Pistoleiros do Entardecer

09/03/2006 | Categoria: Críticas

Primeiro grande faroeste de Peckinpah tem temas típicos do diretor e humor surpreendente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Pistoleiros do Entardecer” (Ride the High Country, EUA, 1962) foi o primeiro grande filme de Sam Peckinpah, um longa-metragem que revitalizou um gênero em franca decadência – o western – e garantiu ao cineasta grande respeito entre fãs e críticos. Visto por quem já conhece a obra posterior do diretor, mais famosa e mais polêmica, o título pode causar alguma surpresa, principalmente devido ao uso generoso de humor por um artesão cinematográfico que, a despeito da enorme habilidade como contador de histórias, viria a ficar conhecido pelo caráter irascível, quase mal-humorado.

Olhando abaixo da superfície, porém, “Pistoleiros do Entardecer” é puro Peckinpah, e as principais marcas registradas do denominado “Poeta da Violência” estão lá: a chegada da civilização moderna destruindo os valores clássicos do Velho Oeste e o senso de honra peculiar entre homens que se situam no limiar entre o heroísmo e o banditismo (temas que retornariam em “Meu Ódio Será Sua Herança” e “Pat Garrett e Billy The Kid”, por exemplo).

No entanto, a assinatura visual do diretor – o uso de câmera lenta para estilizar ao máximo as cenas sangrentas – ainda estava sendo rascunhada. Aliás, “Pistoleiros do Entardecer” não é um faroeste muito movimentado. Seu ritmo é mais contemplativo e psicológico; numa locadora, o filme não estaria na prateleira de aventuras, mas na de drama. Trata-se, na verdade, de uma película que observa tristemente os momentos finais do mítico Velho Oeste, o período de ouro da civilização norte-americana. Este é um tema que Peckinpah sublinha lindamente através da melancólica trilha sonora (um tema único, muito bonito e triste) e do uso de cores outonais, abusando dos tons marrons e dourados de um pôr-do-sol, que acabaram emprestando o título brasileiro do longa-metragem.

A abertura apresenta dois personagens que tentam sobreviver como podem ao fim de uma era. O xerife aposentado Steve Judd (Joel McCrea) é contratado por um banco para fazer o transporte de um carregamento de ouro de uma mina, situada em local selvagem, para uma cidade, a uma distância de dois dias. Judd carrega com ele o velho amigo Gil Westrum (Randolph Scott) e o impulsivo jovem Heck Longtree (Ronald Starr). A princípio, a trama parece desenvolver uma história trivial de três pistoleiros do bem enfrentando perigos para transportar o carregamento em segurança, mas não é nada disso. A partir da metade, o enredo dá uma guinada imprevisível e acrescenta temas improváveis como honra, lealdade e amor.

A apresentação dos dois personagens principais é antológica. Judd é mostrado negociando um preço justo para a missão com dois banqueiros, ambos desconfiados de sua idade avançada. Ele se tranca no banheiro para poder ler o contrato usando óculos de grau. Já Westrum é visto pela primeira vez utilizando uma humilhante fantasia de Buffalo Bill para enganar sujeitos crédulos em uma brincadeira de tiro ao alvo e, assim, faturar uns trocados. É assim que os dois homens do Velho Oeste conseguem sobreviver nos novos tempos. São dois ultrapassados que não têm mais lugar no mundo – típicos personagens de Sam Peckinpah.

A entrada em cena da jovem Elsa Knudsen (Mariette Hartley) é a primeira surpresa que Peckinpah reserva ao espectador. A participação dela – uma jovem de cabelos curtos, bem ao estilo das feministas dos anos 1960, corte justificado no enredo pelo pai da garota, que a obriga a se vestir como um menino para se proteger dos homens da região – traz a reboque as duas mais brilhantes seqüências de um filme sensacional. A primeira, irônica, acontece em um jantar no rancho dos Knudsen, quando anfitrião e convidados discutem em meio a citações da Bíblia. A outra, ainda mais cínica e ácida, é uma bizarra cena de casamento celebrado em um bar, com prostitutas fazendo o papel de damas-de-honra e um velho bêbado transformado em juiz. O humor de Sam Peckinpah jamais foi tão afiado.

Como se não bastasse, o diretor acerta a mão ao jamais ceder à tentação de transformar seus personagens em modelos de conduta. Em “Pistoleiros do Entardecer” não há mocinhos e nem heróis; apenas seres humanos, sempre sujeitos a tentações e rompantes de violência ou mau-humor. “Meu pai diz que há o certo e o errado, o bem e o mal. Que não há nada no meio. Mas não é tão simples assim, é?”, pergunta Elsa a Judd, em certo momento. É uma espécie de frase-resumo do filme, e uma enorme ousadia em 1962, época em que o cinema norte-americano apenas começava a ter coragem de fugir do maniqueísmo e construir personagens mais humanos, mais falhos.

A edição norte-americana em DVD, da Fox, é um capricho. Tem imagem (wide 2.35:1) e som (Dolby Digital Mono) restaurados. Entre os extras, um documentário (23 minutos), um comentário em áudio que reúne quatro especialistas na obra do diretor e um trailer. O disco não foi lançado pela Warner no Brasil.

- Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country, EUA, 1962)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: Randolph Scott, Joel McCrea, Mariette Hartley, Ron Starr
Duração: 94 minutos

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Um comentário
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  1. Genial, simplesmente genial. Minha nota é DEZ – ops! Cinco, o máximo permitido.

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