Piquenique na Montanha Misteriosa

25/06/2005 | Categoria: Críticas

Peter Weir realiza filme perturbador, privilegiando atmosfera onírica à narrativa tradicional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Um sonho delirante. Essa é a sensação que o longa-metragem “Piquenique na Montanha Misteriosa” (Picnic at Hanging Rock, Austrália, 1975), de Peter Weir, deixa no espectador. Ao contrário do que o título e a sinopse prometem, não se trata de um filme de detetive, de uma obra policial que investiga e soluciona um desaparecimento. Weir não parece interessado em realizar um filme narrativo, com começo, meio e fim claramente definidos. Ele prefere investir na criação de uma atmosfera onírica, privilegiando as sensações aos fatos. Faz, assim, um trabalho desafiador, diferente, mas também hermético, que deve desagradar ao público mais tradicional.

“Piquenique na Montanha Misteriosa” se passa no ano de 1900 e conta a história do desaparecimento de um grupo de estudantes do aristocrático Appleyard College, colégio vitoriano para moças na costa australiana. As alunas, acompanhadas de uma professora, somem misteriosamente durante um passeio à montanha de Hanging Rock, uma formação geológica peculiar, não muito distante da escola. Quem assistir ao filme pensando que Peter Weir vai reconstituir o acontecimento dando ênfase às investigações do mistério, contudo, vai quebrar a cara. Não era essa a intenção do cineasta australiano, desde o princípio do projeto.

Em seu segundo trabalho, Weir preferiu não explicar o desaparecimento, embora tenha dedicado boa parte do filme às buscas pelas garotas. Na verdade, ele quis criar uma atmosfera de transe. A fotografia de Russell Boyd, junto com a montagem (Max Lemon) e a música (Bruce Smeaton), é de grande valia nesse intento. O fotógrafo extrai belas tomadas do exótico ambiente natural: a fauna (lagartos, formigas, mosquitos), a flora (árvores, vegetação rasteira, flores) e as formações rochosas são meticulosamente apresentadas em ângulos estranhos, esquisitos, muitas vezes de baixo para cima ou de cima para baixo. Há muitas formações rochosas que parecem rostos, observando gravemente a movimentação daqueles “intrusos” no ambiente. Weir apresenta a montanha como uma espécie de personagem orgânico, vivo, e fascinante.

As imagens são editadas em câmera lenta, acompanhadas de uma alucinatória canção à base de flautas e, às vezes, de um hipnótico zumbido grave que parece jogar algumas das meninas – não todas – em estado de hipnose. Dessa forma, Weir ousa fazer o espectador perder a noção de tempo transcorrido. Ele cumpre, assim, uma intenção: colocar a platéia da mesma situação mental das garotas que desaparecem. Uma vez no local do piquenique, as meninas logo observam que os relógios de todo mundo pararam de funcionar ao mesmo tempo, ao meio-dia.

Enquanto as estudantes descansam e brincam, em uma clareira, parte delas decide subir as rochas. As imagens procuram deliberadamente apresentar a escalada de forma delirante. As garotas cochilam juntas, e os animais da floresta caminham entre os corpos deitados na rocha sem provocar reações. O zumbido dos insetos acorda todas ao mesmo tempo. Juntas, elas caminham como se estivessem em transe. Uma delas, a mais medrosa, desce a montanha gritando; Edith (Christine Schuler) é o elo do grupo com a realidade. A partir do ponto em que ela retorna, a platéia não mais fica sabendo sobre as outras estudantes. Não há sinal do que possa ter acontecido com elas. Parecerem ter se desvanecido em pleno ar.

O que aconteceu? Não sabemos. Peter Weir também não. O filme aponta pistas, atira fragmentos de explicações ao espectador, como migalhas, mas não aponta soluções concretas para o mistério. A montanha as tragou, como uma flor carnívora faria com moscas? Elas foram abduzidas por um disco voador? Foram raptadas e assassinadas pelos dois rapazes que participavam de outro piquenique, e viram as adolescentes se afastarem do grupo amor? E qual a ligação de Sara (Margareth Nelson), a única estudante proibida de ir ao passeio, com o acontecimento?

Os mistérios se acumulam. Por que as garotas vão, no meio de transe, tirando sapatos, meias e espartilhos rumo ao cume da montanha? Qual a ligação disso com a professora desaparecida, vista pela última vez por Edith, apenas com roupas íntimas, também escalando as rochas? Professora e alunas desaparecidas chegaram a se encontrar ou sumiram separadamente? “Piquenique na Montanha Misteriosa” sugere, não exatamente com convicção, que há um elemento de repressão sexual na base do mistério. Talvez a montanha, com seus rostos rochosos e suas pedras fálicas, represente uma alegoria do masculino que seduz as garotas e elimina sua inocência; e, uma vez perdida a inocência, talvez não haja maneira de elas voltarem a viver como antes.

Talvez. A explicação é insuficiente, se for tomada literalmente, mas seria um erro considerar como explicação coerente apenas os fatos concretos, já que o filme é uma alegoria. Embora apresentado como se fosse baseado em fatos reais, o longa-metragem é a adaptação de um romance de ficção – mas uma ficção sobre um lugar mítico da Austrália, um local ermo que os povos nativos da região consideram como maldito. Um local onde desaparecimentos parecidos são registrados há muitos séculos. A narrativa de “Piquenique na Montanha Misteriosa” é apenas a ficcionalização de um desses sumiços inexplicáveis.

De fato, Weir não responde nada. Ele abre o leque de opções na mesa, reúne os indícios, mas deixa ao espectador o papel de detetive que deve analisar esses fragmentos de prova. Isso é uma tarefa que a platéia contemporânea, acostumada a receber os filmes devidamente digeridos e explicados à exaustão, não aceita. “Piquenique na Montanha Misteriosa” é lento demais, impenetrável até, para a maioria do público, embora tenha o potencial para oferecer uma experiência cinematográfica estimulante e original para aqueles que decidirem encará-lo da forma correta.

Minha experiência pessoal com o filme pode dar uma idéia do que significa vê-lo sem o preparo adequado. “Piquenique na Montanha Misteriosa” foi exibido num cinema do Recife em 1987. Ao assisti-lo pela primeira vez, eu tinha 15 anos e esperava o que o título prometia – uma história de detetive. Sai do cinema achando o filme lento e incompreensível, mas guardei na memória as passagens em que as meninas sobem as rochas, em transe, e desaparecem para sempre. Ao rever a obra em 2005, percebi que essas passagens ainda conservam seu caráter alucinatório, hipnótico. Há algo de perturbador nessas cenas, algo que me fez gravá-las na memória com força. Mas percebi que elas estavam gravadas na memória como se fossem um sonho, não um filme. Foi quando notei que “Piquenique na Montanha Misteriosa” era um título especial. O filme de Peter Weir conseguira, ao menos comigo, o resultado desejado

O DVD brasileiro é um disco curioso. O filme, vendido em bancas de revistas pela NBO Editora, foi retirado da versão que a Criterion lançou no mercado internacional. O longa-metragem foi reeditado por Peter Weir (perdeu sete minutos) e teve as imagens, apresentadas no formato original widescreen, restauradas. O som é Dolby Digital 2.0 (a versão internacional tem áudio melhor, em DD 5.1). Não há material extra, mas a outra face do disco contém o filme “Valmont” de Milos Forman.

– Piquenique na Montanha Misteriosa (Picnic at Hanging Rock, Austrália, 1975)
Direção: Peter Weir
Elenco: Rachel Roberts, Anne-Louise Lambert, Vivean Gray, Helen Morse
Duração: 107 minutos

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