forma amistosa, em todo o filme, são um negro (o médico que lhe cura os ferimentos adquiridos no tiroteio anterior, com o negro citado dois parágrafos acima) e um chicano (o parceiro). Por outro lado, o assassino – cuja identidade o filme não se preocupa em esconder – é branco e caucasiano, um ruivo com pinta de irlandês.

A inspiração para a criação do vilão veio de um criminoso real. O Zodíaco, assassino que agiu durante vários anos em San Francisco, em meados da década de 1970, era um serial killer que se tornou popular por enviar cartas espirituosas para os jornais da cidade, zombando da polícia. Um dos ataques mais ousados do matador do filme, por exemplo, consiste em seqüestrar um ônibus escolar cheio de crianças, ação que o verdadeiro Zodíaco ameaçou fazer nos bilhetes anônimos, mas nunca chegou a cumprir.

Experiente, o diretor Don Siegel filma tudo sem firulas, com um realismo quase documental. Um grande destaque é a trilha sonora jazz de Lalo Schifrin, que consiste de improvisos percussivos em uma bateria que sobe e desce o tom, de acordo com a ação dramática; o volume aumenta e diminui, há paradinhas estratégicas, tudo de acordo com o que está acontecendo na tela. Observe, por exemplo, o timing impecável da música que acompanha a tentativa frustrada que o assassino faz para matar um rapaz negro. “Perseguidor Implacável” pode não ser obra-prima, mas é filme de qualidade.

O DVD foi lançado no Brasil pela Warner. Tem uma cópia decente do filme, com imagem razoável, ainda que meio granulada (wide 2.35:1 letterboxed), e som OK (Dolby Digital 5.1). Há um documentário produzido em 2001 sobre o filme, com várias entrevistas retrospectivas, e um featurette com uma galeria de entrevistas apresentando membros do elenco. Para os fãs, um prato cheio.

– Perseguidor Implacável (Dirty Harry, EUA, 1971)
Direção: Don Siegel
Elenco: Clint Eastwood, Andrew Robinson, Harry Guardino, Reni Santoni
Duração: 102 minutos

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