Pixote: A Lei do Mais Fraco

13/10/2008 | Categoria: Críticas

Cru e vigoroso, longa-metragem de Hector Babenco é um dos cinco marcos fundamentais da história do cinema brasileiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Terceiro longa-metragem dirigido por Hector Babenco, “Pixote: A Lei do Mais Fraco” (Brasil, 1981) ocupa, sem dúvida, um dos cinco marcos fundamentais da história do cinema brasileiro. A fama internacional, que possibilitou ao cineasta criar uma carreira em Hollywood, não veio de graça. A história do menino de 11 anos analfabeto e que nunca conheceu os pais, vivendo entre celas de reformatórios e quartos fedorentos no submundo, é cinema do mais alto nível, destrinchando a realidade dura e trágica da vida no submundo de forma crua e impiedosa, sem aliviar um só segundo na espantosa carga de imagens de violência a que os personagens são submetidos. O impacto emocional de “Pixote” continua devastador, especialmente quando se sabe que a realidade da juventude que mora nas ruas, no Brasil, não mudou nada desde que o longa-metragem foi realizado.

O roteiro, escrito por Babenco e Jorge Duran a partir de romance de José Louzeiro, traça um retrato profundo, acurado e multidimensional da realidade das crianças abandonadas no Brasil. O filme funciona como uma radiografia completa da vida nas ruas de uma grande metrópole, com tudo o que isso significa: corrupção e violência policial, ausência absoluta de afeto familiar, promiscuidade, envolvimento com tráfico de drogas e prostituição e, acima de tudo, a indiferença de uma classe média que se relaciona lateralmente com esta mesma periferia, evitando-a e varrendo-a para baixo do tapete. O maior mérito de Babenco é dar conta de todas essas facetas da realidade dos meninos de rua sem jamais perder o foco nos personagens, sempre humanos e bem definidos.

A decisão de utilizar um elenco formado por crianças e adolescentes recrutados nas favelas paulistanas mostra-se um grande acerto desde o primeiro minuto de projeção. Talvez por recriarem ficcionalmente fatos familiares para quem vive na periferia – ou seja, por interpretarem personagens muito próximos daquilo que eram na vida real – os garotos que interpretam a “família” de Pixote (Fernando Ramos da Silva, cujo olhar vivaz e curioso emociona e injeta credibilidade no personagem) dão um espetáculo de naturalidade e despojamento. Inspirado nas técnicas do neo-realismo italiano, o diretor liberou os diálogos improvisados e evitou marcações de câmera muito rígidas. A decisão, extremamente arrojada para a época, impregnou o filme com um tom documental que também se reflete na iluminação, fria e escura, muito apropriada para sublinhas a sensação de desamparo e solidão que envolve todos os personagens.

O filme é claramente dividido em duas partes distintas. A primeira metade encontra Pixote num reformatório, para onde foi enviado depois de ser capturado por suspeita de envolvimento no assassinato de um juiz. Dentro do presídio para menores, cujas condições de higiene são horríveis, Pixote vê coisas que uma criança de 11 anos jamais deveria ver. Os carcereiros batem nas crianças, cobram favores sexuais das mães que aparecem para visitá-las, põem drogas para dentro da prisão, criam comércio ilegal lá dentro. Os detentos maiores e mais fortes descontam a raiva e a frustração por estarem ali nos menores e mais frágeis. Na primeira noite, Pixote assiste a um estupro, sem entender direito o que acabou de ver – a exposição dos meninos ao sexo é mostrada sem pudor, assim como a conseqüência direta disso, que é o desenvolvimento de uma sexualidade confusa e incompleta.

Para compensar a ausência dos pais – a maior parte deles foi abandonada ao nascer – os menores formam “famílias” entre si, com os mais velhos exercendo a função social dos adultos. Isso não acontece apenas porque eles sabem que têm mais chances de sobreviver, mas também para compensar um pouco a ausência de afeto familiar. A segunda parte flagra Pixote e sua “família” – formada por Lilica (Jorge Julião), Dito (Gilberto Moura) e Chico (Edílson Lino) – nas ruas de São Paulo, depois que eles fogem do reformatório. Ao contrário do que se pode imaginar, a situação nas ruas é ainda pior. Os meninos não têm outra maneira de sobreviver que não o crime. Roubam, assaltam, se envolvem com tráfico de drogas e prostituição, enquanto o grupo vai diminuindo. Os tons frios são substituídos por cores quentes, mas o filme continua noturno. Saem o azul e o cinza da prisão, entram o vermelho e o laranja dos letreiros em néon das boates vagabundas onde a fauna do submundo se reúne.

Babenco estrutura a narrativa de forma episódica, sem contar exatamente uma história com começo, meio e fim. Às vezes o filme parece meio sem rumo, sem saber direito como e para onde ir, mas isso é intencional – a história fica, como os personagens, meio à deriva. No meio dessa estrutura narrativa solta, algumas seqüências antológicas e/ou violentas. Uma delas focaliza a brincadeira predileta das crianças dentro da prisão: eles roubam um “banco” com pedaços de pau no lugar das armas (um dos meninos desiste de brincar porque Pixote o chama pelo nome verdadeiro durante o “assalto”). Depois que a prostituta Sueli (Marília Pêra) entra em cena, a voltagem emocional aumenta ainda mais, e tudo desemboca num final tristíssimo e inesquecível. Às vezes, “Pixote” parece cruel e desalmado, quando expõe as crianças a cenas dantescas de sexo e morte. Mas a vida na periferia é assim mesmo, implacável e impassível. Babenco apenas a filmou, com um grau de realismo pouco visto em filmes do gênero.

Os paralelos possíveis entre “Pixote” e “Cidade de Deus” são inúmeros. O uso de atores não-profissionais e o retrato acurado da vida nas favelas são apenas dois deles. A projeção internacional alcançada pelos participantes do projeto e outro. Elogiado no mundo inteiro, Hector Babenco foi filmar em Hollywood logo depois. Marília Pêra ganhou o prêmio de melhor atriz do ano no National Board of Review, o principal troféu distribuído pelos críticos norte-americanos. O crítico Roger Ebert incluiu “Pixote” em sua lista dos melhores filmes da história do cinema. Fernando Ramos da Silva, o protagonista, fez uma novela e integrou o elenco de dois outros longas. Mas não conseguiu dar seqüência à carreira, voltou à vida de delinqüente juvenil e acabou morto a tiros após uma perseguição policial, dentro da própria casa, em 1987. O destino do rapaz resume e encapsula toda a dor, a solidão e a tragédia da juventude nascida nas ruas.

Por incrível que pareça, “Pixote” ainda não está disponível em DVD no Brasil. Existe apenas em uma edição norte-americana sofrível, com enquadramento correto (widescreen 1.85:1 anamórfico) e áudio razoável (Dolby Digital 2.0).

– Pixote: A Lei do Mais Fraco (Brasil, 1981)
Direção: Hector Babenco
Elenco: Fernando Ramos da Silva, Marília Pêra, Jorge Julião, Gilberto Moura
Duração: 128 minutos

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