Pianista, O

08/03/2005 | Categoria: Críticas

Polanski parece afirmar, em obra-prima crua e violenta, que a arte é capaz de manter uma pessoa viva

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Obra-prima? É difícil pronunciar essa palavra no singular, quando se fala de um cineasta que dirigiu jóias tão díspares como “O Bebê de Rosemary”, “Chinatown” e “A Dança dos Vampiros”. O superprodutor Robert Evans afirma que Roman Polanski foi o mais talentoso diretor de filmes com quem já trabalhou. Depois de assistir a “O Pianista” (The Pianista, Ing/Fra/Ale/Hol/Pol, 2002), qualquer espectador de bom senso é obrigado a concordar com Evans. Polanski é gênio, e este filme é o seu projeto mais pessoal.

Devo confessar que, ao me dirigir ao cinema para vê-lo, fui com certo preconceito. Não contra o tema do filme em si, mas com o desgaste que o assunto – o extermínio dos judeus pelos nazistas, durante o período da Segunda Guerra Mundial – ganhou, em termos cinematográficos. Vários filmes já foram feitos sobre as atrocidades dos seguidores de Hitler, muitos deles excepcionais. Por isso, esperava apenas mais um filme sobre o Holocausto. Tenho certeza que muitos espectadores foram ao cinema com a mesma sensação que eu. Estávamos todos errados.

Polanski dribla esse desgaste da maneira mais original possível: adotando uma postura quase documental, de observador impassível. O filme narra os momentos mais dramáticos da vida do pianista Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody), um músico talentoso que tocava nas rádios polonesas, nos anos 1930. O filme começa quando a Alemanha de Hitler invade a Polônia. Os Szpilman, uma família de classe média bastante culta, aguarda com confiança pela intervenção da Inglaterra no conflito. Mas ela não vem. E as perseguições não demoram a começar. Elas são mostradas em todos os detalhes, da maneira mais crua possível.

Na primeira metade do filme, as barbaridades vão aumentando aos poucos. Os nazistas proibem os judeus poloneses de andar na mesma calçada do que eles. Obrigam-os a usar uma estrela de Davi na manga da camisa. Cortam os empregos. Criam um gueto imundo em Varsóvia, uma espécie de campo de concentração gigantesco, em que eles vivem presos. Atiram um deficiente físico pela varanda de uma casa apenas para não precisarem descer com ele pelas escadas. Matam a queima-roupa, humilham, espancam. É impossível não ficar indignado ao ver tamanha violência.

Bombardeado com essa sucessão de atrocidades, as defesas do espectador vão lentamente caindo. O truque de Polanski foi posicionar o protagonista mais ou menos na mesma situação da platéia, que vê tudo de perto sem ter a oportunidade de fazer nada para impedir. Perplexo, ele assiste a tudo e não tem coragem de revidar. Não participa da Resistência e vê o seu mundo ruir. Perde casa, emprego, família e acaba num campo de concentração, esperando pela morte. Mas consegue fugir.

A segunda metade do filme é um verdadeiro clássico do cinema de guerra e, ao mesmo tempo, um show de interpretação de Adrien Brody, merecidamente premiado com o Oscar. Sozinho, ele é escondido de casa em casa, por membros da Resistência polonesa. Na maior parte do tempo, Szpilman fica em silêncio. Não tem sequer com quem conversar. Ele sofre calado, passa fome e jamais consegue esboçar algum gesto que o tire da letargia. Tudo o que faz é tocar um piano imaginário e aguardar. É o que o mantém são.

Polanski também é corajoso ao rejeitar o maniqueísmo típico desse filme. Nem todo judeu é santo e nem todo alemão é nazista, como mostram alguns personagens secundários. Um dos membros da Resistência que recebe a missão de esconder Szpilman, por exemplo, usa o nome dele para conseguir dinheiro em benefício próprio, e quase o mata de inanição por causa disso. Além disso, é oficial alemão o homem que salva o pianista, dando-lhe comida e abrigo nos últimos dias da guerra.

Ao contrário do que pode parecer, o filme de Polanksi não é lento, apesar de longo e silencioso (na segunda metade, lembre-se, Adrian Brody fica sozinho em cena na maior parte do tempo). Isso é, também, mérito do ator, que oferece uma performance antológica e comunica a agonia do personagem sem necessitar de palavras, utilizando olhares a expressões faciais. Também é mérito da estupenda direção de arte, que recria as ruas devastadas de Varsóvia com realismo tão intenso que quase é possível sentir o odor fétido dos cadáveres apodrecendo nos guetos.

Para levar o projeto a cabo, Polanski baseou-se em livro autobiográfico escrito por Szpilman. Mas também incluiu episódios da própria história, já que ele mesmo só sobreviveu à época porque seu pai pagou para que fosse escondido pela Resistência. Polanski perdeu a mãe num campo de concentração polonês e, claro, isso lhe marcou pelo resto da vida, embora ele jamais tenha feito do acontecido uma bandeira ideológica. Se há alguma bandeira que o filme levanta, aliás, é a da arte. Através da trajetória de Szpilman, Polanski afirma que a arte pode manter um homem vivo. E a vida, afinal, é o que importa.

No Brasil, é preciso ter cuidado antes de pegar o filme em DVD. Há duas versões do longa-metragem, ambas lançadas pela Europa. Em termos de material extra, as duas versões são idênticas, e incluem apenas cenas de bastidores e pequenos trechos de entrevistas dos atores, distribuídos para as redes de TV na época do lançamento nos cinemas. Só que uma edição tem as imagens em formato widescreen (enquadramento original imaginado pelo diretor), enquanto a outra está em fullscreen (formato mais quadrado e com cortes laterais).

– O Pianista (The Pianista, Inglaterra/França/Alemanha/Holanda/Polônia, 2002)
Direção: Roman Polanski
Elenco: Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Frank Finlay, Maureen Lipman
Duração: 148 minutos

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