Planeta dos Macacos, O (1967)

31/03/2005 | Categoria: Críticas

Filme original de 1968 possui história criativa e um dos finais mais chocantes da história do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Estamos no ano de 3978, num planeta desconhecido. Três astronautas, recém-despertados de um sono artificial de dois mil anos, observam um bando de humanos que comem frutas e não conseguem articular palavras, numa enorme plantação. De repente, alguns ruídos estranhos e os homens das cavernas correm sem direção, aterrorizados. Os terrestres, agora chocados, vêem um bando de macacos vestidos de couro preto e montados em cavalos dispararem fuzis contra os humanos e transformarem-nos em escravos. Pela descrição, a cena pode parecer parte de uma comédia bizarra, ou de uma daquelas aventuras B que provocam gargalhadas, de tão ruins. Mas não é por aí. Em 1968, a seqüência arrancava gritos de susto e foi responsável por uma das maiores bilheterias da história, até aquele instante.

O clássico da ficção científica “O Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, EUA, 1968) consolidou de vez o status de filme cult, depois de lançamentos caprichados em DVD. A película original ganhou um disco remasterizado e, depois, uma caixa contendo todos os filmes (cinco) da série foi lançada, com um DVD extra incluindo um documentário de bastidores muito completo. Em 2004, para cmpletar, foi relançado como um DVD duplo excepcional.

“O Planeta dos Macacos” nasceu de um livro do francês Pierre Boulle, publicado em 1963. Para virar filme, a novela teve que enfrentar a resistência dos estúdios, que previam um fracasso de crítica e de bilheterias. Somente quando o astro Charlton Heston (então no auge, depois do megapremiado “Ben Hur”) entrou na briga pelo filme é que a Fox endossou a produção. O primeiro longa, dirigido por Franklin J. Schaffer, foi uma surpresa enorme para todos: amontoou filas gigantescas nos cinemas, intrigadas por um trailer que revelava um pouco da fantástica maquiagem dos macacos, e arrancou elogios das publicações especializadas.

Pudera. O filme era uma mistura engenhosa de ficção científica, aventura e suspense, e o roteiro funcionava como uma alegoria sombria para o futuro do planeta, então sob a ameaça da Guerra Fria. Além disso, ainda havia a fotografia brilhante da paisagem desoladora do tal planeta e, como toque final, a maquiagem perfeita dos macacos, que obrigava os atores a um chá de cadeira de seis horas e acabou por dar – muitos anos depois, diga-se de passagem, já que a Academia de Hollywood, seguindo uma tradição ainda em voga, ignorou a película solenemente na festa de 1969 – um Oscar honorário ao técnico John Chambers.

O sucesso do filme fez com que o projeto virasse uma franquia. Vieram então mais quatro longas, com tramas subliminares cada vez mais políticas: o segundo era um manifesto velado contra a ação americana no Vietnã; o terceiro abordava os conflitos raciais provocados pelos Panteras Negras; os dois últimos continuaram alargando a discussão sobre racismo. De certa forma, pode-se considera a série importante para a formação de uma consciência crítica na juventude norte-americana, porque esses filmes eram uma exceção à regra, falando de política e assumindo posições ousadas numa época em que o silêncio era comum. Está aí um dos grandes méritos dos filmes.

O primeiro, no entanto, é o mais bem filmado, com fotografia exuberante e direção firme. Vale relembrar a história: três astronautas viajam no espaço rumo a uma estrela na constelação de Orion, caem em sono profundo e acordam milhares de anos-luz depois, num planeta semelhante à Terra, só que comandado por macacos que escravizam humanos. Eles são presos e encarados como uma ameaça pelos líderes dos símios. Há belas seqüências, como a citada perseguição no milharal, mas o melhor mesmo vem no final. A última cena permanece como uma das revelações mais chocantes já mostradas pelo cinema americano. Só por ele, o filme já seria inesquecível.

Em reconhecimento a essa importância, a Fox colocou no mercado nacional o DVD do filme original, primeiro em uma edição simples, depois em outra especial, comemorativa dos 35 anos da película. O primeiro lançamento tem uma galeria de fotos de bastidores e os trailers originais dos cinco longas, além de uma presente especial para colecionadores e fãs: o som dublado em português é uma remasterização da trilha de áudio original de 1974, exibida nos cinemas nacionais. O filme no DVD nacional está em formato widescreen (sem cortes laterais), com som e imagem remasterizados digitalmente.

Já a edição comemorativa é um tesouro para fãs. No primeiro disco, que tem trilha de áudio em formato DTS, dois comentários em áudio (um reunindo os atores Roddy McDowell, Natalie Trundy, Kim Hunter e o maquiador John Chambers, e outra com o compositor Jerry Goldsmith) e um em texto, com curiosidades de cada cena. O disco 2 é bem farto. O extra mais importante é um superdocumentário de 120 minutos, abordando toda a série. Há ainda quatro featurettes (30 minutos ao todo), um teste de maquiagem original (9 minutos), cenas caseiras registradas pelo ator Roddy McDowell (20 minutos), cenas excluídas (20 minutos), seis trailers, galerias de pôsteres, fotos de produção e críticas. Um dos melhores DVDs já lançados no Brasil.

– O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, EUA, 1968)
Direção: Franklin J. Schaffer
Elenco: Charlton Heston, Roddy McDowall, Kim Hunter
Duração: 118 minutos

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