Perversa Paixão

26/06/2008 | Categoria: Críticas

Estréia de Clint Eastwood na direção é um suspense despretensioso à maneira de Alfred Hitchcock

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Sergio Leone e Don Siegel, os dois diretores com quem Clint Eastwood mais trabalhou na década de 1960, diziam que o comportamento do ator nos sets de filmagem era invariavelmente taciturno. Ele vivia calado, observando tudo com olhos atentos. Ninguém sabia, mas ao observar com cuidado a maneira como os dois cineastas comandavam uma equipe de filmagem, Eastwood já estava se preparando para mudar de ramo. Ele também queria ser diretor. Para estrear na função, pediu a bênção de Siegel (o veterano atua no filme como o barman amigo do protagonista, interpretado pelo próprio diretor novato) e escolheu um filme de gênero – no caso, o thriller de suspense – teoricamente mais fácil de dirigir do que obras mais complexas e ambiciosas.

“Perversa Paixão” (Play Misty for Me, EUA, 1971) segue a trilha dos suspenses claustrofóbicos aberta por outro mestre, Alfred Hitchcock. Visto em retrospectiva, encaixa perfeitamente em um dos ramos de interesse do Eastwood diretor, que é o filme de mistério (“Poder Absoluto”, “Sobre Meninos e Lobos”, “Dívida de Sangue”, “Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal”). A diferença é que boa parte dos títulos posteriores que Clint dirigiu neste filão usam o elemento “thriller” como mera desculpa narrativa para investigar algum aspecto obscuro da natureza humana. “Perversa Paixão”, ao contrário, é um suspense mais despretensioso, um exercício de manipulação da tensão, bem à maneira do velho e bom diretor inglês. Ou seja, o tipo de filme perfeito para um cineasta iniciante, ainda inseguro.

O enredo é bastante simples e direto. O protagonista é um disc-jóquei paquerador (Eastwood) cuja namorada o largou por conta das sucessivas traições. Dave está aprisionado a uma rotina diária que inclui passeios noturnos pelo circuito de bares de Carmel (Califórnia) e cantadas picantes dirigidas às ouvintes que escutam as cinco horas diárias do programa que ele dirige. Ao cumprir esta rotina, certa noite, Dave leva para a cama uma fã simpática e atirada (Jessica Walter). Logo, ele e Evelyn começam a sair regularmente, embora o DJ faça questão de deixar claro que não deseja compromisso sério. Quando descobre que a ex-namorada (Donna Mills) voltou à cidade, Dave decide se endireitar e tornar-se fiel. Aí, Evelyn se torna agressiva e imprevisível – e o filme segue um crescendo de tensão impecável.

Clint Eastwood nunca escondeu de ninguém que Don Siegel foi seu grande inspirador, e “Perversa Paixão” deixa isso mais do que evidente. Como diretor, Eastwood gosta de ir direto ao ponto, sem malabarismos técnicos desnecessários, filmando apenas o essencial e abrindo espaço generoso para que os atores façam seu trabalho. Nesse sentido, a fotografia de Bruce Surtee cumpre a função com eficiência, evitando quase sempre o uso de zoom e filmando, sempre que possível, em tomadas longas, com a câmera posicionada à distância, acompanhando a ação sem interferir nela. Neste ponto, Eastwood diverge radicalmente de Hitchcock, que usava a câmera para guiar o espectador e sublinhar os significados que julgava mais importantes.

Para funcionar bem, esta opção do diretor exige uma química impecável dos atores, e este é um trunfo importante em “Perversa Paixão”. Ao escolher como contraponto dramático uma atriz energética e verbal, e desempenhar seu papel de co-protagonista de maneira discreta, Eastwood cria uma dinâmica interessante, fundamental no processo de apertar e afrouxar a tensão gerada pela história. Todo o elenco coadjuvante está muito bem (as curtas intervenções do outro DJ da rádio, do policial e do dono do bar cumprem bem a necessidade de injetar humor à trama, para evitar os excessos claustrofóbicos). De negativo, apenas a insistência de pontuar todo o filme com tomadas aéreas da cidade de Carmel, cuja paisagem espetacular não acrescenta nada à trama. Em alguns momentos, Eastwood parece simplesmente estar criando um cartão postal do lugar, o que é provavelmente verdade, considerando que ele acabaria se elegendo prefeito da cidade, anos mais tarde.

O DVD nacional, lançado pela Columbia, traz o longa com qualidade boa de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras, não legendados, incluem um documentário retrospectivo (55 minutos), um featurette comparando as carreiras de Eastwood e Don Siegel (6 minutos), uma montagem de fotos e um trailer.

– Perversa Paixão (Play Misty for Me, EUA, 1971)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Jessica Walter, Donna Mills, John Larch
Duração: 102 minutos

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