Piranha 3D

11/02/2011 | Categoria: Críticas

Alejandro Aja enche a nova versão do filme de 1978 com referências a filmes antigos e trabalha no limite do mau gosto, mas sem esquecer do humor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O prólogo de “Piranha 3D” (EUA, 2010) deixa bem clara que a proposta do filme do francês Alejandro Aja não é simplesmente refazer o filme que Joe Dante fez em 1978, no rastro do sucesso de “Tubarão” (1975). Vemos um pescador solitário, sentado um barquinho, com uma garrafa de cerveja na mão, no meio de um lago. Distraído, ele deixa a garrafa cair na água – e o impacto dela no fundo acaba abrindo uma passagem para um lago subterrâneo, de onde saem exemplares de uma espécie ultra-agressiva de peixes carnívoros que, evidentemente, atacam o barco e deixam no lugar dele apenas um rastro de madeira, sangue e ossos.

Não é preciso muito esforço para perceber que esse prólogo é basicamente uma variação da abertura de “Tubarão”. Mais: espectadores razoavelmente atentos verão que o pobre pescador é interpretado por Richard Dreyfuss, astro do filme de 1975. Ele bebe a mesma marca de cerveja consumida pelo personagem dele em “Tubarão”. Se ainda não ficou claro, preste um pouco mais de atenção: ele também assobia a música ouvida no filme de Spielberg. É o mesmo personagem? Isso não fica claro. Na verdade, não importa, porque a mensagem já está dada: “Piranha 3D” deseja atualizar um dos enredos clássicos dos filmes de horror para os anos 2000, oferecendo um banho de sangue regado a homenagens cinéfilas de humor duvidoso.

Em sua terceira produção norte-americana, Alejandro Aja (que fez o ótimo “Viagem Maldita”, de 2006) capricha na quantidade de alusões e referências a filmes dos anos 1970 e 1980, oferecendo uma espécie de jogo lúdico aos cinéfilos com mais de 30 anos (algo do tipo “encontre a próxima referência e ganhe um sorriso extra como prêmio”). A maioria das citações aposta na irreverência, e algumas são bem engenhosas – como a ponta de Christopher Lloyd como um cientista meio maluco, que em sua aparição contracena com a protagonista Elizabeth Shue (ambos estiveram juntos em “De Volta Para o Futuro 2”). Há montes de referências assim, e elas constituem a maior graça do filme.

De resto, o enredo se limita a repetir mais ou menos a trama de “Tubarão”, inclusive tendo um policial como protagonista. A diferença é que agora, sem a censura e o pudor que os grandes estúdios tinham há quatro décadas, a quantidade de sexo, sangue e cerveja é muito maior. Uma policial (Elizabeth Shue) precisa proteger um vilarejo paradisíaco do ataque dos peixes assassinos, incluindo seus três filhos. E isso bem na temporada de férias da cidade, o que significa que o lugar está lotado de lanchas potentes, adolescentes, muitas garotas seminuas, bundas e peitos para todo lado, litros de cerveja e tequila.

Aja filma tudo no limite do mau gosto, mas minimiza esse procedimento ao acrescentar sempre uma pitada de humor, muitas vezes crítico. Um exemplo? Os jovens turistas atacados pelas piranhas incluem um monte de mulheres peladas como aqueles corpos típicos de estrelas pornô (de fato, várias delas fizeram pontas na seqüência do maior ataque); pois as piranhas rejeitam e cospem fora as próteses de silicone que engolem durante o ataque. O lado mais carola do cineasta (ou do estúdio que bancou o filme) aflora na tradicionalíssima punição simbólica imposta aos diferentes personagens: as mortes mais dolorosas ficam reservadas para quem ultrapassa mais os limites do moralmente aceitável. Isso inclui o diretor de filmes pornô Derrick Jones (Jerry O’Connell) e a cena mais polêmica do longa-metragem, quando uma piranha vomita um indigesto órgão genital masculino, em efeito ampliado pelo uso do 3D.

Bom ou ruim, é preciso inserir “Piranha 3D” dentro do contexto dos subgêneros do cinema de horror a que Alejandro Aja está evidentemente alinhado, e que precisa incluir necessariamente diretores como Russ Meyer, Roger Corman e Ruggero Deodato entre seus inspiradores. E nunca é demais aplaudir a divertida cena final, que abre a porta para a esperada continuação. Curiosamente, apesar do flerte ostensivo com o kitsch e o grotesco, “Piranha 3D” foi bem recebido pela crítica norte-americana, e nem mesmo a recepção morna nas bilheterias (o filme arrecadou apenas US$ 25 milhões, um milhão a mais do que o orçamento) evitou que a tal continuação fosse confirmada de imediato. Ou seja, vem mais por aí.

– Piranha 3D (EUA, 2010)
Direção: Alejandro Aja
Elenco: Elizabeth Shue, Ving Rhames, Steven McQueen, Jessica Szohr
Duração: 89 minutos

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