Piratas do Caribe: No Fim do Mundo

21/02/2008 | Categoria: Críticas

Terceiro filme da trilogia farsesca retoma história de onde o anterior parou, e compartilha com ele virtudes e defeitos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O samba do pirata doido. A expressão cai como uma luva no emaranhado de tramas paralelas que é o terceiro episódio da franquia “Piratas do Caribe”, uma mistura farsesca de aventura, comédia e romance que mira, assumidamente, no público adolescente. Chamar o filme de longo demais é uma constatação óbvia, embora seja talvez incorreta, já que “No Fim do Mundo” (Pirates of the Caribbean – At World’s End, EUA, 2007) soma-se a “O Baú da Morte”, segundo volume da trilogia, para compor uma história única com seis horas de duração. O resultado final compartilha virtudes e defeitos com o antecessor. Tem excelentes efeitos especiais, ótimas tiradas de humor e interpretações deliciosamente exageradas. Contudo, o excesso de personagens e subtramas atrapalha tudo e compõe um todo capenga e quase incompreensível.

A maior parte do público que lota as salas de cinema parece não achar que esses problemas sejam relevantes. Como se sabe, “O Baú da Morte” se tornou a maior surpresa de 2006, batendo sucessivos recordes de bilheteria e esmagando concorrentes de peso, como “O Código Da Vinci”. Lançado menos de um ano depois e continuando a história exatamente do ponto em que ela havia parado, “No Fim do Mundo” vai ainda mais longe nos excessos. Aglutina à trama já inchada uma dúzia de novos personagens e mais duas ou três tramas paralelas (a perseguição aos piratas de todo o planeta, os rolos envolvendo a deusa Calypso), o que torna a teia de eventos em que os três protagonistas estavam envolvidos anteriormente ainda mais complexa.

A abertura do longa-metragem, novamente assinado pelo mesmo Gore Verbinski que orquestrou os dois primeiros títulos da franquia, ilustra rapidamente o contexto em que a história vai se desenvolver. Liderada pelo ambicioso lorde Cuttler Beckett (Tom Hollander), a Companhia das Índias Ocidentais inicia uma feroz perseguição a todos os piratas. Assim, nosso heróis Will Turner (Orlando Bloom) e Elizabeth Swann (Keira Knightley) se unem ao outrora vilão Capitão Barbossa (Geoffrey Rush), de volta do mundo dos mortos, para resgatar o pirata Jack Sparrow (Johnny Depp), lançado no limbo no final de “O Baú da Morte”. Cada um dos três, porém, tem uma razão individual para reencontrar Sparrow, além da óbvia intenção de preservar a pirataria de um fim melancólico.

A partir daí, o que se segue é uma série quase interminável de subtramas, que cortam a história principal por todos os lados. Incansáveis na tarefa de complicar ainda mais a vida da platéia, os roteiristas Ted Elliott e Terry Rossio organizam uma série de reviravoltas que, a cada 15 minutos, fazem heróis e vilões trocar de posição por diversas vezes. O negócio é tão complicado que lá pela metade da projeção fica impossível dizer quem está do lado de quem, quais são os vilões e quais os mocinhos. Quer um exemplo? Pouco antes da batalha final, os seis líderes das duas principais facções se encontram em um pequeno atol de areia. Três de cada lado. Eles confabulam rapidamente, e dois deles mudam de posição, antes que cada trio retorne ao seu lado para que o pau comece. Detalhe: os namorados Will e Elizabeth estão em lados opostos na guerra!

Tantas subtramas, personagens e reviravoltas fazem o espectador perder a noção do conjunto, e este é o defeito mais grave do filme. Por mais habilidosos que sejam, os dois escritores jamais conseguem resolver a contento tantas ramificações da história principal, e por isso vão descartando-as, uma a uma, muitas vezes sem explicação. O que dizer, por exemplo, da confusão envolvendo a deusa Calypso? A figura oriunda da mitologia grega é mencionada pela primeira vez após uma hora de projeção, e após um curto período de mistério a respeito de sua identidade, o filme se detém por alguns minutos numa suposta relação amorosa entre ela e o pirata Davy Jones (Billl Nighy). Depois, a divindade dos mares é convenientemente esquecida de novo. Parece ter sido introduzida na trama apenas para protagonizar um momento tocante ao lado de Nighy. É nele que o ótimo ator inglês aparece, pela primeira vez na franquia, sem a fantástica maquiagem digital de polvo. O melhor momento dele, porém, é o tocante momento em que é revelada sua dor de cotovelo. Grande atuação, ótimo CGI.

O segredo para curtir as qualidades de “No Fim do Mundo” está em esquecer a complexidade e a falta de lógica da trama, encarando cada cena como um elemento isolado e curtindo cada momento como se fosse o único. A já citada cena do ajuste de contas entre os seis líderes da batalha, por exemplo, é muito confusa, mas tem um ponto positivo: as reiteradas citações aos famosos duelos operísticos dos filmes de Sergio Leone. Os planos copiam diligentemente enquadramentos exóticos usados pelo mestre italiano, enquanto a música escolhida para sublinhar a cena é uma variação de um dos temas principais do clássico “Era uma Vez no Oeste” (1968). O mesmo momento do filme, portanto, tem um lado bom e outro ruim. A chave é se concentrar no bom.

Via de regra, o trabalho de Gore Verbinski se apóia em dois elementos previamente testados e aprovados pelo público. Um deles é o humor. “No Fim do Mundo” insere pelo menos uma frase de efeito, comentário sarcástico ou piada visual em cada cena, levando a platéia às gargalhadas a cada intervalo de cinco minutos. Preste atenção, por exemplo, em quantas vezes Verbinski se utiliza de um recurso surrado para fazer rir, intercalando momentos de ação frenética com planos de reações que enfocam os animais de estimação dos piratas, em especial o papagaio tagarela e o macaco amestrado de Barbossa. A participação do guitarrista Keith Richards é um bônus especial para adultos acima dos 40 anos de idade (“você já viu de tudo e conseguiu sobreviver”, lhe diz Johnny Depp, a certa altura). Impossível não rir.

Além de tudo isso, Verbinski utiliza os excelentes efeitos visuais em CGI, aliados à direção de arte suntuosa, para compor um visual espetacular. Os cenários – o porto de Cingapura, a praia de areia branca do fim do mundo – são bem bacanas, e os figurinhos caprichados criam a ilusão de que estamos realmente no universo dos piratas. Isso também ajuda os atores a oferecer boas interpretações. Liderada pelo andar trôpego de Johnny Depp, a turma de veteranos – Geoffrey Rush, Bill Nighy, Chow Yun-Fat, Stellan Skarsgaard – se diverte à beça. Todos super-interpretam sem o menor medo de parecerem caricatos. Eles sabem que o filme inteiro é uma grande caricatura. Nós também.

O DVD de locação, da Buena Vista, é simples e seco, sem extras. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa. A edição dupla traz um segundo disco contendo onze featurettes (70 minutos) e quatro cenas cortadas (18 minutos), tudo com legendas em português.

– Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean – At World’s End, EUA, 2007)
Direção: Gore Verbinski
Elenco: Johnny Depp, Geoffrey Rush, Keira Knightley, Orlando Bloom, Chow Yun-Fat
Duração: 168 minutos

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