Peter Pan

06/06/2004 | Categoria: Críticas

Filmagem com atores de carne e osso tem cenários sombrios e funciona bem para crianças crescidas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Os estúdios Universal fizeram uma aposta arriscada. Filmar uma versão live action (ou seja, com atores de carne, osso e efeitos digitais) de clássica história infantil “Peter Pan” (EUA, 2003), em pleno século XXI, soa como ousadia retrô. Afinal, são poucas as crianças de hoje que conhecem a lenda do menino que não queria crescer. E com os pirralhos virando adultos cada vez mais cedo, ela soa até meio ultrapassada.

Os executivos norte-americanos, portanto, apostaram na familiaridade de tal situação para as crianças. Não se deram muito bem, por razões diversas – o filme foi um fracasso relativo nas bilheterias. O que é uma pena, aliás. Embora não seja uma fantasia que mereça para em uma galeria de clássicos infantis, “Peter Pan” promove, ao mesmo tempo, uma atualização e um retorno às raízes da secular história do enredo.

Todo mundo conhece bem a história. Peter Pan (Jeremy Sumpter) é o líder de um bando de garotos que se recusa a crescer. Por isso, vive na Terra do Nunca, uma ilha mítica em outra dimensão, onde enfrenta quase diariamente um arquiinimigo, o pirata Capitão Gancho (Jason Isaacs). Numa noite, Pan viaja ao mundo normal e conhece Wendy (Rachel Hurd Wood), uma garota de 12 anos que lhe desperta uma atenção inédita. Fascinado, ele decide levá-la, junto com os dois irmãos, para viver uma aventura inesquecível na Terra do Nunca.

O cineasta P.J. Hogan, encarregado do trabalho, fez uma opção ousada e interessante, ao enfatizar o clima de primeiro amor – ou da chegada da adolescência – entre Peter e Wendy. Esse aspecto, sempre varrido para baixo do tapete nas diversas versões que a história recebeu em Hollywood, aparece de forma explícita e é muito bem colocado, logo no início do filme, quando Wendy é retratada como “uma menina que possui um beijo no canto da boca”. É uma frase delicada e uma metáfora bonita.

Os diálogos são ótimos e a trama, embora um tanto disparatada, funciona perfeitamente quando se propõe a revelar, do ponto de vista das crianças, o despertar da sexualidade. Esse avanço, contudo, vem sendo interpretado pela crítica norte-americana como principal fator responsável pelo fracasso comercial do longa-metragem.

Por outro lado, o filme gasta milhões de dólares para recriar a Terra do Nunca, criando efeitos especiais até eficientes, mas que soam como pálida sombra de películas anteriores (os cenários da Inglaterra vitoriana onde Wendy vive parecem sobras dos sets de “Harry Potter”; a fada Sininho lembra demais a coleguinha minúscula que aparecia em “Moulin Rouge”; as cenas de vôo parecem rascunhos feitos para o recente “Matrix Reloaded”).

“Peter Pan” é um filme bem construído, que possui uma temática interessante e tem alguns momentos de encanto verdadeiro. Talvez tenha sido vitima de uma campanha de marketing equivocada, que jamais deixou claro a verdadeira faixa etária do seu público-alvo – garotos na faixa dos 10 a 12 anos.

O problema maior está aí. Crianças mais novas do que isso podem se assustar com o visual sombrio e com as cenas violentas (como o crocodilo gigante que persegue o Capitão Gancho, realista em excesso). Os baixinhos também correm o risco de não vão compreender a temática central do longa, que põe em primeiro plano o relacionamento de Peter Pan e Wendy. Para completar, o final não é exatamente um primor de felicidade.

Tudo isso é uma pena, pois o filme tem grandes acertos. Particularmente, cito as interpretações de Jason Isaacs (em duplo papel, como um cínico Capitão Gancho e um abobalhado pai de Wendy) e da francesa Ludivine Sagnier (excelente como Sininho, uma fada muda que demonstra raiva, ciúme e alegria com o corpo e o rosto, numa homenagem evidente a Charles Chaplin) como maiores acertos. “Peter Pan” é um filme que, definitivamente, merecia melhor sorte.

– Peter Pan (EUA, 2003)
Direção: P.J. Hogan
Elenco: Jeremy Sumpter, Jason Isaacs, Rachel Hurd Wood, Ludivine Sagnier, Olivia Williams
Duração: 113 minutos

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