Pesadelo de Darwin, O

27/04/2007 | Categoria: Críticas

Documentário sobre a pesca num lago da Tanzânia é documento aterrador sobre os dejetos da globalização

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Nome perfeitamente adequado a um projeto que lança olhar nada agradável aos dejetos da globalização, “O Pesadelo de Darwin” (Darwin’s Nightmare, (Áustria/Bélgica/França/Canadá/Finlândia/Suécia, 2004) vai muito além do significado primário da expressão. Em tese, o pesadelo a que o título se refere é uma tragédia ambiental existente no Lago Victoria, o segundo maior do mundo, localizado na Tanzânia. Nos anos 1960, uma espécie de peixe predador chamada perca do Nilo foi introduzida no local, como tentativa de oxigenar a frágil economia dos vilarejos ribeirinhos, baseada na pesca. O peixe deu lucro, sim, mas também acabou por extinguir mais de 200 espécies nativas, arrasando o ecossistema local e comprometendo o futuro da vida no lago. E a situação sócio-econômica da população não melhorou muito.

Mais ou menos na metade do documentário, um pescador discursa e oferece um segundo sentido ao título do filme. Tentando explicar as terríveis condições sociais do lugar, o homem procura adaptar a teoria da evolução das espécies à relação entre a África e o Primeiro Mundo (leia-se países da Europa ocidental). Ele diz que na economia as coisas acontecem como no meio ambiente: os mais fortes sobrevivem e evoluem, enquanto os mais fracos morrem. O depoimento é apenas um dos diversos momentos impressionantes do retrato devastador, traçado pelo cineasta Hubert Sauper, do insólito e complexo sistema sócio-econômico que floresceu a partir da cultura da perca do Nilo, nas comunidades que vivem à beira do Lago Victoria.

Socialmente engajado, mas sem apelar para o panfletarismo inflamado, “O Pesadelo de Darwin” caminha na contramão dos trabalhos contemporâneos que ressaltam os benefícios da globalização. Sauper constrói um mosaico chocante, descobrindo personagens inesquecíveis e imagens estarrecedoras nos arredores do enorme depósito de água doce. Alguns fatos falam por si. Você sabia, por exemplo, que os mesmos aviões russos que chegam à Tanzânia, trazendo comida e mantimentos enviados pela ONU, também introduzem armas para abastecer as guerras civis de países como Uganda e Angola? E que estas mesmas aeronaves, quase sempre caindo aos pedaços, saem de lá abarrotadas com 500 toneladas diárias de filé de peixe para abastecer as mesas de restaurantes finos na França e no Japão? Na prática, o que ocorre portanto é uma troca aberrante de arroz, feijão e armas por comida de gente rica.

Com olho certeiro para perceber os efeitos destrutivos do sistema econômico erguido em torno da perca do Nilo, Sauper traça um retrato completo do sistema social da região. Mostra os efeitos terríveis da AIDS, doença que mata 15 pessoas por mês apenas numa vila. Descortina a rede de prostituição erguida em torno dos pilotos russos e ucranianos que visitam o lago todos os dias. Entra numa fábrica de processamento do peixe para mostrar como os mesmos trabalhadores que passam o dia tratando os filés de perca – uma iguaria culinária caríssima e deliciosa – mandam os filhos catar as carcaças dos mesmos animais, em lixões na periferia, para jantar quando chegam em casa. Mostra o cotidiano das crianças sem lar, expulsas de casa pelos próprios pais, que não têm o que comer. São meninos que derretem o isopor das embalagens de peixe e cheiram a cola artesanal, para espantar a fome.

Há ainda uma impressionante galeria de personagens. Uma prostituta risonha que no começo do filme canta o hino do país, ao lado de um piloto ucraniano, morre assassinada antes do fim das filmagens, e é lembrada pelas colegas. O vigilante do Instituto Nacional da Pesca, que recebe um dólar por dia, explica que a arma utilizada nas rondas noturnas pelo prédio é um arco com flechas envenenadas, e reflete sobre como uma guerra seria bem-vinda no país. Numa pequena aldeia de pescadores, os homens explicam, com naturalidade aterradora, que as pessoas doentes são aconselhadas a pegar um ônibus e ir morrer noutro lugar, porque transportar um cadáver “é mais caro”. O controlador de vôo do aeroporto local, que sofre com ataques de abelhas no local de trabalho, revela que não existe comunicação por rádio ou radar com os aviões, e usa três lanternas de cores diferentes – um sistema parecido com os sinais de trânsito – para orientar os pilotos a pousar, fato que aliado ao estado lastimável das aeronaves, contribui para um alto índice de acidentes aéreos no local.

“O Pesadelo de Darwin” é o tipo de filme que dá calor no estômago de quem assiste – uma mistura de raiva, impotência e agonia. O filme não é e nem pretende ser um documento anti-globalização. Na mais pura tradição jornalística, Sauper apenas constrói um retrato minucioso da situação a que se propõe narrar, evitando qualquer tipo e comentário crítico ou conclusão opinativa. Foi criticado, por alguns, devido a uma suposta falta de foco na edição. Esta falta de foco parece intencional, já que o cineasta evitar erguer conclusões, deixando espaço para que o próprio espectador faça isso. Se em termos técnicos o filme não ousa, apresentando uma montagem convencional, a qualidade das informações conseguidas dá o recado por si mesmo, sem precisar de retoques. Está aí uma produção para ser passada em sala de aula.

Exibido em mostras especiais pelo Brasil (no Recife passou apenas uma vez, no começo de abril de 2007), o filme não ganhou lançamento em DVD por estas bandas. Nos EUA e na Europa, ganhou edições simples e sem extras. O áudio é Dolby Digital 2.0, e a imagem tem proporção 1.85:1.

– O Pesadelo de Darwin (Darwin’s Nightmare, (Áustria/Bélgica/França/Canadá/Finlândia/Suécia, 2004)
Direção: Hubert Sauper
Documentário
Duração: 107 minutos

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