Plano Simples, Um

12/05/2006 | Categoria: Críticas

Sam Raimi foge do óbvio em thriller tenso sobre a cobiça numa entediada cidadezinha gelada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Um Plano Simples” (A Simple Plan, EUA, 1998) é tudo aquilo que um cinéfilo espera de um bom thriller: um filme tenso, inteligente, com personagens bem desenvolvidos, surpresas bem encaixadas e atuações suculentas de um elenco em plena forma. O filme de Sam Raimi realiza um excelente estudo sobre o modo como a cobiça é capaz de afetar os códigos éticos e a moral de pessoas honestas, atualizando, para o século XXI, o tema predileto do legendário cineasta John Huston. “Um Plano Simples” funciona como o irmão mais novo do estupendo clássico “O Tesouro de Sierra Madre” (1948).

É verdade que o longa-metragem toma forma, na carreira do diretor, como uma bola de basquete no meio da neve. Um verdadeiro estranho no ninho. Afinal, o cineasta se especializou em narrativas ligeiramente cartunescas, bem-humoradas e juvenis, como é o caso da trilogia de horror “Uma Noite Alucinante”. “Um Plano Simples”, ao contrário, é uma história adulta, uma admirável narrativa de tensão controlada, conduzida com mão firme. De certa forma, dá para dizer que o filme fornece uma boa pista de como a carreira de Raimi poderia ter tomado um rumo diferente, caso ele não tivesse se envolvido tanto com a franquia do Homem-Aranha.

Adaptado de um romance de Scott B. Smith, com roteiro do próprio escritor, o filme parte de uma premissa dramática tão simples quanto poderosa. A história se passa em uma minúscula cidade do meio-oeste americano, durante um rigoroso inverno que mantém as vastas planícies cobertas por meio metro de neve. É um lugar onde Judas perdeu as meias (as botas já tinham ido embora um pouco antes), uma cidadezinha em que os moradores não têm muito mais a fazer, a não ser encher a cara no boteco mais próximo. Um lugar tedioso onde nada acontece. Ou quase nada.

Certo dia, um trio de amigos encontra, por acaso, um avião monomotor enterrado no gelo. Dentro da carcaça de metal, uma bolsa contendo US$ 4 milhões. Um dinheiro aparentemente sem dono. O que fazer com a bolada? Eles são três caras honestos, mas a oportunidade de fazer fortuna é grande demais para ser ignorada. O mais correto dos três, o fazendeiro Hank (Bill Paxton), é também o que tem mais iniciativa. A princípio ele não quer a grana, mas cede aos apelos do irmão Jacob (Billy Bob Thornton), um deficiente mental, e do alcoólatra Lou (Brent Briscoe). Eles combinam fazer silêncio absoluto sobre a grana, enquanto Hank guarda a bolsa durante alguns meses. Caso o dono não apareça, dividirão o dinheiro. Um plano que parece simples. Só parece.

Sam Raimi faz um excelente trabalho na direção, criando uma ambientação desolada a partir do uso de longas tomadas panorâmicas de campos nevados, bem como de extensos períodos de silêncio na banda sonora. Ele é auxiliado na tarefa de construir um bom filme pelo elenco inspirado, liderado por Billy Bob Thornton, num dos melhores papéis da carreira. Billy é o protagonista da seqüência mais genial do longa-metragem, durante uma tensa discussão entre os três amigos, quando as coisas começam a dar errado. Além dele, merece destaque Bridget Fonda, que interpreta Sarah, a esposa grávida e cheia de escrúpulos de Hank, cujos olhos faíscam a partir do momento em que vê o dinheiro.

O roteiro reserva à platéia alguns lances surpreendentes, distribuídos com cuidado na narrativa, de modo a jamais deixar o espectador certo do que vai ocorrer em seguida. O único vacilo é a tentativa um pouco excessiva de criar um passado complexo para os irmãos Hank e Jacob. Isso é feito sem o uso de flashbacks, apenas a partir de longas cenas de diálogos. Se de um lado valorizam ainda mais o trabalho dos atores, esses momentos também deixam o filme progressivamente mais e mais verborrágico.Mesmo com o devido desconto, o resultado final é uma delícia.

O DVD nacional é da PlayArte e decepciona. Disco simples e sem extras, traz o filme com a fotografia mutilada por cortes laterais (4:3, ou tela cheia) e som, em inglês, com apenas dois canais (Dolby Digital 2.0). Para completar a decepção, durante um trecho crucial do filme, de aproximadamente 20 minutos, as legendas em português perdem a sincronia com o áudio, com as linhas passando a aparecer uma fala antes do correto, o que prejudica severamente a compreensão, caso o espectador não entenda inglês. Erro lastimável da PlayArte.

– Um Plano Simples (A Simple Plan, EUA, 1998)
Direção: Sam Raimi
Elenco: Billy Bob Thornton, Bill Paxton, Bridget Fonda, Brent Briscoe
Duração: 121 minutos

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