Picardias Estudantis

30/09/2005 | Categoria: Críticas

Estréia de Cameron Crowe como roteirista trata da agenda dos adolescentes da década de 1980

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Uma das comédias juvenis mais lembradas de Hollywood é a outrora famosa e hoje quase desconhecida “Picardias Estudantis” (Fast Times at Ridgemont High, EUA, 1982). O filme, dirigido pela cineasta Amy Heckerling, marca a estréia do futuro diretor Cameron Crowe, aqui trabalhando como roteirista. Trata-se de uma obra interessante, de humor, que no entanto ficou um pouco datada. Basicamente, o longa-metragem trata de uma agenda adolescente que não contempla totalmente os jovens do século XXI. Além disso, chega carregada com símbolos de uma cultura pop – roupas, gírias, músicas – que não faz mais sentido para rapazes e moças com 18 ou 20 anos. De certa forma, o filme chama mais a atenção de que era adolescente na década de 1980.

A película mantém certo interesse por representar um marco inicial de várias carreiras interessantes em Hollywood. O grande destaque do elenco, por exemplo, é Sean Penn, que interpreta um surfista maconheiro de cabelos parafinados que mata aulas para ouvir rock’n’roll. Jennifer Jason Leigh, no papel feminino mais importante, também está bem. O filme ainda traz Nicolas Cage em uma ponta e vários outros atores de menor expressão.

O projeto de “Picardias Estudantis” surgiu de forma bem diferente. A origem está num livro-reportagem escrito por Cameron Crowe, então um repórter da revista Rolling Stone. Crowe se matriculou numa escola secundária de Los Angeles, durante alguns meses, e viveu infiltrado entre os alunos. Seu objetivo era escrever uma longa reportagem investigativa, descrevendo o modo de vida dos adolescentes daquela geração. A reportagem foi publicada em livro, e o livrou acabou comprado pela Universal, que liberou o próprio jornalista para escrever o roteiro.

Como se pode prever, o resultado final é episódico, apresentando um grande número de personagens e não aprofundando muito nenhum deles. O foco da narrativa é muito mais a agenda adolescente da época – dificuldades de relacionamento, sexo, trabalho, noitadas, aborto, drogas – do que propriamente um personagem. O aspirante a Woody Allen Rat (Brian Backer), o conquistador latino Mike (Robert Romanus) e a garçonete Stacy (Jennifer Jason Leigh), que anda com os hormônios à flor da pele, formam um triângulo amoroso que vive um rolo bem complicado, e por isso o trio ganha mais tempo de tela.

Os outros personagens, contudo, também têm importância. Como são muitos, é possível que cada espectador encontre um destaque pessoal, seguindo sua identificação com um ou outro. É interessante notar um contraponto entre o doidão Jeff (Penn) e o aplicado Brad (Judge Reinhold), pois eles funcionam como pólos opostos dentro do movo de vida norte-americano. Alguns críticos também apontam um cuidado especial para com a personagem Stacy, o que é natural, uma vez que a menina vive um drama bem feminino e a diretora é uma mulher.

Emoldurando tudo isso, os diálogos são bem leves e coloquiais, o que dá ao filme a aparência jovial e espontânea de que ele necessita para funcionar. Além disso, uma marca registrada de Cameron Crowe – a boa música pop – marca presença com força: Tom Petty, Sammy Hagar e Led Zeppelin estão na trilha sonora. A piada envolvendo uma canção da última banda, por sinal, é uma das melhores do longa-metragem, mas exige conhecimento sobre a obra do quarteto para ser compreendida – quem não souber que “Kashmir” não faz parte do quarto álbum do grupo não vai sacar bulhufas.

O DVD é da Universal. O filme tem enquadramento correto (widescreen 1.72:1) e som fraco (Dolby Digital 2.0). Entre os extras, um documentário de bastidores (39 minutos) e um comentário em áudio reunindo diretora e roteirista. Um mapa interativo das locações completa o pacote.

– Picardias Estudantis (Fast Times at Ridgemont High, EUA, 1982)
Direção: Amy Heckerling
Elenco: Jennifer Jason Leigh, Sean Penn, Judge Reinhold, Robert Romanus
Duração: 90 minutos

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