Pinóquio

09/04/2009 | Categoria: Críticas

Considerado a melhor animação da Disney, filme estabeleceu parâmetros ainda não superados para o genero

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A primeira animação Disney, “Branca de Neve e os Sete Anões”, foi lançada em 1937 e recebida com entusiasmo frenético em todo o mundo. O célebre cineasta russo Sergei Eisenstein, então considerado o maior de todos os diretores, se apressou em celebrá-la como o melhor filme já feito. Vista em retrospectiva, contudo, a trajetória vitoriosa das animações da Disney está ancorada firmemente na produção seguinte: “Pinóquio” (Pinocchio, EUA, 1940) marcou uma evolução técnica imbatível e estabeleceu a estrutura narrativa que dali em diante daria as cartas em 99% de todos os desenhos animados em longa-metragem.

Décadas depois, o longa-metragem continua a ser considerado pelos especialistas como o melhor filme da Disney. A própria empresa reconhece o fato, implicitamente, como fica claro pela escolha de “Pinóquio” como o título que introduziu a companhia no mercado de DVDs. De fato, a história do boneco de madeira que queria ser humano ficou tão entranhada no inconsciente coletivo que ganhou ares de fábula arquetípica, sendo objeto de incontáveis variações, no meio cinematográfico, ao longo dos anos – “A.I. – Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg, é apenas uma das mais evidentes de todas as produções que buscaram inspiração em “Pinóquio”.

A verdade é que Walt Disney e sua equipe trabalharam duro para conseguir um resultado impecável. Durante três anos, o produtor reescreveu incansavelmente o roteiro, corrigindo defeitos que mesmo os maiores cineastas só perceberiam depois que o filme ficasse pronto. Um dos maiores méritos foi a criação do Grilo Falante, personagem que não existia no conto original italiano, muito mais malvado. O inseto-consciência surgiu da percepção, para Disney, de que o protagonista precisava ser um personagem que provocasse empatia na platéia. Ele só conseguiu isso dando ao boneco de madeira a personalidade de um bebê, alguém que não teve experiências prévias para lhe mostrar noções práticas do que é certo ou errado.

Ocorre que alguém assim precisaria de orientação para poder acertar, certo? Foi aí que entrou em cena o Grilo Falante, um problema especialmente difícil para os 750 animadores que trabalharam no filme. A maior dificuldade era elaborar tomadas fluídas em mostrassem o Grilo interagindo com Pinóquio. Parece simples, mas não era, pois a escala dos dois era muito diferente. O segredo, para evitar que as cenas ficassem picotadas demais, foi explorar mais o inseto em cenas-solo, quase sempre com ele dirigindo-se diretamente ao espectador – um tabu enorme ainda hoje, em pleno século XXI, e uma ousadia incomparável para a época.

Além disso, o resultado técnico ficou mesmo impecável. Basta observar a primeira tomada do filme, em que a câmera focaliza uma estrela no céu e desce, devagar, até a janela da casa de Gepeto, assumindo o ponto de vista subjetivo do Grilo Falante. O movimento é tão impressionante que a tomada chega mesmo a imitar os solavancos produzidos pelos saltos do inseto se movendo. Outra inovação, talvez a mais importante de todas, estava nas constantes brincadeiras com elementos posicionados fora do quadro (ou seja, longe da vista do espectador). Conseguir fazer isso de forma espontânea e casual, sem despertar a atenção da platéia para o problema era um desafio, vencido com perfeição pela equipe.

Este aspecto específico merece uma análise mais detalhada. Nos filmes live action, com atores de carne e osso, é natural que os personagens entrem e saiam do quadro. Em “Branca de Neve”, os animadores não haviam encontrado uma maneira de fazer isso com naturalidade. Já em “Pinocchio”, Disney encontrou maneiras criativas de brincar com o espaço fora da tela. Às vezes ele põe a fonte dos ruídos fora do quadro, fazendo o espectador inconscientemente estabelecer a existência de elementos que não pode ver. Outras vezes os personagens entram e saem da tomada sem se demorarem fora dela. O melhor exemplo está na seqüência em que Pinóquio e Gepeto são expelidos de dentro da baleia Monstro por um espirro, sumindo do quadro e voltando um instante depois.

Para concluir, a equipe também desenvolveu novas técnicas para utilizar todo o potencial da câmera multiplano, que sobrepunha diversas camadas de desenhos para gerar a ilusão de profundidade de campo. Desta vez, os mais de dois milhões de desenhos estáticos foram pintados em placas de vidro transparente, em paletas de cores sóbrias, de forma que os cenários ganharam um aspecto mais realista. Unindo todos esses avanços técnicos a um roteiro enxuto, que equilibra comédia, drama e aventura em doses iguais e exatas, os diretores Hamilton Luske e Ben Sharpsteen foram capazes de criar um clássico que permaneceu na memória de muitas gerações. Para coroá-lo, a singela e inesquecível abertura transformou a canção “When You Wish Upon a Star” num standard do século XX, regravada depois por gente de culturas tão diferentes quanto Renato Russo e Gene Simmons (do Kiss).

O primeiro DVD disponível no Brasil, lançado em 2002, não tem extras, e o filme tem boa qualidade de imagem (fullscreen, formato original) e áudio (Dolby Digital 4.0). A edição Platinum, dupla, traz trilha de áudio remixada (Dolby Digital 5.1), imagens restauradas e comentário em áudio do historiador Leonard Maltin, no disco 1; o segundo CD traz um documentário, duas cenas cortadas originais, um final alternativo, galeria de rascunhos e testes de filmagem com atores em carne e osso, além de músicas deletadas e games para as crianças.

– Pinóquio (Pinocchio, EUA, 1940)
Direção: Hamilton Luske e Ben Sharpsteen
Animação
Duração: 88 minutos

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