Piratas do Caribe: O Baú da Morte

07/03/2007 | Categoria: Críticas

Segunda aventura da franquia é longa e confusa, embora tenha bons atores e efeitos visuais de primeira

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A idéia de criar uma versão cinematográfica dos personagens de uma das mais populares atrações dos parques temáticos da Disney sempre pareceu original, mas esquisita. Um filme baseado num brinquedo da Disneylândia? Porém, como todos sabemos, as melhores idéias surgem de onde menos se espera – e o extraordinário sucesso alcançado pelos filmes da franquia “Piratas do Caribe” parecem comprovar esta tese em definitivo, pelo menos aos olhos do público. “O Baú da Morte” (Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest, EUA, 2006), segunda aventura da série, passou pelas bilheterias norte-americanas como um furacão, engolindo sucessivos recordes e transformando-se no maior filme – e também na maior surpresa – do ano, a despeito de possuir uma trama longa e confusa.

Vejamos: o longa-metragem de 150 minutos, dirigido pelo eficiente e insípido cineasta Gore Verbinski (de “O Chamado”, autor também do primeiro filme da franquia), tornou-se o filme mais visto num primeiro final de semana em toda a história de Hollywood, arrecadando US$ 135 milhões. Levou oito dias para bater a marca dos US$ 200 milhões e pulverizar outra marca histórica. E estas são apenas duas das façanhas da produção, que não era citada nas listas dos maiores sucessos de 2006 (posto que cabia a “Superman – O Retorno” e “O Código Da Vinci”). Sim, é impressionante.

Além disso, um dado curioso mostra que 57% dos espectadores são mulheres, embora filmes de aventura costumem atrair bem mais rapazes. Estranho, portanto, é que entre os dez ou doze personagens importantes, somente dois são mulheres, ambas insípidas e com poucas cenas. Também não há galãs. A razão do interesse feminino, pelo visto, é um pirata meio maluco, que usa dreadlocks e dentes de ouro, anda como um bêbado gay e atende pelo nome de Jack Sparrow (Johnny Depp).

Há um mistério aí. Depp é, indiscutivelmente, um excelente ator. Os trejeitos e figurinos que bolou para compor o visual do excêntrico Jack Sparrow foram inspirados no guitarrista Keith Richards (dos Rolling Stones), que está muito longe do status de símbolo sexual. Em resumo, Jack Sparrow não tem absolutamente nenhuma qualidade para pôr em ebulição os hormônios da mulherada, e ainda assim cativou o público (especialmente, é bom repetir, o feminino) de uma maneira inebriante. Um fenômeno para historiadores do cinema tentarem decifrar.

Johnny Depp é a melhor coisa de “O Baú da Morte”. Ele tem mais tempo em cena do que em “A Maldição do Pérola Negra” (2003), seu talento humorístico foi devidamente acentuado, e por isso o filme cresce extraordinariamente quando as câmeras o focalizam. A primeira metade do longa-metragem, mais cômica, tem os melhores momentos da produção, especialmente toda a parte em que Sparrow e a tripulação do Pérola Negra estão numa ilha deserta, prisioneiros de uma tribo de canibais. O trecho até lembra um pouco o clássico infantil tupiniquim “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão”, referência sempre positiva para os saudosistas de plantão.

Outro destaque do longa-metragem é a boa escalação de atores secundários, que inclui os veteranos Bill Nighy e Stelan Skasgaard, ambos se divertindo debaixo de pesada maquiagem, como tripulantes de um navio-fantasma que, em alguns momentos, pode ser assutador. Os astros teen Orlando Bloom e Keira Knightley, responsáveis pelo lado romântico no primeiro filme, repetem os papéis aqui, mas desta vez não são os protagonistas – e, melhor ainda, passam pouco tempo juntos em cena, recurso que abre ainda mais espaço para que Depp, Nighy e Skasgaard dominem o filme por completo.

Infelizmente, “O Baú da Morte” se ressente exatamente do mesmo defeito que a produção de estréia da franquia possuía: a história é fraca, embolada e confusa, mero pretexto para que os artistas visuais, especialmente maquiadores e técnicos de computação gráfica, criem personagens e seqüências de encher os olhos. O visual da tripulação do navio-fantasma Flying Dutchman é o grande destaque, ancorado em um conceito original e criativo: as carcaças dos marujos são habitadas por crustáceos minúsculos e pequenos animais marinhos, como se os esqueletos fossem velhas bancadas de coral que se transformaram em pequenos ecossistemas completos.

A concepção visual deste conceito é magistral, especialmente na figura fantasmagórica do capitão Davy Jones (Bill Nighy, fantástico), cujo crânio coexiste com um polvo, o que lhe dá a aparência ao mesmo tempo fascinante e aterrorizante de uma medusa. Falando em polvo, é impossível não mencionar o Kraken, gigantesca criatura marinha controlada pelos fantasmas de Davy Jones, que ataca e destrói embarcações em segundos. Os poucos momentos em que vemos o Kraken e seus tentáculos gigantes em ação respondem pelos momentos mais eletrizantes do filme.

No entanto, apesar da performance inspirada de Johnny Depp, do elenco de apoio consistente e da excelência dos recursos visuais, “O Baú da Morte” jamais se transforma em um filme bom. A questão é simples: para quê juntar bons atores e efeitos tão legais quando não se tem uma história. Os recursos positivos deveriam funcionar a favor do filme, deveriam ser ferramentas para ajudar o diretor a narrar a saga com agilidade. Acontece que os 150 minutos de longa-metragem se passam e, ao final, a platéia ainda não conseguiu responder à pergunta que realmente importa: o que é a história?

A rigor, seria possível dizer que se trata da busca pelo baú do título, um objeto sobrenatural cobiçado por Sparrow, Will (Orlando Bloom), Elizabeth (Keira Knightley), Norrington (Jack Davenport) e outros personagens. Mas esta é uma resposta falsa, enganosa. O baú não tem importância nenhuma, e o público nem sabe direito para que ele serve. É mero pretexto para fazer os personagens correrem, lutarem e contarem piadas por duas horas e meia, período longo demais para uma aventura tão despretensiosa. E quando, ao final desse tempo todo, descobrimos que será preciso encarar mais um filme para que a história seja finalizada e aquela pergunta principal respondida, a sensação é de decepção.

O DVD foi lançado em duas versões pela Buena Vista no Brasil. O simples tem boa qualidade de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica), e traz ainda comentário em áudio dos roteiristas Ted Griffin e Terry Rossio, mais erros de gravações. A versão dupla tem um disco extra com um documentário de uma hora e nove featurettes enfocando diversos aspectos, como a criação do visual do pirata Davy Jones.

– Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest, EUA, 2006)
Direção: Gore Verbinski
Elenco: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Bill Nighy
Duração: 150 minutos

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