Planeta Terror

16/08/2008 | Categoria: Críticas

Um banho de sangue temperado com violência de cartoon, ação alucinada, mulheres peladas e música pop

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um banho de sangue, miolos e tripas temperado com personagens cheios de peculiaridades hilariantes, violência de cartoon, ação alucinada, mulheres peladas e música pop. O objetivo declarado do cineasta Robert Rodriguez em “Planeta Terror” (Grindhouse: Planet Terror, EUA, 2007) era reunir todos esses elementos em uma histórica simples, cheia de deliciosos exageros impossíveis. Movido por uma necessidade atávica de fazer uma homenagem nostálgica aos filmes B vagabundos que levavam multidões de moleques aos cinemas de bairro dos EUA na década de 1970, Rodriguez foi além, realizando uma sátira assumidamente caricata, que atualiza o gênero para o século XXI.

O ponto que mais chama a atenção no trabalho de Rodriguez é um curioso paradoxo. O diretor de ascendência mexicana, universalmente reconhecido como um dos profissionais contemporâneos que melhor domina a tecnologia digital, desta vez usa o que há de mais avançado na área para criar um visual analógico, com aparência de coisa velha. Além de realizar um excelente estudo de cores, neo-hippie, Rodriguez foi tão minucioso que submeteu o resultado final (a filmagem foi 100% digital) a um tratamento artificial de envelhecimento, de forma a reproduzir fielmente as projeções defeituosas dos velhos cinemas: chiados e estalos na banda sonora, arranhões e riscos nas imagens, solavancos na hora de trocar os rolos de película.

Na hora de filmar, contudo, Rodriguez não abriu mão da produção bem cuidada a que apenas diretores de prestígio em Hollywood têm direito. Se era para reproduzir o feeling dos chamados “exploitation movies”, talvez Rodriguez pudesse ter sido mais feliz filmando de forma vagabunda, sem cuidados técnicos, como ocorria com os originais. Aqui, tudo é tecnicamente impecável: luz perfeita, movimentos fluidos de câmera, uso correto de gruas (uma extravagância que filmes B de verdade não poderiam pagar), montagem veloz das cenas de ação. Até mesmo o uso de efeitos especiais, que nas produções baratas eram tão toscos que chegavam a provocar gargalhadas, é perfeito, como prova a figura icônica da heroína Cherry (Rose McGowan, deliciosa), uma dançarina de cabaré que tem a perna direita arrancada e ganha, no lugar do membro, um implante pouco usual – uma metralhadora. De qualquer forma, o resultado final é muito divertido.

A história é a seguinte: depois de um incidente violento envolvendo um cientista colecionador de testículos humanos (Naveen Andrews) e um militar durão (Bruce Willis), gás venenoso é liberado sobre uma pequena cidade do Texas. O produto químico provoca queimaduras que lentamente transformam os moradores em zumbis canibais. O filme enfoca a praga se espalhando, enquanto os poucos sobreviventes precisam se defender do ataque dos monstros gosmentos. Os líderes do grupo de rebeldes são a já citada Cherry, o ex-namorado carateca (Freddy Rodriguez) e o xerife casca-grossa (Michael Biehn). Há duas ou três tramas paralelas, como a que envolve um casal de médicos em crise conjugal (Josh Brolin e Marley Shelton), ele um cara ciumento, ela tentando esconder a homossexualidade latente. Essas subtramas carregam a responsabilidade de injetar na trama elementos caros ao gênero, como desvios sexuais, psicopatia e uma boa dose de misoginia.

“Planeta Terror” é filho legítimo de Robert Rodriguez, exibindo visível fascinação pela cultura trash de excessos dos anos 1970 e caprichando nos excessos de violência gráfica (“Sin City”) e no humor bêbado (“Era uma Vez no México”) que caracterizam a obra anterior do diretor. O trabalho de edição favorece as seqüências de ação alucinadas, mas o cineasta não esquece de acrescentar piadas à mistura. Em determinada cena, por exemplo, um personagem foge de zumbis pilotando uma mini-moto que faz uma Scooter parecer um caminhão. Noutra, com ponta de luxo de Quentin Tarantino, há quantidade suficiente de gosma e sangue falso para encher uma piscina olímpica. Eca!

Nos Estados Unidos, o filme foi lançado em um megafilme intitulado “Grindhouse”, sessão dupla que incluía um segundo filme de idêntica duração (assinado por Quentin Tarantino e intitulado “Prova de Morte”) e mais quatro trailers falsos. A idéia era reproduzir em detalhes a experiência, comum na década de 1970, de manter a platéia anestesiada durante tardes e noites inteiras dentro de cinemas classe B. Estas casas eram intituladas exatamente “grindhouses”, e exibiam obras filmadas a toque de caixa, com enredos disparatados que uniam elementos populares – perseguições de carro, lutas de kung fu, mulheres peladas, sexo semi-explícito e muito sangue falso – sem preocupação com coerência ou lógica realista.

Cheio de cenas exageradas, “Planeta Terror” reproduz o ritmo insanamente rápido dessas obras, prestando atenção especialmente na química entre humor, sexo e sangue. Atinge o objetivo com êxito, se dando ao luxo de até mesmo reproduzir os defeitos técnicos comuns no ambiente pouco profissional dos cinemas B – tente não gargalhar com a ótima piada do “missing reel”, que tira sarro com a ausência de trechos inteiros de filmes, perdidos na bagunça que eram as salas de projeções da época. Por outro lado, considerando que o tipo de cinema emulado por Rodriguez não buscava qualquer preocupação artística, os detratores podem afirmar que talvez o diretor tenha levado a sério demais toda a empreitada, de forma que parte do charme da experiência acabou se perdendo no processo, tornando o resultado final um tantinho artificial. É verdade, mas dê um desconto e divirta-se.

O DVD lançado pela Europa Filmes é duplo. No primeiro disco, o filme completo, em versão mais longa do que a exibida nos cinemas, preservando o enquandramento original (widescreen anamórfico) e com boa qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1). O disco 2 traz entrevistas e cenas de bastidores, além de versão do longa em formato MP4.

- Planeta Terror (Grindhouse: Planet Terror, EUA, 2007)
Direção: Robert Rodriguez
Elenco: Rose McGowan, Freddy Rodriguez, Josh Brolin, Marley Shelton
Duração: 80 minutos (sem trailers)

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2 comentários
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  1. Só eu que achei esse um dos piores filmes do ano?
    E isso de prestar homenagem ao cinema B dos anos 70 é balela. Se quisessem fazer realmente uma homenagem que tivessem o objetivo de fazer um filme e não um escrete dos Trapalhões.

  2. Realmente..o filme é uma amostra dos “Cults” dos anos 70….mas…e dai?… o filme é fantastico!. so me resta perguntar..e Um Drink no inferno 4?..sae quando? heheh abraços!

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