Plano Perfeito, O

30/08/2006 | Categoria: Críticas

Spike Lee comanda grande produção e acerta a mão em thriller empolgante e despretensioso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Em geral, cineastas que revelam talento no cinema independente não demoram para assinar contrato com os grandes estúdios de Hollywood. No processo, quase sempre costumam pasteurizar o cinema que produziam no início e viram burocratas a serviço de bilheterias gordas. Uma das exceções a essa regra é Spike Lee. Durante duas décadas, o cineasta nova-iorquino soube trabalhar com pouco dinheiro e dirigir filmes ousados, engajados, muito superiores à média das produções surgidas nos EUA. “O Plano Perfeito” (Inside Man, EUA, 2006) marca a chegada de Spike Lee ao mundo dos blockbusters, e da melhor forma possível.

“O Plano Perfeito” é um thriller despretensioso, empolgante e muito inteligente, dirigido com mão firme por um diretor que não esqueceu de introduzir no longa-metragem suas marcas registradas, mas de forma elegante e discreta. Quem souber procurar vai encontrar, aqui e acolá, comentários venenosos de Lee sobre o racha social e o preconceito velado que servem como vértices da sociedade norte-americana. São comentários perfeitamente integrados à trama. Dois dos personagens – um hindu e um menino negro – protagonizam cenas curtas, mas impactantes, que funcionam como pedradas na parcela mais conservadora dos habitantes do país.

À primeira vista, este é mais um da extensa galeria de filmes sobre roubos meticulosamente planejados. De Stanley Kubrick (“O Grande Golpe”, de 1956) a Steven Soderbergh (“Onze Homens e Um Segredo”, de 2001), muita gente boa já enveredou pelo ramo, com resultados nem sempre bons. Mas Spike Lee passa no teste com louvor. Mesmo trabalhando com um enredo de gênero completamente distinto do que costuma fazer, o cineasta mostra grande competência. Do elenco perfeito à montagem não-cronológica brilhante, Lee manipula os elementos tradicionais desse tipo de filme com perícia.

É verdade que o diretor teve um roteiro de primeira grandeza para trabalhar. A história bolada por Russell Gerwitz é intrincada e cheia de lances imprevisíveis, apesar de ser calcada numa situação aparentemente muito simples: um ousado assalto ao luxuoso Chase Manhattan Bank, no centro comercial de Nova York. Em determinado dia, quatro bandidos liderados por Dalton Russell (Clive Owen) invadem a agência, vestidos com macacões, máscaras e óculos escuros, trancam as portas e fazem todos os funcionários e clientes de reféns. A polícia logo descobre o seqüestro e cerca o local, enviando o detetive Keith Frazier (Denzel Washington) para negociar com os bandidos.

Aos poucos, Frazier começa a perceber que o plano da quadrilha parece não fazer sentido. Uma inspeção rigorosa nos arredores do banco, por exemplo, demonstra que os meliantes foram desleixados e não planejaram uma maneira de fugir, chegando mesmo a abandonar um furgão numa rua lateral. Além disso, eles demoram demais a começar as negociações e fazem exigências extravagantes e difíceis de cumprir, como dois ônibus e um avião com piloto para que o grupo possa fugir levando, junto, os reféns. Qualquer amador sabe que a polícia não permitiria uma fuga desse tipo, jamais registrada em nenhum país do mundo. O que será que os ladrões querem de verdade?

Dentro do banco, por outro lado, o espectador percebe que o roubo foi, sim, minuciosamente planejado, coisa que Spike Lee demonstra a partir de idéias simples, mas engenhosas, dos bandidos. Quantas quadrilhas se dariam ao luxo de, por exemplo, vestir todos os reféns com macacões e máscaras semelhantes aos usados pelo bando? Com quem motivo fariam isso? Qual a razão para que o grupo tenha lacrado as portas do banco ao entrar, dificultando ainda mais a já remota possibilidade de fuga? E por que os ladrões demonstram tão pouco interesse pelos volumosos pacotes de notas de 100 dólares que recheiam o cofre da agência?

