Persépolis

18/06/2009 | Categoria: Críticas

Animação em 2D usa criatividade e traços infantis para contar história universal de perda das raízes culturais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Bisneta de um antigo governante iraniano, deposto no século XIX por um golpe militar, Marjane Satrapi viveu até os nove anos de idade no seio de uma família comunista, moderna e ocidentalizada, vivendo uma confortável vida de classe média. A partir de 1979, contudo, a Revolução Islâmica espalhou o fundamentalismo religioso como uma praga pelo país, transformando a vida dela e da família em um inferno. O processo contínuo de desenraizamento cultural a que a moça foi submetida, nos já traumáticos anos da adolescência, é o tema principal de “Persépolis” (França/EUA, 2007), uma brilhante animação em duas dimensões, que casa a simplicidade de traços quase infantis com senso de humor afiado, e os usa como armas certeiras para atingir o coração do espectador.

Um dos grandes trunfos da produção franco-americana é o tom assumidamente autobiográfico do roteiro, escrito a quatro mãos pela heroína-protagonista e pelo co-diretor Vincent Paronnaud. Na verdade, este último se interessou pela história ao ler o romance gráfico em quatro partes, escrito e desenhado por Marjane. Paronnaud ficou encantado com a leveza e a abordagem sutilmente auto-depreciativa da autora, usada para narrar passagens tão íntimas e difíceis da própria vida. O cineasta descartou as chances de filmes em live action (com atores de carne e osso), e decidiu criar uma animação à moda antiga, com desenhistas fazendo todo o trabalho manualmente.

O estilo original da ilustradora, à base de traços infantis em duas dimensões, foi preservado. O resultado atinge uma beleza rústica, irreverente, quase adolescente, assemelhando-se a um rascunho incompleto. Visualmente, esta idéia casa perfeitamente com a narrativa, que se assume aberta e subjetiva, sem um final fechado ou conclusivo. Ou seja, a idéia de rascunho do estilo visual adotado pela produção espelha o caráter aberto da história. A arte do filme é quase toda em preto-e-branco (os poucos trechos coloridos representam o presente, enquanto a narração consiste em flashbacks postos em ordem cronológica), e mantém o charme despojado dos romances gráficos. Os desenhos passam a sensação de terem sido imaginados por uma criança, cheios de elipses criativas sem compromisso com uma representação fiel da realidade – ou seja, pura poesia visual.

A brilhante concepção estética de “Persépolis” não funcionaria, contudo, sem o apoio de uma narrativa igualmente eficiente. Marjane Satrapi teve o mérito de dar ao tom intimista e delicado da história um caráter universal, mas sem perder de vista as peculiaridades individuais e subjetivas de sua própria infância. Apesar da curta duração, o longa-metragem consegue manter as particularidades trazidas pelo pano de fundo histórico (o fundamentalismo crescente, com a conseqüente perda das liberdades individuais) e, ao mesmo tempo, abordar com desenvoltura o tema principal, que é a travessia da adolescência e a chegada da vida adulta, com todas as dificuldades que isto significa.

A grande sacada dos romances originais, uma sacada que o filme reproduz muito bem, é a seleção de eventos utilizada para expressar este processo de amadurecimento pessoal. Utilizando um tom confessional e bem-humorado, como se escrevesse um diário, Marjane passa em retrospectiva o duro processo de perda de raízes culturais a que foi submetida, com o exílio na Áustria e o posterior retorno ao Irã, e chega a uma conclusão nada amistosa. “Eu me sinto uma estrangeira quando estou em casa e também quando não estou”, diz a personagem principal, em certo momento. Certo. Em Viena, Paris ou Teerã, Marjane nunca está em casa.

De alguma forma, “Persépolis” não deixa de ser o ato de expurgo de um trauma pessoal, mas a autora o faz sem qualquer tipo de mágoa, preferindo investir em uma forma poética, graciosa e inteligente. Para contar a própria história, ela seleciona eventos facilmente compreensíveis por pessoas de qualquer cultura, raça ou religião: a sempre difícil relação com os pais, as dificuldades enfrentadas pela família diante da perseguição política, as amizades que vêm e vão. Sexo, música, comida. Tristeza e alegria. Vida, enfim. “Persépolis” é um filme embriagado de vida.

A contribuição de Vincent Paronnaud, além de manter o estilo visual e a verve afiada da escritora e desenhista, está na ótima seleção de vozes principais (assista ao filme em francês, se puder). O trio principal, formado por Marjane, a mãe e a decidida avó, nitidamente a personagem com quem a protagonista sente maior afinidade, é feito por três atrizes francesas com longo histórico de trabalhos juntos. Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve são mãe e filha na vida real, enquanto Danielle Darrieux (que faz a matriarca) já interpretou a mãe de Catherine em uma produção francesa dos anos 1970.

Com tantos acertos, o resultado final não merece apenas o título de uma das melhores animações de 2007 (posto que divide com “Ratatouille”). Vai além – é um dos títulos mais interessantes da temporada, qualquer que seja a categoria em análise. Não são muitas as produções que apresentam, com tanta graça, eventos comuns como o primeiro beijo, o primeiro namorado, a primeira decepção amorosa, a primeira viagem longa, o primeiro casamento, a primeira separação, tudo isso amarrado com toques pessoais que dão cor e brilho à narrativa – preste especial atenção na desastrada execução de “Eye of the Tiger”, hit de propagandas de cigarros nos anos 1980 da adolescência de Marjane, e nos impagáveis bate-papos filosóficos (ou não) com Deus. “Persépolis” é um filme raro.

O DVD de locação da Europa Filmes é simples e sem extras. O enquadramento original (widescreen anamórfico) foi respeitado e o áudio tem quatro canais (Dolby Digital 2.0).

O DVD da Europa Filmes é duplo, respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e traz áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1), mas sem extras. O segundo disco conta com making of e o vídeo da entrevista coletiva sobre o filme no Festival de Cannes, onde a obra faturou o prêmio do júri.

– Persépolis (França/EUA, 2007)
Direção: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi
Animação (vozes originais de Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux)
Duração: 95 minutos

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