Phenomena

01/02/2006 | Categoria: Críticas

Dario Argento mescla fórmula do giallo com obsessões pessoais e entrega filme pessoal e delirante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Dario Argento é um cineasta singular. Honrando a tradição de italiana de revelar homens de cinema delirantes, Argento jamais foi um diretor muito preocupado com enredo, construção de personagens ou direção de atores. Para ele, o importante sempre foi construir uma atmosfera onírica, que desse à platéia a impressão de estar vivendo um pesadelo. Para ele, “Phenomena” (Itália, 1985) é o filme favorito que dirigiu, e essa predileção tem uma razão simples: trata-se do projeto mais alucinado e pessoal do diretor. Ao mesmo tempo em que rende uma homenagem a antecessores na área do horror italiano de baixo orçamento, como Mario Bava, Argento realiza uma verdadeira coleção de imagens assustadoras, embora a lógica que as cole seja frágil.

“Phenomena” não é o primeiro filme a fugir da fórmula básica do “giallo”, o filme policial típico da Itália. O gênero tem características básicas, como a caça a um assassino psicopata de identidade desconhecida e a violência gráfica, e elas são mantidas por Argento. O autor, porém, mescla essa fórmula a obsessões pessoais, como imagens recorrentes em sua filmografia (mulheres de branco correndo na floresta à noite, uso de animais em cenas inesperadas), uma fotografia estilizada que abusa de cores fortes e ângulos incomuns, e uma trilha sonora que mistura o rock pesado de bandas como Iron Maiden e Motorhead a canções de ninar pervertidas, compostas pela banda progressiva Goblin. O resultado é um conto de fadas mórbido e grotesco – exatamente o resultado pretendido pelo diretor.

A história do filme gira em torno de um assassino misterioso que age na região dos Alpes suíços, matando adolescentes do sexo feminino. Desnorteada, a polícia local pede a ajuda do professor John McGregor (Donald Pleasence), um especialista em insetos, capaz de fornecer pistas ao examinar as larvas presentes nos cadáveres das vítimas. O professor é paraplégico e vive sozinho numa casa no meio do campo, tendo como ajudante um chimpanzé (!) bastante simpático… e fêmea. Sutis insinuações eróticas entre homens e animais não são incomuns na obra de Argento.

A investigação ganha novo impulso com a chegada à região da adolescente americana Jennifer Corvino (Jennifer Connelly, futura ganhadora do Oscar por “Uma Mente Brilhante”, aqui estreando no cinema, com 14 anos). Filha de um ator famoso, ela vai estudar num internato que é palco de crimes cometidos pelo assassino. Logo descobrimos que Jennifer e sonâmbula e possui uma estranha habilidade de se comunicar com insetos, através de telepatia. Quando McGregor descobre isso, acredita que pode usar essa habilidade extraordinária na caçada ao maníaco.

Dario Argento recheia essa trama bizarra, que reúne cacos de obras anteriores do cineasta (o ponto de partida do enredo é exatamente igual ao de “Suspiria”, de 1978), com longas seqüências oníricas ao som de rock pauleira, além de cenas de assassinato com muito sangue e violência gráfica. Em termos visuais, o filme é deslumbrante, inclusive utilizando com bom gosto os efeitos especiais de computação gráfica (quase sempre envolvendo insetos), que na época ainda engatinhavam.

Por outro lado, “Phenomena” apenas confirma os pontos fracos do diretor, exibindo uma fraca direção de atores. Nesse tópico, salvam-se Connelly – já mostrando talento para interpretar mulher sofredoras, tipo de papel em que se especializaria – e o veterano Pleasence (de “THX-1138” e o primeiro “Halloween”). O resto do elenco interpreta recitando as falas de maneira teatral, o que reduz bastante a verossimilhança das situações. Basta observar a moça da seqüência de abertura (Fiore Argento), que mesmo perseguida pelo assassino louco sempre dá um jeito de arrumar o cabelo.

Por causa dessa artificialidade, os filmes de Dario Argento jamais fizeram muito sucesso nos EUA. No país, o gênero do horror B é muito popular, desde que aposte no realismo. Mesmo assim, o estilo personalista e visualmente refinado de Argento fez muitos fãs entre cinéfilos e cineastas, incluindo gente do porte de John Carpenter (o criador de “Halloween”) e George Romero (o pai dos filmes de zumbi). Se você é um desses fãs ou tem vontade de conhecer a obra do diretor, tem em “Phenomena” um prato cheio.

O lançamento nacional do filme ficou a cargo da Works DVD, com base na edição norte-americana posta nas lojas pela Anchor Bay. O filme está restaurado e possui o corte original (nos EUA, ele tinha sido lançado nos cinemas com 28 minutos a menos). A imagem é muito boa (e preserva o aspecto original, 1.66:1) e o som, igualmente eficiente (Dolby Digital 5.1, em inglês). Não há extras.

– Phenomena (Itália, 1985)
Direção: Dario Argento
Elenco: Jennifer Connelly, Donald Pleasence, Daria Nicolodi, Fiore Argento
Elenco: 110 minutos

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