Pi

21/02/2005 | Categoria: Críticas

Darren Aronofsky estréia com thriller onírico que mistura matemática e religião

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A seqüência de Fibonacci, uma equação matemática em que o número seguinte deve ser sempre a soma dos dois anteriores, é um dos mistérios mais intrigantes da natureza. Essa é uma questão que vem intrigando matemáticos desde o século XII, quando a teoria foi colocada no papel por um estudioso italiano que lhe emprestou o nome. A equação tem aplicação prática na bolsa de valores, na botânica, na anatomia e em várias outras disciplinas, tão distintas entre si quanto um elefante e uma bicicleta. Também um cineasta foi hipnotizado pelo mistério de Fibonacci: Darren Aronofsky, o autor de “Réquiem Para um Sonho”. Ele construiu o enredo da sua estréia cinematográfica em torno dessa equação.

“Pi” (EUA, 1998) é um excêntrico thriller de suspense que tenta, de maneira errática e nem sempre consistente, fazer uma improvável conexão entre Ciência e Religião, misturando a Torá (o livro sagrado dos judeus), a Teoria do Caos, Fibonacci e a bolsa de valores. Aaronofski já confirma, a partir de um pequeno filme independente de US$ 60 mil, que é um dos diretores mais polêmicos, verborrágicos e ambiciosos em atuação na Hollywood do século XXI. Ele compartilha com David Fincher, de “Clube da Luta”, um par de características pouco comuns na indústria cinematográfica: uma grande (às vezes, um pouco ingênua) preocupação político-social, e um cuidado quase barroco com o material que filma.

As produções de ambos possuem sempre uma direção de arte extremamente detalhada, além de montagem picotada e edição acelerada. Isso dificulta um bocado a vida do espectador, que precisa manter um nível de atenção acima do normal para acompanhar os filmes. Por sorte, isso não acontece tanto em “Pi”, muito provavelmente por causa do orçamento ridículo do filme. A obra, independente, foi filmada em preto-e-branco, com atores amadores e objetos cênicos improvisados. Curiosamente, essas características acabam sendo úteis, pois ajudam a manter o foco naquilo que realmente interessa: a trama intrigante. Por causa dela, Aronofski levou o prêmio de melhor diretor em Sundance, em 1998, e entrou em Hollywood pela porta da frente.

O protagonista é Max Cohen (Sean Gullete). Max é um gênio da informática que sofre de ataques periódicos de uma dor de cabeça enlouquecedora. Ele vive trancado em um pequeno apartamento de Nova York e possui uma obsessão em interligar a seqüência de Fibonacci com a Teoria do Caos. As duas idéias juntas, ele imagina, podem ser a chave para descobrir um número de 216 dígitos capaz de esclarecer uma improvável ordem no caos do sobe-e-desce das bolsas de valores. Embora a idéia seja aparentemente um desatino, logo surge uma misteriosa empresa de Wall Street que deseja financiar a pesquisa de Max. E a grana aparece sem a menor dificuldade.

Enquanto isso, o rapaz divide seu tempo entre as pesquisas furiosas e partidas de xadrez com um velho matemático. Nesse intervalo, conhece Lenny (Ben Shenkman), um rabino que lhe procura com uma estranha proposta para que o ajude a encontrar uma informação tida pela Torá como uma espécie de senha para estabelecer uma comunicação direta com Deus. Em meio às alucinações cada vez mais freqüentes causadas pela dor de cabeça descomunal, Max começa a acreditar que a sua pesquisa pde vir a esclarecer muitos mistérios da natureza… e talvez até o ajude a descobrir a verdadeira identidade do Criador.

Sinopse estranha? Pois, acredite, o filme em si é ainda mais esquisito. A escura fotografia em preto-e-branco ajuda a mergulhar o longa-metragem em um clima alucinatório, onírico, perto do que Roman Polanski fez no legendário “Repulsa ao Sexo”. E a condução do enredo, embora irregular (o ritmo varia entre o lento e o alucinado), leva a um final coerente, embora muito aberto e, de certa forma, circular – por isso decepcionante para muita gente.

No final das contas, “Pi” não é exatamente um suspense, mas pode ser um longa-metragem fascinante, desde que você seja o tipo de espectador que sempre teve algum tipo de questionamento metafísico a respeito da natureza do divino. Em DVD, o filme pode ser encontrado em tela cheia (full screen, com cortes laterais). O áudio é Dolby Digital 2.0, e a imagem tem qualidade apenas razoável. Não existem extras no disco nacional. O site oficial, em inglês, tem um longo diário de filmagens escrito pelo diretor.

– Pi (EUA, 1998)
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Sean Gullete, Mark Margolis, Ben Shenkman, Pamela Hart
Duração: 84 minutos

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