Pickpocket – O Batedor de Carteiras

01/01/2009 | Categoria: Críticas

Bresson desconcerta o espectador filmando conto de redenção com atmosfera gélida impressionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O francês Robert Bresson é um caso clássico de cineasta essencial, adorado por críticos e colegas de ofício, mas absolutamente ignorado pelo público comum. “Pickpocket – O Batedor de Carteiras” (França, 1959) é, junto com o polêmico “Diário de um Padre”, o filme mais conhecido e importante da carreira dele. Trata-se de uma obra desconcertante, que busca inspiração em Dostoievski e Camus para narrar uma história clássica de redenção, filmada de maneira gélida e completamente singular.

Em Bresson, a abordagem é tudo. O diretor era um homem profundamente católico, que seguia os ensinamentos de uma corrente religiosa chamada jansenismo. A doutrina prega a disciplina rígida de corpo e espírito para alcançar a iluminação, tendo semelhanças com o budismo. A partir de meados dos anos 1950, com a carreira já consolidada, Bresson se dedicou a transportar essa doutrina para o cinema. A operação revestiu os filmes dele de um rigor formal que poucos autores, antes ou depois, lograram conseguir. Uma vez que se conhece o estilo seco e objetivo de Bresson, é possível reconhecer um filme assinado por ele assistindo-se a apenas alguns minutos de projeção.

Algumas das regras de Bresson são semelhantes aos trabalhos do realismo italiano. O diretor francês não usava atores profissionais, e orientava todos os intérpretes a evitar expressões faciais, deixando o rosto sempre neutro, de forma que o espectador tivesse que prestar atenção aos sons e à composição visual para compreender a história. Os movimentos de câmera são raros, mas o diretor não era purista; se os italianos preferiam longas tomadas sem cortes, filmadas à distância, Bresson preferia uma narrativa mais ágil, com muitos planos fechados em partes do corpo e objetos.

A soma de tudo isso gerou um estilo único. A habilidade do autor para contar a história fica evidente, mas há uma recusa muito nítida de atribuir significados emocionais – raiva, dor, ciúme, paixão – a ações dos personagens. Por isso, os filmes de Bresson passam à platéia uma sensação de distanciamento. A narrativa é sempre gélida, impessoal, contida ao máximo. Como era exatamente este o efeito pretendido pelo cineasta, é fácil afirmar que Bresson dominava perfeitamente a gramática do cinema. Ele podia não usá-la do mesmo modo que outros diretores – de certa forma, Bresson é o oposto de Samuel Fuller, para quem tudo o que importa no cinema é “emoção” – mas entendia-a perfeitamente.

“Pickpocket” tem a trama livremente baseada no romance “Crime e Castigo”, de Dostoievski. Bresson era fã do escritor russo, tendo inclusive filmado dois livros dele. No entanto, é também possível perceber influência de Albert Camus – Michel (Martin LaSalle), o protagonista, poderia ser o personagem principal do romance “O Estrangeiro”. Ele é um rapaz inteligente e culto, que não gosta de trabalhar e bate carteiras para sobreviver. Michel abandonou a mãe enferma, não quer ter mais nenhum contato com ela e mora num apartamento apertado cuja porta não fecha.

Ele desenvolveu um sentimento quase patológico de superioridade, que lhe impulsiona a ações cada vez mais ousadas contra outras pessoas. Não se importa com ninguém. Bresson narra os fatos da vida de Michel com frieza cirúrgica: ele se apaixona por uma garota (Marika Green), é perseguido por um detetive desconfiado (Jean Pélégri) e aprende novas técnicas de furto com outros batedores de carteira, sempre com o rosto impassível. É um personagem adequado para Bresson, pois um batedor de carteiras tem que ser um homem disciplinado e metódico. O diretor francês jamais poderia filmar a vida de um vendedor de shopping center.

Curto e impactante, o filme ficou famoso pela longa seqüência que flagra Michel e mais dois parceiros batendo carteiras dentro de um trem. Coreografada e editada com precisão milimétrica por Bresson, a cena é uma verdadeira aula de como filmar de modo claro e objetivo, sem usar palavras, ações de difícil compreensão pelo espectador. Se filmada de modo errado, a técnica refinada de Michel poderia parecer forçada e artificial, e deixaria a platéia perdida, sem saber direito o que está vendo. Não é o caso: a seqüência é tão limpa que o espectador compreende de imediato como o protagonista está raciocinando, e o quanto sua técnica é brilhante.

É um balé cinematográfico de tirar o fôlego, e tão naturalista que a polícia francesa proibiu o filme durante dois anos, por medo que ladrões de verdade aprendessem a roubar apenas vendo a cena. Mesmo se “Pickpocket” não fosse maravilhoso, esta seqüência, sozinha, teria potencial suficiente para seduzir qualquer cinéfilo. Além de tudo, o final redentor, mesmo filmado com a habitual frieza de Bresson, é capaz de emocionar até uma pedra.

O DVD lançado no Brasil pela Silver Screen tem a obra completamente restaurada, com ótima qualidade de imagem (1.33:1, formato original) e som (Dolby Digital 2.0), e nenhum extra. Prefira a edição da Versátil, que traz uma entrevista com Bresson como extra valioso e, além disso, paga royalties à Criterion Collection, responsável pela restauração.

– Pickpocket – O Batedor de Carteiras (França, 1959)
Direção: Robert Bresson
Elenco: Martin LaSalle, Marika Green, Jean Pélégri, Dolly Scal
Duração: 75 minutos

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