A resposta pode estar no personagem de Arthur Case (Christopher Plummer), milionário dono do banco, que mantém uma pasta com conteúdo secreto dentro da caixa-forte daquela agência. Case, aliás, não está preocupado com os milhões de dólares depositados no banco ou com as vidas dos reféns, mas apenas em preservar a própria pele. É por isso que contrata a advogada Madeleine White (Jodie Foster), que recebe a sigilosa missão de recuperar a qualquer custo o objeto escondido no banco, embora ela própria não saiba que objeto é esse.

Depositando esses elementos aos poucos em cima da mesa, Spike Lee constrói um quebra-cabeça empolgante, manipulando-os com inteligência e promovendo o clássico jogo de gato e rato entre três mentes brilhantes. Um exemplo do domínio completo que o cineasta demonstra sobre a narrativa está na montagem não-cronológica, que alterna a narrativa o seqüestro com depoimentos dos reféns, conduzidos por Frazier após o encerramento da ação criminosa. Não se trata de um malabarismo técnico gratuito. Lee sabia que, caso optasse por mostrar essas cenas na ordem cronológica correta, iria criar um final longo, maçante e sem clímax. Além disso, os depoimentos ajudam a alimentar o espectador com pistas sobre a maneira como o roubo vai terminar, o que adiciona suspense à narrativa.

Aliás, “O Plano Perfeito” abre com uma dessas cenas pinçadas do futuro: um depoimento de Dalton Russell em primeira pessoa, posterior ao roubo. Com base no que vê, a platéia imagina que já sabe como o filme vai terminar, mas na verdade está longe disso. “Prestem atenção às minhas palavras, pois eu escolho cada uma cuidadosamente”, diz o homem, olhando fixamente para a câmera. Quando o filme termina, a frase ressoa na cabeça com um significado completamente diferente do que tinha no princípio, e é somente então que percebemos que Clive Owen estava nos dando uma pista sobre o desenrolar da operação criminosa. Com pista ou não, ela é bem difícil de antecipar.

Owen, aliás, é o maior destaque de um elenco homogêneo e competente. O ator inglês, que vem se destacando por seguidos bons filmes desde “Closer” (2003), dá mais uma demonstração de carisma e personalidade forte ao imprimir charme ao líder dos bandidos, mesmo passando a maior parte do filme com o rosto coberto por uma máscara. Denzel Washington e Jodie Foster também confirmam a excelência que se espera de dois vencedores do Oscar, com performances seguras valorizadas pelos ótimos diálogos. Para completar, Willem Dafoe e o veterano Christopher Plummer aparecem em papéis pequenos, mas importantes.

O único senão de “O Plano Perfeito” está na fotografia desnecessariamente rebuscada de Matthew Libatique. Abusando de travelling circulares até mesmo para mostrar conversas triviais entre dois personagens, Libatique também é adepto dos longos planos-seqüência que costumam fazer a fama dos diretores de fotografia, mas às vezes comete o erro de posicionar a câmera perto demais dos atores, o que impede o espectador de compreender a cena como um todo, já que não consegue visualizar todo o desenrolar da ação. A técnica acaba chamando a atenção excessivamente para o trabalho de câmera.

De qualquer forma, “O Plano Perfeito” é uma demonstração cabal de como os grandes cineastas podem injetar personalidade em produções de estúdio, entregando peças de entretenimento despretensiosas, mas com tutano. Filmes como “O Plano Perfeito” jamais subestimam a inteligência do público, e é aí que está a chave do sucesso. Faça o teste: quando o filme acabar, repasse toda a história em detalhes e tente encontrar algum buraco ou falha no roteiro. É bem provável que você não encontre nada significativo para mencionar, o que é bem raro em filmes de roubo. Spike Lee honra a tradição das melhores produções do gênero ao fazer um dos grandes filmes do primeiro semestre de 2006.

O DVD da Universal é simples e não tem extras. A qualidade do filme é boa, com imagem excelente (widescreen anamórfico) e som OK (Dolby Digital 5.1).

– O Plano Perfeito (Inside Man, EUA, 2006)
Direção: Spike Lee
Elenco: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Willem Dafoe
Duração: 128 minutos

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