Peter Pan

14/03/2007 | Categoria: Críticas

Produção animada de 1953 acusa os primeiros sinais de desgaste na fórmula infalível da Disney

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

De meados dos anos 1930 até o final da década seguinte, a Disney reinou suprema no terreno das animações em longa-metragem. Premiadíssimas em todas as partes do mundo, elogiadas por intelectuais importantes (o russo Sergei Eisenstein chegou a dizer que “Branca de Neve” era o melhor filme já feito), amadas pelo público, as produções Disney alavancaram a empresa até uma posição de liderança incontestável no mercado cinematográfico para crianças. A década de 1950 marcaria o início de uma crise que obrigaria Walt Disney a introduzir as primeiras mudanças numa fórmula narrativa que até então se mostrava imbatível. “Peter Pan” (EUA 1953) simboliza perfeitamente essas mudanças.

A primeira versão animada da clássica história infantil do escritor inglês J.M. Barrie nasceu em um período de sucesso financeiro e turbulência artística para a Disney. Na época, o estilo clássico dos desenhos animados produzidos pela empresa começava a sofrer a concorrência dura dos esquetes alucinados de Chuck Jones (Papa-Léguas, Pernalonga). De repente, os longos números musicais da Disney, que criavam um humor inofensivo através de gags sincronizadas entre som e imagem, perdiam espaço para o estilo vibrante e cartunesco do então desenhista da Warner. “Peter Pan” representa uma reação da Disney ao novo tipo de animação, sem que a empresa decana perdesse as características principais do seu trabalho.

Produzido na época ao custo avassalador de US$ 4 milhões, após quase vinte anos de pesquisas visuais, o longa-metragem mostrou que o prestígio de Walt Disney continuava alto, faturando US$ 87 milhões nas bilheterias, uma fortuna para os padrões de 1953. Logo após o lançamento, a Disney e os estúdios RKO, que distribuíam os filmes feitos por Walt e sua turma, encerraram uma parceria vitoriosa. Montar seu próprio braço distribuidor era um passo ousado para Walt Disney, mas foi dado com firmeza. Nascia a Buena Vista, que transformaria a empresa num dos maiores estúdios de Hollywood.

Uma olhada atenta em “Peter Pan”, contudo, mostra que se no campo das finanças o estúdio ia de vento em popa, na área criativa acusava uma reação ao avanço da concorrência. A história do menino que, sem querer crescer, lidera um grupo de crianças rebeldes contra índios e piratas na idílica Terra do Nunca tem menos números musicais que os longas-metragens anteriores da Disney, além de incorporar pelo menos duas longas seqüências de ação alucinante, bem ao estilo do Papa-Léguas de Chuck Jones – ambas mostram lutas entre Peter e o inimigo, Capitão Gancho.

As alterações na história original também deixam evidente que Walt Disney continuava firme na intenção de oferecer diversão inofensiva a toda a família. O destino da fada Sininho, atingida por uma bomba (no conto original era veneno) em uma explosão que não deixaria viva nem uma mosca, é impecavelmente feliz, bem como o da sonhadora Wendy e seus irmãos, que retornam ao lar quando a saudade dos pais bate mais forte. São mudanças que não alteram, claro, a força das imagens inesquecíveis do desenho. Tão inesquecíveis que o visual dos personagens seria para sempre associado à produção, do traje verde-soldado de Peter Pan ao elegante traje vermelho, adornado por bigodinhos finos, de Gancho.

A edição especial, em DVD duplo, traz o filme restaurado. Imagens (formato 4:3) e áudio (Dolby Digital 5.1) são perfeitos. A dublagem em português é a original da época, e traz como curiosidade os nomes diferentes dos personagens – Capitão Gancho e Sininho, por exemplo, ainda não eram chamados assim. O disco 2 tem material para a garotada (jogos interativos, duas canções inéditas) e para os adultos (making of e featurettes, incluindo uma reportagem sobre um artigo original de Walt Disney explicando porque decidiu fazer o filme).

– Peter Pan (EUA, 1953)
Direção:
Animação
Duração: 78 minutos

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